segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Ilha da Madeira numa crônica (inédita) de 1991 e imagens de 2014

CRÔNICA MADEIRENSE

Aqui, a terra sempre se acaba e o mar está sempre a começar. A vertigem nas curvas dos caminhos, nas casas construídas sobre penhascos, ópio para a falta de distâncias e horizontes. Cores e luz. A luz, a luz... magia, convite à embriaguez pela beleza.  Em ritmo de outros tempos, as freguesias quase fantasmas dormitam sua solidão e são parte integrante da natureza.
Cava-se, aduba-se, rega-se em silêncio. Apenas o rumor do mar ao fundo,  incessante canção de uma só nota.
Resta aos madeirenses o vinho, a festa e a fé, energia e combustível contra o elo sufocante da terra sem continuação.




sábado, 6 de setembro de 2014

Lisboa, num poema de 1989 (inédito) e uma imagem de 2014

O PASSADO À JANELA DO 28

Olhos coloridos de azulejos
homens e roupas ao vento
o passado passa
despudorado
à janela do elétrico
na porta do Martinho da Arcada
nos ferros retorcidos do Chiado
Olhares impassíveis de Garret e Junqueiro
a cabeça cheia de pombos
e a certeza da inutilidade da glória
Homens no lugar de outros homens
Lisboa é a mesma
apesar das Amoreiras


dalila teles veras, Lisboa, junho/1989


Lisboa, numa crônica de 1986 (inédita) e numa imagem de 2014

É setembro e a cidade, Lisboa. Acompanha-me um moiro na Calçada de Santo Antão, vamos à busca de frutos do mar e olhamos absortos as lagostas nadando nos tanques à porta dos Restaurantes. O vinho é Dão, mas o fado não é o mesmo. O motorista do taxi disse que não há mais fados para portugueses, exceto os fados vadios que acontecem nas festas populares. O fado agora é só para turistas e está sendo cantado em dólar.
Não sei mais de mim, nem deste fado. Sei da pena escorrendo palavras e sangue e desta canção estranha que fala de amor e desventuras. O pensamento vaga pelas vielas estreitas da velhíssima cidade e já não está só, acompanha-o a história e seus personagens, cavaleiros e discretas damas. Todos os poetas cantam e fazem roda, exceto Pessoa, que paira calado num café do Chiado que cheira a açorda. Está só, como sempre esteve, e sem óculos, eles já não lhe fazem falta - pode ler sem enxergar, viu e disse tudo. Seus poemas, despidas dos signos convencionais.
Os espanhóis, por vezo histórico, continuam a invadir Portugal. O grupo de brasileiros ao lado é excessivamente barulhento e é tão falso este fado! A única verdade está aqui, cristalina, na garrafa de uma Dão, safra 1984. É sempre amargo o último gole e o vinho já sabe a saudade. Melhor era nunca partir.


dalila teles veras, Lisboa, setembro/1986



sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Uma cena portuguesa

A voz dessa mulher do povo é encantadora e mais comove a companheira de negro, em silencioso respeito. Desde que retornei a Portugal após cruzar o Atlântico menina ainda, sempre me causaram forte impacto as imagens dessas mulheres vestidas de negro, hoje não tão comuns no Portugal pós 25 de Abril. A elas dediquei o poema "Viuvez sem espera", inserido no meu livro "Madeira, do vinho à saudade", Coleção Caderno Ilha 3, Funchal, 1989:

Viuvez sem espera

Negras, as mulheres
nos verdes campos
ceifam a cor.
Curvas as foices
cortando ervas
côncavas as enxadas
cavando dores.
Negras e curvas, as mulheres
adubam com nênias a terra
em definitiva viuvez.

Retorno

Retorno


Voltei, mas como sempre vou ficando pelos caminhos que percorro, parte de mim, que dali já era, ali permaneceu. Voltei porque sempre preciso voltar, a alma impregnada de abismos e lonjuras, rizomas à flor da pele.




terça-feira, 5 de agosto de 2014

Diário (quase íntimo) 2013

agosto 05, segunda

Ideias precisam
de oxigênio
(caminhar, sei
é oxigená-las)
prática necessária e
tão pouco cumprida

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Diário (quase íntimo) 2013

agosto 04, domingo

orquídeas
    revisitadas
(a 2a. morada
    - tão pouco habitada)
    colhidas
   feito bençãos