sábado, 31 de agosto de 2024

Isabel das Santas Virgens e sua Carta à Rainha Louca

 



    Carta à Rainha Louca é um extraordinário romance de Maria Valéria Rezende, publicado em 2019, pela Editora Alfaguara. Um dos melhores da mais do que pujante safra atual da literatura brasileira. O romance é ambientado em Olinda no ano de 1789 e tem como protagonista Isabel das Santas Virgens, prisioneiro no Convento do Recolhimento da Conceição, que escreve à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca.

    O fato de estar presa é também um resultado de sua própria “loucura” aos olhos do mundo local da época. Nessa carta, Isabela conta à Rainha toda espécie de violências contra mulheres e escravizados cometidas pelos homens da Coroa e por aqueles que aspiravam a ela pertencer.

    A narrativa transcorre toda em forma de missiva e é de tal maneira bem construída que a linguagem e vocabulário castiço da época não chega a causar nenhum empecilho à leitura. A escritora é hábil em fazer a trama caminhar, engendrando a cada novo capítulo um fato novo e intrigante.

    Pois é essa personagem sofrida, revoltada e encantadora que levei em mente no último sábado quando me dirigi para o Auditório do SESC Pinheiros, onde encontra-se em cartaz a peça Isabel das Santas Virgens e sua carta à Rainha Louca, interpretada de forma arrebatadora pela atriz Ana Barroso, também produtora do espetáculo.

    Ali, o que foi leitura, tornou-se materialidade. Esta Isabel que ouvimos ao vivo é igualmente revoltada, amargurada e inconformada em estar enclausurada unicamente pelo crime de saber ler, conhecer, refletir e criticar. O ato de saber ler sempre foi revolucionário. Isabel não só lia, como também ganhava, por um breve período, dinheiro com essa habilidade. Ora, mas uma mulher! Neste caso, o perigo é dobrado.

    Não fosse suficiente o fato auspicioso de ver a personagem Isabel ali, tão fulgurante no corpo e na voz de Ana, a emoção de estar ao lado da autora do romance naquele momento foi indescritível, em especial pra mim, que tive a rara oportunidade de tomar uma sopa com ela antes do espetáculo e conversar o que nos foi possível.

    Ao final do monólogo, despida da personagem, Ana Barroso, ao lado do diretor da peça Fernando Philbert, promoveram uma linda conversa com Maria Valéria Rezende, a romancista que, como sempre, empolga plateias, “Sou de olhar pela janela, mas há escritores que olham para dentro”, define-se ela. Quando ouviu da plateia que escrevera um livro feminista, ela diz que sua intenção não foi exatamente essa, mas o escritor capta o que está ao seu redor”. Já a sensível e grandiosa atriz, Ana, fala do desafio que foi adaptar um romance tão complexo para o teatro, trabalho que levou 4 anos e foi repartido com o diretor.






Por favor, Assistam, Divulguem, Leiam o livro, Propaguem.

Isabel das Santas Virgens segue em cartaz, às quintas, sextas e sábados até 13 de setembro.

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quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Opções para morrer no espaço é lido e estudado no Sábados PerVersos


No encontro Sábados PerVersos – A poesia em questão, de agosto, realizado no primeiro sábado do mês, na Livraria e Espaço Cultural Alpharrabio, Deise Assumpção, a coordenadora do mês, trouxe o livro Opções para morrer no espaço (Editora Patuá, 2024) desta escriba para ser lido e comentado através de vários dos poemas que o integram, como também leu uma resenha crítica assinada por ela.

Foi uma honra e alegria ver os poemas do meu mais recente livro, lidos, analisados, comentados. Que mais poderia querer uma poeta, além de ser lida e comentada por leitores críticos e pensadores da poesia?

 Agradeço publicamente à poeta Deise Assumpção, autora do livro Cidade Cativa, publicado recentemente pela Alpharrabio Edições, pelo gesto de camaradagem poética entre quem há tanto tempo reparte o pensar.

Abaixo, a resenha crítica do livro por Deise Assumpção:

 opções para morrer no espaço: A poeta em fúria

 Em opções para morrer no espaço, Dalila Teles Veras rompe com a linguagem até então desenvolvida em seus livros de poemas anteriores.

Parece tomada de uma pressa em expressar-se diretamente ao correr do pensamento e do teclado.

Os poemas, que em vez de títulos utilizam-se de numerais em algarismos romanos para se identificarem, constroem-se fugindo a rimas, pontuação, esquema de estrofes e métrica. Se é verdade que sempre sua linguagem poética nunca se prendeu a regras e outros procedimentos poéticos, mas buscava a economia de dizer o muito com o mínimo, agora os poemas deslizam pelas páginas alongando-se, e os próprios versos alongam-se e quebram-se onde menos se espera, talvez cedendo apenas aos respiros da ânsia expressiva.

