sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ecos - mais um pouco da FLIP

 


Retornei da FLIP 2026 com muitas vontades e muitos livros para ler. Entretanto, priorizei apenas a leitura de um volume que tem me acompanhado nestes dias pós-festa: Os Enigmas Singulares – Antologia Poética, do português José Tolentino Mendonça, Publicado em boa hora e pela primeira vez no Brasil, pela Coleção Círculo de Poemas, com organização e posfácio de Márcio Cappelli

Em comum com esse imenso poeta o fato de termos nascido na Ilha da Madeira e, por essa mesma razão, tornei-me leitora de Tolentino desde 1990, quando da publicação de seu primeiro livro, Os dias contados que me foi oferecido pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura da Madeira, responsável pela edição. Havia publicado o meu livro Madeira: do vinho à saudade no ano anterior, 1989, na prestigiosa coleção “Cadernos Ilha” e meus contatos estavam atualizados. Ainda conservo comigo esse belo exemplar, com desenho na capa de Tereza Jardim, artista plástica e poeta bastante reconhecida em Portugal). No momento dos autógrafos, pedi ao poeta que o autografasse, como marco simbólico de minha leitura de toda a sua obra ao longo dos anos seguintes até O centro da terra, de 2024. Ele mostrou-se surpreendido e disse que aquele exemplar era uma raridade.

Após ouvi-lo, na abertura do segundo dia da FLIP, fiquei com sua palavra ecoando junto aos sinos da Igreja do Rosário, sobre as centenárias pedras das ruas de Paraty. Na dedicatória, disse-me ele: “abrace os sinais e eles se iluminarão”. Desde então, abraço e fico atenta, muito atenta. 


Depois de uma tarde a tratar do jardim

a nossa vida

importa menos

 

Silêncio:

contemplar a neve

até confundir-se com ela

 

(JTM in  A papoila e o monge, 2013) 



 


quarta-feira, 29 de julho de 2026

FESTA DA PALAVRA – PALAVRA EM FESTA – FLIP 2026

Transitar penosamente pelas ruas de pedras irregulares e lisas de Paraty durante os cinco dias da FLIP é embriagar-se pela palavra, pela literatura, pela criação. Ainda estou processando mentalmente esses dias (22 a 26.07.26). Enquanto não vem o tom adequado para deles e dos seus acontecimentos falar, deixo aqui o resultado parcial de um exercício/brincadeira a que me impus durante minha participação na FLIP (como convidada e como flâneuse). Levei comigo uma micro caderneta com 100 minúsculas páginas onde só cabia mesmo uma palavra em cada uma (no máximo, duas). Usei esse minúsculo objeto de escrita e fui recolhendo palavras que ouvia (nas palestras, debates, entrevistas, nos passantes com quem cruzei). Achei divertido o exercício de Caçar palavras ditas e as escrevi, uma a uma, totalizando cem, com a cadernetinha preenchida. Passei esse manuscrito (digitei) para o computador e fui formando “escadas”, cada uma delas com 7 degraus e aqui as deixo com o título "Palavras recolhidas, escada para o pensar"
Pela dificuldade na "leitura das palavras nas escadas", criei uma legenda com todas as palavras anotadas (ver ao final).

Palavras recolhidas, escada para o pensar

- Travessia;  Caminhos; Aclives;  Declive;  Verdes;  Montes;  Escadas

- Jazz português;  Degraus;  Café;  Sedentos;  Palavras;  Silêncios; Baldios

- Não saber o nome;  Propagar;  Profanar;  Usar o silêncio;  Profanação; Gramática;  Vida

- Corpo; Canoa / Vela;  Espantos;  Revelações;  Visita;  Enigma;  Batidas da alma

- Contenção;  Dimensão;  Mulher catando erva;  Mulher ela mesma erva; Curvas; Da serra via-se o mar; Talassa! Talassa!                                                                                  

- Nomadismo interior; Reserva de esperança; Permanecer humano; Pulsão vital; Granada, Batalha;  Miríades

- Tradução / Traição;  Gueto;  Vinho;  Maresia;  Robalo;  Susto;  Combustível

- Nome para a poesia;  Brasil, consciência de mundo; Angola não;  Fotonovela;  Vampiro; Desafios;  Perturbação

- Princípios; Orgânica;  Bois olham;  Solidão;  Espelho; Corpos pastores;  Corpos urbanos

-  Chave;  Acesso;  Ultrapassar;  Pasto;  Sítio;  África;  Expor feridas;  Cicatrizes    

 - Carga pesada;  Mulheres;  Tentativa de cura;  Sistema colonial;   Dividir o mundo por pessoas; Assimilado

- Brancas; Família;  Romper;  Situação;  Angola;  Martirizado; Importâncias

- Regresso; Não apagar o passado; Conservar utopias; Receita de teorias;  Apagar o passado;  Não é panaceia;  Permitir o pensar. 

