quarta-feira, 10 de junho de 2015

São... São... Paulo(s) - cidades dentro da cidade

Parte I - a primeira cidade

Quadro dias hospedados em um hotel, um feriado espremido ao meio, em pleno centro (o velho) de São Paulo, exatamente a 22 km de casa. Uma viagem, garanto (na própria terra).

Proposta: flanando, mapear algumas dessas "cidades"  dentro da megalópole.

A primeira atração da viagem: o próprio hotel. Ícone da arquitetura modernista, com uma história (histórias) fantástica que se confunde com a cidade em toda a segunda metade do Século XX.



Projetado pelo arquiteto alemão Franz Heep sobre um projeto já existente desde 1946, da família Mesquita, para abrigar o jornal O Estado de São Paulo, a rádio Eldorado e o hotel Jaraguá no então chamado Centro Novo. O ousado edifício foi concluído em 1954 em plenas festividades do IV Centenário da cidade, recebendo em suas instalações os participantes da primeira edição do Festival Internacional de Cinema ocorrido naquele ano.  A partir daí, tornou-se uma referência internacional. Personalidades ligadas ao mundo das artes, do cinema, chefes de estado, empresários, heróis, reis e rainhas, passaram por ali. A instalação de hotéis concorrentes nos arredores e, posteriormente, a ida das grandes redes hoteleiras para o "novo centro", ou seja, Av. Paulista e entorno, contribuíram para que o hotel entrasse em decadência e consequente fechamento em 1998. Bem antes, o próprio jornal O Estado de São Paulo já havia saído de lá.
Já com novos proprietários, o edifício sofre uma reforma interna radical. A parte externa e os murais artísticos (Di Cavalcanti e Clóvis Graciano) ficaram inalterados, pois são tombados como Patrimônio Histórico Estadual.




Uma pena que, para sobreviver, o hotel desta história toda, tenha se submetido aos desígnios dos novos tempos, ou seja, voltado para o turismo de "negócios" deixando poucos vestígios do glamour dos turistas que viajam pelo prazer da viagem. Uma pena que hoje, esse turistas (brasileiros e estrangeiros) também não sejam informados do quanto aquele então "Centro Novo" e hoje chamado de "Centro Velho" pode ainda oferecer em termos de atrativos.
(Mais detalhes arquitetônicos desse edifício, bem como de suas circunstâncias histórias podem ser obtidos, AQUI . Trata-se de um trabalho apresentado pela arquiteta urbanista Carmem Alvarez, em 2007, no Seminário "O Moderno já Passado / O Passado no Moderno", em Porto Alegre.  Vale a pena conhecer.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas, ainda assim, com uma boa dose de imaginação e sentido da história, o viajante da atualidade poderá entrar no clima do vivido alheio e usufruir do clima do momento do qual sempre se pode extrair encantamento, uma vez que é composto de gente e gente, como queria o poeta, é para brilhar.

Durante os dias que lá estivemos, assistimos, como ocorre em hotéis de grande circulação no mundo inteiro, tanto ao café da manhã quanto simplesmente sentados no hall de entrada a fingir que se lê o jornal do dia, mas atentos ao espetáculo de culturas, através dos viajantes que ali ficam hospedados em Congressos e Seminários internacionais, do qual tiramos muitas destas informações.

Dois grandes grupos (um indiano e outro senegalês) chamavam atenção pela beleza física e trajes de suas mulheres. No lugar da Rainha Elizabeth que por lá passou nos anos 50, uma incógnita (ao menos para mim) rainha africana que, ao lado do seu belo par e do alto de seus 1,80m, circulava com uma colorida e segura leveza que deixava tudo ao redor em suspenso. Os brilhos dos panos das indianas, com seu andar manso mas decidido também iluminavam os espaços comuns. O espetáculo de cores e sorrisos era todo comandado por elas, na sua grande maioria, ladeadas de homens opacos, amarrados com crachás de identificação ao peito,  semblantes sombrios.
A recusa ao crachá - essência da revolução feminista, não tenho dúvidas.

excertos do diário de bordo:



quem, antes entrou?


quem antes se viu?
quem antes se deitou?

quem, à janela deste 23º andar
                mirou tantas outras janelas?
que cenas anotou?