Tal procedimento, mais as palavras atropelando-se pela ausência de qualquer pontuação ou recursos visuais, emaranham o leitor na busca do sentido e da dicção.

Cria-se uma avalanche em que o eu-poético despeja toda sua fúria por sentir-se indefeso perante as injustiças que grassam ao redor, as irresponsabilidades que colocam vidas em perigo, o jogo de poder e a ganância imperante, e ainda os seres impermeabilizados do poema XII. Indefeso e também incapaz de uma ação concreta a colaborar na transformação desse caos asfixiante. O poema V nos diz que passar ao largo agora é questão de sobrevivência / – impotência disfarçada de arrogância – e pura estratégia de guerra não declarada. Assim, a poesia torna-se a arma possível para continuar respirando, pois o poema XVII pergunta como reinventar a humanidade que não deu certo. Mas transfigurar a dura realidade em poesia é vingança servida quente (poema XXIII).

Forma e conteúdo coadunam-se, criando um todo expressivo.

 Esse eu-poético mostra-se muitas vezes dividido entre a possível tranquilidade da vida de que desfruta e a fome, a pobreza, a doença, as condições extremamente precárias de sobrevivência a que está submetida a maior parte de seus semelhantes.

Assim, vemos, já no primeiro poema do livro, a descrição de um lauto café da manhã de que o eu-poético usufrui. No entanto, tal refeição choca-se de imediato com o sentimento de culpa pela fome alheia. Observemos os dois últimos versos da primeira estrofe:

com manteiga café expresso duplo e um triplo

sentimento de culpa pela fome alheia

 A quebra do verso em e um triplo e não em duplo, como conviria pelo sentido do texto, causa estranheza, mas aproxima o par duplo/triplo e torna o sentimento de culpa muito maior, que é triplo perante o café expresso duplo.

            A partir daí, o poema segue o eu-poético que vai se imiscuindo ao mundo. De início, na segunda estrofe, de manhã, ainda dentro de casa, esse mundo se mostra pela TV, a desdobrar aos desempregados esfaimados possibilidades impossíveis. Na terceira estrofe, já à tarde, e já no burburinho da rua, temos a correria pela sobrevivência (e pelo sonho impossível). Na quarta estrofe, fecha-se o ciclo do dia, vem a noite, com o sono da exaustão e os sonhos impostos e alheios dos fodidos pelas injustiças em camas insalubres. E mesmo não dita, fica sugerida a cama macia de que o eu-poético dispõe.

             Outro aspecto que emerge dos poemas está no questionamento da finitude. No poema IV, o trato entre as três velhas damas indignas busca dar um sabor de descontração ao tema. O poema II, questionando a tecnologia e o capital financeiro que reduzem a humanidade a produto de mais-valia até no post mortem, termina com o eu-poético constatando sua ingenuidade ao pensar que seu corpo morto se transformaria em cadáver estelar.

Esse inconformismo com a finitude nos remete ao próprio título do livro, extraído de um verso do poema XV: opções para morrer no espaço. Ante as opções científicas de transformar-se em estrela cadente e consumir-se ou em asteroide a vagar para sempre no espaço, esse eu-poético manifesta, mesmo que saiba não ser possível, seu desejo de ...permanecer a vagar na órbita do sol / mínima e incapturável. Desejo de eternidade e de fazer valer sua vontade mesmo após a morte.

 Como não poderia faltar à poeta que desde sempre pensa a poesia, a metalinguagem surge em vários momentos. O poema III, ante a desumanização do humano pela tecnologia, brinca com a palavra metaverso, afirmando que esse tal verso nem poesia é. Ante a necessidade de travessia do rubicão (poema VI), encontramos a poeta e seu pálido poema. Já o poema XXVII diz: no poema / o eventual aprendizado renasce pleno / apenas no leitor. A descrição da gestação do poema, seu nascimento, até atingir sua forma concreta, passando pelo corpo do/da poeta, encontra-se no poema XXXIII.

No poema XXXVI opções para morrer no espaço quase se encerra com um poema-ladainha a invocar os santos-escritores-poetas-artistas das estantes para a vivência estética.

De sobejo, no poema XXXVII, fechando o livro, o eu-poético traz uma contemplação da vida percorrida (77 anos): sobrevivente declarada sou, sobrevivente às intempéries narradas, no sentido mais extenso, figurado e simbólico que tal palavra comporta, através de seu lendo e criando, criando e lendo.