  

                                   

                                                                                          



domingo, 18 de janeiro de 2026

UM DIA COM AGNÈS VARDA

Dias atrás, nos deslocamos de Santo André à Av. Paulista, com a única finalidade de apreciar a exposição “fotografia AGNÈS VARDA cinema” patente no Instituto Moreira Sales, numa jornada de quase nove horas. Ao percorrer a instigante mostra que ocupa todo o 5º andar do edifício, o mau-humor pelo tempo (duas horas) desperdiçado no trajeto de pouco mais de 20km, ganhamos, agora sim, uma linda viagem por um universo artístico encantatório. Pela primeira vez no Brasil, curadoria de Rosalie Varda (sua filha) e João Fernandes, a mostra faz uma interseção entre a fotografia, o cinema e ela própria, Agnès, sempre com sua arte autoral. Mostra pensada exclusivamente para o Brasil, país onde sua obra foi bastante aclamada. Não é de admirar que Varda tenha iniciado seu trabalho artístico pela fotografia e a ela tenha retornado nos últimos anos de sua vida, fazendo com que a fotografia dialogue, interrogando o cinema e, por vezes (através de decupagem) é transformada em cinema. Agnès percorreu o mundo, optando preferencialmente por locais de revoluções e utopias, como Cuba e China, passando pelos EUA e suas lutas raciais, sempre focada nas condições de vida, em especial de mulheres e crianças, demonstrando enorme solidariedade com as questões raciais e feministas. Varda foi uma das primeiras a aderir ao movimento Nouvelle Vague, uma revolução artística nas décadas de 1950/1960 que rompeu com o cinema clássico ao introduzir novas estéticas, valorizando a visão pessoal do diretor como “autor” e isso ela fez como ninguém. Como é sabido, o movimento defendia a filmagem em locações reais, cortes abruptos, enredos não lineares e temas sociais. Eu ousaria dizer que Varda fez com o cinema e a fotografia o que Annie Ernaux faz com a literatura. Que mulher! Que projetos! Que obra! Que filmografia! Que criatividade! Uma vida inteira dedicada à arte, sem perder os sentidos nas mazelas do mundo! Ficamos um tempão apreciando tudo aquilo, assistindo a trechos de seus filmes. Não resistimos e trouxemos para casa o belíssimo catálogo da Mostra. Voltei decidida a assistir aos filmes dela que ainda não vi, hoje foi a vez de assistir a Les plages d`Agnès, As praias de Varda, uma deliciosa espécie de autobiografia, na qual, ao final, aproveita para comemorar os seus 80 anos. Ela viveu até os 88 e ainda realizou mais dois filmes, Visages, Villages, 2017 e Varda por Agnès, 2019 que, para minha sorte, já assisti. Falta agora voltar lá para o seu começo.
Após um intervalo para um café, decidimos também apreciar as obras da não menos instigante mostra “A América sou eu”, de Gordon Parks, retrospectiva com cerca de 200 obras de 1940 a 1970, imagens, filmes, livros etc. que ocupa dois andares do prédio do IMS. Um retrato da população negra nos EUA e dos seus movimentos sociais, além de cenas do cotidiano. Fotos famosas (e impressionantes) de Malcolm X, Martin Luther King e Muhammad Ali. Tudo muito bonito, mas minha mente estava tomada por Varda e não sofri o mesmo impacto, pois já estava cansada do esforço visual intenso. Descemos para almoçar no Restaurante Balaio, de comida brasileira, situado no térreo do Edifício, que nasceu e faz parte de todo o projeto do Instituto. Optamos por uma “dourada do mar”, peixe do dia, com pirão de frutos do mar, farofa de coco e banana da terra. Nada mais brasileiro para saudar a grande artista belga-francesa. E viva a cultura e a arte globais. O abastecimento artístico foi o que segurou o humor pelas duas horas e trinta minutos no retorno a casa e reler a exposição pelo catálogo, no aconchego do meu bunker. dtv Companheiras de jornada, Isabela e Luzia Maninha: