Em 2003, estive em
Paraty, RJ, encantadora cidade litorânea do RJ, encravada entre o mar e serras, onde, em priscas eras (1530-1812) funcionou um fervilhante "porto do ouro". Ali, de 1º a 3 de agosto, ocorria a 1ª Festa Literária Internacional de
Paraty, a FLIP. Fui levada pela curiosidade. Afinal, uma Festa só para a
literatura, era uma novidade absoluta, levando em conta a magnitude com que era
anunciada e como de fato foi. Fui acompanhada por dois fiéis escudeiros, Valdecirio,
o marido, e Antonio Possidonio Sampaio, o amigo. Fui porque além de festa literária, abria com uma celebração à poesia, homenageando Vinicius de Moraes. E foi lindo
ver/ouvir Chico Buarque ler, emocionado, “Meu Tempo é quando” (“Eu morro ontem.
Nasço amanhã. Ando onde há espaço “...), como foi igualmente lindo ouvir Antonio
Cícero ler “Pátria Minha” e Adriana Calcanhoto a cantar “Eu sei que vou te
amar” e Chico retornar, cantando “O poeta aprendiz”. E Gilberto Gil, na
condição de Ministro da Cultura. Ali estava a FESTA! E eu estava nela. Ali
estava um Brasil que acreditava no Brasil.
A Festa era
internacional, sim, como ainda é, havia escritores estrangeiros, mas também lá estava Ferreira Gullar, Ana Maria Machado, Milton Hatoum,
Luiz Ruffato, Tabajara Ruas, Zuenir Ventura, Adriana Falcão, Joaquim Ferreira
dos Santos, Jurandir Freire Costa, Drauzio Varella, Luís Fernando Veríssimo,
Millôr Fernandes, Ruy Castro, Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Patrícia Melo,
Eduardo Bueno a dizer que também o somos, além, naturalmente, de algumas
destacadas figuras estrangeiras, dentre as quais o velho Eric Hobsbawm, firme e
lúcido nos seus 90 anos, de quem guardo com muito orgulho seu precioso A Era
dos Extremos – O Breve Século XX, autografado.
Ainda que
tenha me interessado muito, ficou sendo, por 14 anos, a primeira e a única. Com
o crescimento brutal da Festa, fiquei afastada. Nunca me dei bem com filas e
multidões e o desinteresse veio também pelas poucas surpresas nas programações
posteriores, quase sempre dominadas por figuras do “mainstream” das grandes
editoras. A Flip passou a ser (quase)
previsível. Ainda assim, sempre torci para que desse certo. A Literatura também
precisa e agradece a festa.
Até que
FLIP 2017 foi anunciada e pela primeira vez sob a curadoria de uma mulher, a
dinâmica e competente jornalista Joselia Aguiar, que passou a delinear uma
proposta para a Festa que muito me interessou. Era maio e não tive
dúvidas, reservei um quarto na pousada,
na expectativa da virada.
A seguir, data
vênia aos jornalistas, descrevo à minha maneira, em forma de crônica e com
muitas aspas, a “minha” FLIP
(oficialmente, a 15ª, mas no meu calendário pessoal, a 2ª.).
A sagrada
palavra da literatura invadiu o templo “construído com trabalho escravo” (a benção poeta/pensador Edimilson Pereira de
Almeida Pereira!). Sem a menor cerimônia, dialogou com o deus e os santos do
lugar. Anticlerical, a literatura propôs um pacto de isenção e, durante cinco
dias, fez do altar palco e palanque e celebrou o rito da comunhão pela palavra
e pela diversidade.
Foi então
que se deu o “milagre ateu” (a benção presidenta Pilar!) e os fiéis leitores deram-se
as mãos, sem olhar para suas respectivas peles, gênero ou classe social e
celebraram o rito da forma mais iconoclasta, despidos de teologia, homenageando
um escritor negro e pobre, cuja palavra vai percorrer todas as frestas dessa
festa da palavra. Um escritor que “escreveu do ponto de vista dos excluídos,
que usou a língua do dominador para falar dos dominados” (a benção Luciana
Hidalgo!)
E da
sacristia saíram frutos estranhos que foram oferecidos à degustação da forma
mais inusitada, entranhados nos olhos e corações de quem lá estava. Poesia
pulsante, na palavra, na imagem, na voz, nos corpos. Poesia. Poesia fora de
lugar, Poesia para ver, ouvir, sentir, cantar. Poesia multilíngue. Poesia soco
no estômago (a benção Prisca Agustoni, a benção Adelaide Ivánova, a benção Josely
Vianna Baptista, a benção Grace Passô, a benção Ricardo Aleixo, a benção André
Vallias! por esta tropical fruteira de cores selvagens).
E a palavra
atravessou as paredes do templo, operando milagres das mais diversas versões pelas
tortuosas ruas coloniais, calçadas de pedra e “suor dos pretos” (a benção Diva
Guimarães, que, da plateia, virou diva da festa e viralizou nas redes sociais!)
numa vibrante festa não oficial, multiplicada em milagres laicos não
qualificáveis, saudando os indígenas que tiveram voz e mostraram seu belo artesanato nas ruas, as estátuas vivas,
os atores e suas performances, os músicos, entrando nas casas provisórias
batizadas com os nomes dos seus criadores, oferecendo iguarias não catalogadas.