Deise Assumpção inverno de 2024

Deixo aqui o meu agradecimento aos presentes que tão generosamente se debruçaram sobre meus poemas: Deise Assumpção, Rosana Chrispim, Marcello Vitorino, Márcia Plana, Encarnación Melgar, Isabela Agrela Teles Veras, Vanessa Molnar e Fernanda Pompeu. Bem hajam!

 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

LIVRO NOVO, RUMO AOS 80 ANOS



Às vésperas de completar 78 anos, fico cada vez mais perto de me tornar uma octogenária e isso não deixa de me assustar um pouco (agora há pouco isso era uma possibilidade tão distante e incerta!). Para amenizar o susto, leio e escrevo furiosamente.

Leio por vício e paixão. Escrevo pelos mesmos motivos de antes, ou seja, sobre paixões e angústias do mundo ao redor, punhaladas e dores, mas também sob os impactos da beleza, tudo transmutado em literatura. Agora, com um sentido especial, o de sentir-me viva, criativa e contemporânea de gerações posteriores à minha.

Assim como fiz aos 50, aos 60 e aos 70, um livro novo celebra a data de meu aniversário e reúno os amigos para um brinde.

Desta vez, não será diferente, com um pequeno detalhe: não se trata de uma “data redonda”, pois de ora em diante, pretendo não deixar nada para depois, sob pena desse depois não acontecer. Tudo terá que ser aqui e agora.

Voltemos ao livro. Após três décadas com minha própria chancela editorial, esta é a primeira vez que envio originais para outro editor que não seja eu mesma e minha reduzida equipe (Luzia Maninha e Isabela) que executa, profissionalmente, todas as etapas inerentes a essa tarefa sem fim que é editar um livro.

Entreguei originais de “opções para morrer no espaço” a uma pessoa que admiro, pelos mesmos motivos que é admirado por tantos, Eduardo Lacerda, editor da Patuá, uma valente casa editorial que vi nascer e crescer até chegar no que é hoje, uma “pequena gigante”. Eduardo tem apostado com frequência em jovens autores nascentes, mas também publicado autores com trajetórias consolidadas e, com isso, vem sendo reconhecido com prêmios importantes no campo editorial.

A experiência de publicar um livro sem participar diretamente de todo o processo de produção, aceitar que olhos mais “isentos”, se debrucem sobre os poemas e a roupagem final do livro, tem sido uma experiência bastante gratificante e, afinal, o livro saiu impecável e do jeito que o imaginei, graças à competência da assistente editorial Amanda Vital (pelos milagres cibernéticos, ela em Lisboa e eu em SP) e de Roseli Vaz responsável por todo o projeto gráfico, a quem agradeço por acatarem, com extrema gentileza, alguns pitacos de puro “preciosismo”.

Agora faço o que não fiz com meus livros anteriores, saio armada de marqueteira (sem a devida vocação) em prol de um editor que precisa vender os livros em que apostou e, no meu caso, apostou muito, com uma tiragem de 1.000 exemplares, caso raro em pequenas e médias editoras, em se tratando de poesia, sempre a prima pobre da “escala” preferencial do “mercado editorial”, essa cadeia que, para mim, sempre foi uma “entidade” abstrata e aterradora. Vamos, ainda assim, pelo subsolo, contar com a colaboração fraterna e amorosa pela poesia e pelo livro dos amigos e eventuais leitores.

Já temos apresentações e autógrafos marcados para os dias 27.06 (uma quinta-feira, à noite, no Patuscada, bar da Patuá, em Pinheiros, SP), 29.06, um sábado, pela manhã, na Alpharrabio Livraria e Espaço Cultural, em Santo André) e no dia 30.06, à tarde, na simpática e acolhedora Feira do Livro, no Pacaembu, SP. Outros virão, certamente, mas desde já, espero contar com os amigos pois são eles e apenas eles que se deslocam para encontros como esses. É óbvio que espero contar com eventuais leitores que vierem a comprar meu livro, pela capa, pela leitura da orelha, por alguma dica de leitura ou por já conhecerem algum de meus livros anteriores que, diga-se, são muitos, mais precisamente, 20, no gênero poesia. Com este, são 21 títulos, mais outra dezena em outros gêneros, como crônica, diários e ensaios memorialísticos.

O livro já se encontra à venda pelo site da Editora Patuá. É só entrar neste link, efetuar a compra, receber o livro em casa ou outro local indicado, deixando um editor satisfeito e uma autora realizada:


Compre aqui

segunda-feira, 18 de março de 2024

EMILY DICKINSON E AS MULHERES NA MINHA BIBLIOTECA


 

    Tenho me empenhado em deixar arrumada minha biblioteca de autoria de mulheres. Agora, com duas novas estantes, pude me dar ao luxo de juntar às escritoras brasileiras que já lá estavam, os volumes das portuguesas e de outras nacionalidades como as de língua espanhola, as russas, estadunidenses, francesas, inglesas etc. que se encontravam em estantes altas e agora ficarão ao alcance das mãos. De certeza. deve haver bem mais. Uma nova investigação  certamente localizará. 

    O problema agora são os livros de poesia contemporânea (de autoria de homens) que são em número bem maior e as prateleiras já estão abarrotadas de volumes “enfiados” uns por cima de outros, em pilhas sobre banquinhos, enfim... Vamos ver como se resolve isso!


        

    Por enquanto estou muito satisfeita, inclusive pelas surpresas e descobertas ao revisitar os volumes, como, por exemplo, ao manusear os livros de cá pra lá, caíram-me nas mãos os volumes das obras avulsas de Emily Dickinson (adquiridas bem antes da poesia completa recente), dei com uns marcadores e sublinhados que fiz há tempos, assinalando as páginas de um mesmo poema, cujo verso inicial é “I died for beauty” Gosto muito dele e, pelos visto, é mesmo antologiável, um clássico, eu diria). São 6 volumes de antologias traduzidas para o português, assinadas por diferentes tradutores. Desses, apenas dois homens (Augusto de Campos e Adalberto Mûller), as outras quatro são assinadas por mulheres, Olívia Krähenbühl, Aíla de Oliveira Gomes, Lucia Olinto e Idelma Ribeiro de Faria, com abundantes prefácios e notas. 

 Copiei as seis versões e ofereço-as aos eventuais leitores interessados na Emily ou simplesmente na tradução de poesia, questão sempre difícil e polêmica.

    Ontem, domingo, perdi (ganhei) boa parte do dia relendo os prefácios e notas de tradução, tudo muito rico e já devidamente sublinhado por mim nas leituras anteriores.

    Tenho lido, escrito e organizado meus arquivos de forma feroz nos últimos tempos. A urgência angustiante de temer que não haja tempo suficiente para tudo e, por isso, inventario. Tantas coisas surgem, saltam dos meus arquivos, como moedas nos boxes de cassino.

    A vida só literatura? Não, ainda não, mas também não sei se ficaria satisfeita com apenas e tão somente a literatura a preencher minha vida, como periga preencher, nesta ânsia de preencher cada minuto com algo que me enriqueça, recuperar o que deveria ter prestado atenção antes e não o fiz (será? E os sublinhados das leituras?).

     Uma coisa é certa, leio melhor agora, pois há todo um acúmulo que uso como referencial e parâmetro.

     Aí vai o poema no seu original, em inglês e nas seis versões para nossa língua que permite tanta variação, sem trair a essência do original (será?!)

 

I died for Beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly “Why I failed”?
“For Beauty”, I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Bretheren, are”, He said –

And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –


Nota: Optei pelo original do volume da tradução de Augusto de Campos e que coincide exatamente com o de Adalberto Müller, em Poesia completa. Nos demais, não sei dizer a razão, há diferenças nesse original, sobretudo na pontuação. “Emily criou um idioma poético próprio e antecipatório em termos de densidade léxica, economia de expressão e liberdade sintática (...) os substantivos frequentemente maiusculizados para acentuar a sua dominância. (...) num idioleto de rara beleza”, justifica AC a respeito da pontuação original.

                    0o0o0

Morri pela Beleza; mas apenas
Na tumba me ajeitara,
Outro, na cova junto, foi deposto,
E que pela Verdade se finara.

De manso perguntou – Por que morreste?
- Pela Beleza, respondi-lhe então.
- E eu, pela Verdade. Ambas se valem.
Somos ambos irmãos.

Assim, paredes-meias, dialogamos
Quais parentes que a noite congregasse,
Até que o musgo nos cobrisse os lábios
E nossos nomes apagasse...

“Poesias Escolhidas de Emily Dickinson”, tradução, seleção, apresentação e nota bibliográfica de Olívia Krähenbühl, ilustrações de Darcy Penteado, Edição Saraiva, SP, 1956.

                    0o0o0

Morri pela Beleza, mas na tumba
Mal me tinha acomodado
Quando outro, que morreu pela Verdade,
Puseram na tumba ao lado.

Baixinho perguntou por que eu morrera.
Repliquei, “Pela Beleza” –
“E eu, pela Verdade” – ambas a mesma –
E nós, irmãos com certeza.