Sair e ver de perto o que de cima é irreal

(anotar as sombras)

sábado, 16 de maio de 2015

Manhã de Maio

A luz desta manhã de maio me convidou a andar. Anotar a cidade e suas passagens, um exercício adorável, mas que tenho praticado pouco.
Agora, luz natural já apagada, reabro um livro de um poeta que andei a reler nos últimos dias, Edimilson de Almeida Pereira, mineiro/brasileiro/universal.
Como poesia (a boa poesia) jamais envelhece, copio aqui um dos poemas, de uma página aberta ao acaso, lido com o frescor deste dia.


POROS

Maio convida a passeios.
Tudo exposto como se alguém
deixasse a luz acesa.
Sorri um crime de besouros,
um filho chega à janela.
O homem antevê seu chapéu.
Nomes não chamam ninguém
mas costuram o mundo.
Se a ferrugem floresce,
abre incêndios nas calhas.
O que é permanência dura
um eclipse

in As Coisas Arcas, obra poética 4, Funalfa Edições, 2003


sábado, 25 de abril de 2015

Mísia - Fado, portugueses em São Paulo, 25 de Abril

Chegamos cedo. A noite tépida outonal convidava e a espera aguçava a curiosidade.


Teríamos um "show de fados - Mísia e Pedro Moutinho" em "Comemoração do 41º aniversário do 25 de Abril a revolução dos Cravos que restaurou a democracia em Portugal - Apresentação dos cantores Mísia e Pedro Moutinho.", anunciavam os cartazes (sic).
A Casa de Portugal ocupa um belo, mas sombrio edifício, no chamado centro velho de São Paulo, região igualmente bela e sombria. Está lá há 80 anos e tem histórias relevantes nessa trajetória luso-brasileira. Trata-se, portanto, de uma respeitável senhora entrada em anos a quem devemos relegar eventuais falhas e faltas. Como ali não se faz nada que não seja, antes, acompanhado de acepipes, lá estavam os bolinhos de bacalhau,  alheiras e vinho. Não sem alguma ternura, observo, enquanto espero,  fisionomias "familiares" sem que lhes conheça nomes ou sobrenomes. "Familiares" porque, afinal,  nos une a condição de "emigrantes" que para esta megalópole vieram e "brasileiros", como eu, se tornaram. Estão ali, não pelos pastéis, alheiras ou vinho. Ali vieram para resgatar um elo, frágil que seja, que a pátria primeira insiste em ligar suas memórias. A mesa e a memória dos sabores primevos é o primeiro impulso, depois vem a memória sonora, aquela que estabelece o elo estético, por mais rude que tenha sido a infância de muitos deles. Vieram, viram, venceram, ficaram. E como o retornado de Camilo, acalentaram por muitos anos o sonho do retorno, mas jamais voltaram e, se ocasionalmente o fizeram, foi para se reconhecerem naquilo que um dia foram e que não são mais, ainda que marcas indeléveis do rizoma insistam e forneçam sinais e, por vezes, provoquem dores não identificáveis.
Muitos cabelos brancos, algumas bengalas, próstatas que obrigam a levantar algumas vezes durante o espetáculo. Pouco importa, é preciso estar ali para identificar ou tentar identificar o que se foi/é. É fado? Vamos! E foram, muitos. E não sabiam, ao menos grande parte deles, sequer quem era Misia, mas era fado... Foram.
Com todo o meu carinhoso respeito e que me desculpe o jovem fadista que abriu o espetáculo, mas quando Misia subiu ao palco, com seu elegante vestido negro e uma enorme rosa vermelha ao peito, silhueta de bailaora andaluz, mas de legítima essência lusitana, toda a memória do que ali se passara antes, simplesmente desapareceu (ao menos para mim que ali estava, mais uma vez, rendida).  
Até a fúria inicial dos celulares (essa odiosa prática dos nossos dias) foi amainada, tamanha era esta nova "fúria", a da arte de Misia, que ali se instalava. O primeiro número foi, eu diria, revestido de uma certa "neutralidade" de ambas as partes, momento de reconhecimento entre palco e plateia. Já no intervalo entre este e o segundo número, Misia evoca Amália com reverência e justiça, referindo-se ao coro da plateia que fora ouvido momentos antes, ao entoar,  junto ao Pedro Moutinho, o fado "Nem às paredes confesso", pontuando que "Amália está cada vez mais viva e o coro é prova disso".
A partir daí, a empatia acontece e sua presença passa a preencher todos os espaços, do palco à plateia e a invadir todos os sentidos. Simplesmente hipnótico. Quando sua poderosa voz, antes mesmo da introdução da guitarra, à capela, ecoou naquela sala quase centenária, soube-se que não se estava diante de apenas mais uma fadista, mas de uma quase entidade, expressão legítima de um sentimento genuinamente português. Ali estava alguém que parecia não ser dali, mas ao mesmo tempo pertencia a todos que ali estavam.
Misia, uma vez mais, demonstrou que jamais esgota suas possibilidades interpretativas, não só interpreta o Fado de uma maneira única, como também reflete e faz refletir sobre esta canção tão urbana, tão portuguesa/universal e, diga-se, depois de Amália e Mísia, tão literária. Nada nela é linear ou sossego. Nada em Misia faz concessões à facilidade, mas ao desassossego. Mas, por mais paradoxal que seja, tudo nela é tão claro e luminoso que essa complexidade torna-se tão natural para o receptor que a empatia torna-se imediata, dando-nos a sensação de isso é "tão simples" e "natural". Misia vai com muita facilidade desse enganosamente simples ao dramático extremo e, nisso é imbatível. Primeiro porque há que se ter o fado nas entranhas, o que se vem a chamar de talento, depois, porque é preciso chão e vivências para chegar ao grau de dramaticidade a que chegou esta artista. Tudo nela é representação e, por essa imensa capacidade de estar no palco e representar, é que tudo nela, afinal, é verdadeiro, dramaticamente verdadeiro.
Estávamos, portanto, diante de um patrimônio da língua e da cultura portuguesa, uma artista que, como ninguém, representa para o mundo o moderno Portugal, sem jamais deixar de estabelecer conexão com a tradição.
Sem jamais abrir mão do Fado Menor, no qual é simplesmente inigualável, passa por inúmeros outros gêneros, apropriando-se de culturas outras (espanholas, francesas, brasileiras), ora transformando-as em fado, ora mantendo-as em suas tradições às quais introduz um toque misiano (e fadista) inconfundível.
Lá pelo meio do inesquecível recital, no qual Misia cantou literatura (Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luiz, Fernando Pessoa, Saramago, dentre outros) veio o grande tributo a Amália. De forma emocionada e emocionante, interpreta "Tive um coração, perdi-o", versos da própria Amália e música de José Fontes Rocha. Foi aí que se deu o que Amália chamava de "Acontecimento". O Acontecimento, ou seja, as alturas a que podia chegar e a que Mísia, ao homenagear sentidamente Amália, chegou. Para quem  atentamente acompanhava o recital, não foi difícil perceber que naquele momento o "Acontecimento" se deu, a ponto da visível emoção da intérprete, fio condutor mais do que perfeito, conectar com a plateia, igualmente emocionando-a. Culminância dos sentidos e do ato de cantar e comungar. Momento único em que a discreta lágrima da artista, ao final do número, comprovou.
O último número veio com a boa notícia de um novo trabalho, para Amália e com Amália, a sair em outubro. Para ilustrar e aguçar a expectativa, um fado de Mário Cláudio para Amália, em absoluta primeira vez. No bis, insistentemente solicitado por uma plateia já cativada, uma canção brasileira de um dos mais brasileiros dos nossos compositores, Dorival Caymmi (uma canção de 1941, em parceria com Jorge Amado, inspirada no romance deste último, Mar Morto), a bela "É doce morrer no mar", já agora Fado, na voz e interpretação de Misia.
Estava cumprido o propósito do espetáculo alusivo ao 25 de Abril, sem que uma só palavra da artista o tivesse dito. Mas o Portugal pós 25 de Abril ali estava, o Portugal moderno e democrático, mesmo com todos os percalços, rupturas, equívocos, desvios, esquecimentos dos ideais daqueles já distantes anos. Uma noite para não esquecer.

Em tempo: abaixo, uma gravação do bis (amadora), por um agente secreto por mim contratado (licença poética sem fins comerciais), que roubartilho.





domingo, 29 de março de 2015

Retorno, licença poética e lembrete de Vieira

Texto originalmente publicado no Facebook:

12 dias licenciada  da rede. Uma licença poética, literalmente.
Experiência Detox pela poesia. Poesia todos os dias, na veia, em doses cavalares.
Retorno porque toda dieta é assim, provisória. Desintoxica para intoxicar novamente.
Para completar a desintoxicação, desci a serra. Mergulhar o corpo na água salgada. O costumeiro verde mata atlântica, nesta época, todo salpicado de rosa e branco (os manacás). Exuberância de Outono. Eficiência comprovada da receita.