E os que vieram para a programação oficial também foram encontrar seus leitores
e sentaram nas duras pedras com a leveza de quem já experimentou a dureza (a
benção Scholastique Mukasonga, que nos foi apresentada por uma pequena editora, a NOS. A benção Simone Paulino).
E livros, muitos, publicados por pequenas
editoras que romperam a hegemonia das grandes (a benção Simone Paulino e
tantos!). Livros autografados, dedicados, passaram para as mãos de leitores
curiosos de ouvir vozes que não conheciam ou reconheciam.
Esta foi a
FLIP das surpresas e dos pequenos que são grandes. Dos livros e dos escritores voltados à literatura para jovens e adultos (a benção Suzana Ventura e tantos!) Das mulheres. Dos Negros.
Dos pouco conhecidos, mas de há muito reconhecidos por seus pares, graças à consistência
de sua obra e trabalho de décadas. Dos desconhecidos apenas por não serem
(ainda) mediáticos, mas reconhecidos por láureas reconhecidas. Esta foi a FLIP das
cartografias “fora dos radares” (a benção Joselia Aguiar, a timoneira que
desviou o barco para águas fora do mapa!). Esta foi a FLIP daqueles que,
silenciosamente, passo a passo, constroem pontes intercontinentais, através de
ações educativas e de incentivo à leitura (a benção Leonardo Tonus). Esta foi a FLIP da ágora e da
política, porque todo o ato que se quer público é também político. E em
especial neste triste momento da vida brasileira, a política se fez
incontornável.
Esta foi a
FLIP da diversidade. Homens e Mulheres pela vez primeira em igualmente de
número (23 e 23 - os oficiais) tanto
quando em igualdade de condições estéticas e méritos artísticos. Negros (um
terço na programação e em número incontável na plateia). E não, o critério não foi meramente a
condição de ser negro ou mulher, como aqui e ali foram ensaiadas maldosas
críticas (não por acaso de brancos e homens) porque as mulheres e negros que
ali estavam já escreviam, estudavam, pensavam, publicavam há muito tempo, só
não lhes era permitido mostrar. “As mulheres iam pouquinho nos eventos
literários, só de cota” (...) As mulheres escritoras brasileiras não são
tratadas com prestígio no meio literário: é como se fossem cozinheiras num
grande restaurante de luxo. Sem elas a comida não existe, mas só recebem a
gorjeta das comandas” (a benção Maria Valeria Rezende, mulher das letras e da
ação, uma das figuras centrais e onipresente desta Festa!).
Esta foi,
por fim, a FLIP que esteve distante da superficialidade com que a maioria dos jornalões
a noticiou e alguns ressentidos a criticaram.
Algumas anotações, frases pescadas das falas que ouvi e que
ficaram brilhando no escuro do ônibus, na longa e cansativa viagem de retorno:
- O que é escrever num país em estado de guerra civil?
Edimilson Pereira de Almeida
- Há racismo, sim, mas é preciso atravessar o fogo do
racismo, atravessar a floresta em chamas, apesar das queimaduras ( Scholastique
Mukasonga)
- Toda a ficção é memória e toda a memória é ficção (...) No
sertão não havia nada. Eu escrevia para ter também o que ler (Maria Valéria
Rezende)
- Tudo absurdo! O absurdistão (Luaty Beirão, rapper e
ativista angolano, referindo-se à situação política de seu país)
- Éramos filhas, esposas e mães, não tínhamos cidadania
(...) A passividade está matando. Pessoas que só fazem o que lhes mandam são
fáceis de governar. Ser cidadão ativo dá trabalho. (Pilar del Rio)
- Lima Barreto gritou contra o racismo, contra pistolões,
apadrinhados políticos... Se tivéssemos lido mais Lima Barreto, não viveríamos
o que estamos vivendo hoje (...) Hoje, com as redes sociais, o alto nível de
reflexão pelos direitos sociais, o neo-feminismo, somos todos Lima Barreto.
Os
problemas enfrentados na primeira FLIP, permaneceram (preços exorbitantes
praticados por hotéis e restaurantes, falta de banheiros e outras questões
menores, sem contar o incontornável problema histórico, ou seja, o andar aos saltos sobre
as pedras e, agora, no meu caso, muito mais do que antes, com medo das quedas e
a inevitável dor nas panturrilhas).
Afinal, pedras fazem parte dos caminhos e são também matéria para poesia.
Afinal, pedras fazem parte dos caminhos e são também matéria para poesia.
A FLIP aconteceu na mesma cidade, com um formato bastante semelhante às anteriores, mas... quanta diferença!
#Josélia2018, por todas as questões relatadas.
O templo/matriz que foi palco |
A voz dos índios |
A voz das mulheres (e dos homens) como nesta linda mesa da Flipinha |
A avidez leitora |
A FLIP na rua |
A FLIP dos intervalos e silêncios à margem do rio Perequê-açu |