Nesse meio tempo, os deuses cibernéticos derramaram sua vingança sobre mim e me brindaram com uma épica gripe. Não tive como evitar uma analogia com os dois personagens de Sarapalha, sua febre terçã e sua recusa a sair do lugar ("Ir para onde?... Não importa, para a frente é que a gente vai!.."). Trêmula, pensava neles enquanto soprava a xícara de chá fervente. Entre tremores e zumbido no ouvidos, entupidos (eles de quinino, eu de chá de alho com limão), irmãos nas maleitas humanas.
Nesta pausa de silêncio e leituras notei o seguinte:

- A vida fora do FB é bem menos frenética. Não se ouvem tantas vozes ao mesmo tempo, as pessoas seguem seu cotidiano, vão ao supermercado, ao açougue, ao cabeleireiro, à livraria, ao shopping, trabalham, descansam e a vida urbana segue sem tantos especialistas, vida feita de gente de carne osso, remelas, coceiras, febres, torções e, claro, sorrisos e gestos de bem querer.

- O FB pode ser, sim, interessante. Confesso que senti falta de balizar minhas opiniões com as de gente que respeito e admiro. Ainda que de maneira um tanto quanto oblíqua, entrei diariamente por aqui, pois a comunicação via email está gradativamente desaparecendo. Na suposição de que estamos on-line diuturnamente, as mensagens, em sua esmagadora maioria, são enviadas pelo "messenger" do FB. Mas resisti e cumpri a licença à risca.

Termino, com Pe. Antonio Vieira, relido também nestes dias, que me alertou sobre o Facebook: "A maior graça da natureza, e o maior perigo da graça, são os olhos. (...)  o maior perigo e o maior laço são os olhos alheios. E por quê: Porque sendo tão natural do homem o desejo de ver, o apetite de ser visto é muito maior. (...) Tão imortal é nos mortais o desejo de ser vistos!" ("Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma - Pregado na Misericórdia de Lisboa, no Ano de 1669", in "Sermões", organização Alcir Pécora, 2 volumes, Ed. Hedra, tomo 1, 2001)


domingo, 8 de março de 2015

Mulheres


O Dia Internacional da Mulher deveria ser lembrado (e não o é) pelo que verdadeiramente evoca, ou seja, um ato bestial cometido contra 109 operárias, em 1908, em Nova York, que foram queimadas vivas pela polícia na fábrica têxtil Cotton, onde trabalhavam. Tinham reivindicado a diminuição da jornada de 14 para 10 horas, aumento salarial e melhoria nas péssimas condições em que viviam. Conta-se que, algumas delas, chegavam a ter os filhos dentro da fábrica. Como não foram atendidas em nenhum de seus pedidos, ocuparam a fábrica e a solução encontrada pelos policiais foi matá-las. A partir daí comemora-se essa data mundialmente em homenagem a essas mulheres.

Passados mais de 100 anos daquele fatídico episódio,  pouco ou nada mudou, nem no mundo do trabalho, muito menos no universo doméstico. A mulher  ainda não recebe salário igual ao dos homens para funções iguais. Surpreendentemente, a sociedade, mostra-se cada vez mais machista com a consequente e inaceitável violência praticada diuturnamente contra as mulheres de todos os níveis sociais, violência não apenas física, como também moral. Bom exemplo disso são os repugnantes comerciais de cerveja (carros, turismo e outros) que insistem em associar a imagem da mulher a mercadoria saborosa e de fácil consumo. 

Refletir sobre o significado desse dia e do seu universo simbólico é também rejeitar as "homenagens" de políticos, comerciantes e eventuais desavisados que, ao contrário dos tais comerciais, associam a imagem da mulher a uma flor, à beleza, à ternura e outras baboseiras que da mesma forma só disfarçam o machismo institucionalizado.

Muito conquistamos, muito ainda nos falta. Trocar os presentes deste dia 08, por ações diárias e permanentes é a proposta. Sem perder a ternura, vá lá...

Alô, alô, mulherada que vai à luta, aquele abraço...

Alô, alô, mulherada que pensa, aquele abraço...

Alô, alô, mulherada que protesta e sabe dos porquês, aquele abraço...

Alô, alô, mulherada parideira, criadeira, educadora, provedora, profissional de todas as funções e artes do universo, aquele abraço...

"deram-lhe um dia
apenas um dia
(devem-lhe séculos)

Na tentativa de remissão
as flores constrangidas
(homenagem tardia)"

         dtv

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

70 anos sem Mário

Há 70 anos morria Mário de Andrade, admirável escritor e intelectual brasileiro, sempre adiante de seu tempo. Atuou como pesquisador da arte, da música e da cultura brasileira, praticou (com fins de pesquisa) a fotografia e o diário de viagem. Publicou romances e poemas centrais na literatura brasileira.  Pensou o Brasil através da cultura, mapeando a cultura musical e popular de Norte a Sul do país. Foi também um imprescindível gestor público de cultura. Primeiro Secretário Municipal de Cultura de São Paulo, criador da Biblioteca Municipal que hoje leva o seu nome. Mário foi trezentos e o foi em altíssimo grau. Não dá para compreender a vida cultural e literária brasileira (política, social e artisticamente falando) da primeira metade do Século XX sem passar por sua obra, inclusive a epistolografia, que praticou de forma admirável e com uma generosidade para com seus pares pouco vista até os dias de hoje. Um homem manso que, quando cutucado, sabia se enfurecer.
O poema "Ode ao burguês" (de Paulicéia Desvairada" - copiei de meu exemplar de "Poesia Completas"Círculo do Livro, 1976) é bem um exemplo dessa "fúria". Ele sabia muito bem do que falava, pois frequentava, apesar de pobre - vivia de suas aulas de música - os salões literário da alta roda paulistana.
Deixo aqui também um link para uma leitura igualmente "enfurecida" do ator, meu amigo, Ayrton Salvanini, que faz parte de um bom programa televisivo em homenagem a Mário de Andre. Bom proveito: Bom proveito:

Ode ao burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura! Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tilburi!
 Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
 — Um colar... — Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!


Fora! Fu! Fora o bom burguês!..

https://www.youtube.com/watch?v=41BXXBUiwAY




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O Tejo em versos de Sebastião

O Tejo desde o Castelo de São Jorge (foto dtv, 2012)

Dia destes, o amigo Luís Avelima postou em sua TL do Facebook um poema de Sebastião da Gama, seguido de pertinentes comentários sobre aquele poeta português, inexplicavelmente quase desconhecido entre nós (não conheço nenhuma edição brasileira de seus poemas - tenho-os na coleção "Obras de Sebastião da Gama" das Edições Ática (Lisboa), em 7 volumes).
Como (quase) todos aqueles a quem os deuses amam, viveu pouquíssimo o nosso poeta (1924-1947 - 23 anos apenas) e deixou uma obra que mereceu elogios de inúmeros dos mais altos poetas seus contemporâneos.
Lembrei-me, assim, de revisitá-lo e, com encanto e enorme prazer estético, fui folheando a esmo, o diário, os poemas e não tive como não lembrar da amiga Isa Ferreira, em companhia de quem tive, por algumas vezes, a alegria de percorrer esses mesmos lugares onde nasceu e viveu o poeta (Azeitão, Serra da Arrábida, Setúbal, lugares banhados pelo rio Sado que ele tão bem cantou). A certa altura, dou com este poema (Canção do Tejo), que deixo aqui em homenagem à amiga que mora à beira-Tej, mais precisamente, numa de suas "banheiras", e como o poeta, tanto ama e canta (e fotografa) esse rio-mar que ele tantas vezes também contemplou e o atravessou:

Canção do Tejo

Quem não tem saudades tuas
não é homem nem é nada!

Meu Tejo, que eu já não via
vai pra lá de uma semana,
com tuas barcas à vela,
tuas margens com teus prédios
batidos de Sol em glória,
rever-te foi encontrar-me,
como se andara perdido
por becos de alma estrangeiros.

Ai as saudades que eu tinha
de quanto é para mim,
ribeira de Bernandim,
águas santas de Camões!
Nem as saudades me cabem
na linha torta do verso.
Pudesses vê-las nos olhos,
meu Tejo!, com que te vejo...

Pudésseis, águas!, notar
o lindo amor que vos tenho,
que tão lindo, que é tamanho

porque já nele anda Mar.