Como parentes que pernoitam juntos,
De um quarto a outro conversamos –
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E encobriu os nossos nomes.

“Emily Dickinson – uma centena de poemas” Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes, 1ª. reimpressão, bilingue, T. A. Queiroz, Editor, SP, 1985.

                    0o0o0

Morri pela beleza e mal estava
Ao túmulo ajustado
Alguém veio habitar a sepultura ao lado.
(Defendera a verdade.)

Baixinho perguntou: “Por que morreste?”
“Pela beleza”, respondi.
“E eu pela verdade. São ambas uma só.
Somos irmãos”, me disse.

E assim como parentes que à noite se encontram
Entre os jazigos conversamos,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes.

“Emily Dickinson, poemas” tradução e notas de Idelma Ribeiro de Faria, 3ª. edição, bilingue, Ed. Hucitec, SP, 1991.


                    0o0o0

Pela Beleza morri – mas,
Mal à Cova eu me ajustara,
Quando estenderam do meu lado
Um que morreu pela Verdade. –

“Por que fracassou?” murmurou-me,
“Pela Beleza”, respondi.
“Eu pela Verdade – é o mesmo,”
Ele falou, “Somos confrades” –

E assim, como velhos Colegas,
Entre Túmulos conversamos,
Até que o Musgo alcançou
Nossos lábios e nosso nomes.

“Dickinson, Emily – 75 Poemas”, Tradução de Lucia Olinto, edição Bilíngue, Sette Letras, RJ, 1999.


                    0o0o0

Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo
Meu Corpo foi fechado,
Um outro Morto foi depositado
Num Túmulo contíguo –

“Por que morreu?” murmurou sua voz.
“Pela Beleza” – retruquei –
“Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós
Somos Irmãos. É uma só lei” –

E assim Parentes pela Noite, sábios –
Conversamos a Sós –
Até que o Musgo encobriu nossos lábios –
E – nomes – logo após –


“EMILY DICKINSON – NÃO SOU NINGUÉM – POEMAS”, tradução e introdução de Augusto de Campos, Editora UNICAMP, Campinas, SP 2008
                                                

                    0o0o0


Morri pela Beleza – mas
Mal me ajustei à Cova
Quando a Outra, que morreu
Pela Verdade, noutra Alcova –

Quis saber “Qual foi meu erro?”
“Foi a Beleza,” respondi –
“O Meu – a Verdade – Ambas
Primas – como Nós – Entendi –

Assim cada qual em seu Quarto
Falava, sob os vaga-lumes –
E o Musgo alcançou nossos lábios –
E cobriu – Nossos nomes -


“Poesia completa Emily Dickinson”, Volume I: Os fascículos, Tradução, notas e posfácio de Adalberto Müller, Edição bilíngue Editora UNICAMP / Editora UnB - Universidade de Brasília, 2019. 


Dedico este post a Marília Garcia, poeta e tradutora admirável de quem sou leitora. Devo confessar que muito apreciaria uma nova tradução, a sétima, feita por ela.

 0o0o0


    Dessas seis traduções, qual seria a melhor? Esta é a pergunta que já me fiz diversas vezes e consegui respondi. Gosto, em especial, daquelas que respeitam a estrutura do poema, sua sintaxe e pontuação (neste caso, imprescindível, mas, sabemos, aparece aí a velha cantilena, poesia é intraduzível? Só sei que muito me agradam estes exercícios.

    Aceito e agradeço comentários. dtv


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

FLISA – Feira do Livro de Santo André - FUI CONVIDADA, MAS NÃO VOU


No último dia 03 de agosto, quinta-feira, com chamada de primeira página e grande destaque, o Diário do Grande ABC noticiava a realização da FLISA – Feira Literária de Santo André, nos dias 17 a 20 deste mês. O homenageado será o escritor Ariano Suassuna. Sua vida e obra norteará, segundo a matéria, todas as atividades. Esta foi a forma com que a população tomou conhecimento do evento e que dava como já “pronta” uma programação que incluía, entre outras coisas, “mesas de debates sobre literatura com autores locais serão montadas”.

    A matéria só não informou que a Prefeitura de Santo André, através de sua Secretaria de Educação, pagará o montante contratual de 3 milhões e 375 mil reais para uma empresa de montagem, quantia essa muito superior ao que gastam grande feiras internacionais como a FLIP.

    Na parte da tarde desse mesmo dia, produtores culturais questionavam nas redes sociais o fato de apenas a 14 dias da abertura, a Feira estava apenas com um esqueleto. Se não estou enganada, a primeira a levantar uma série de questionamentos foi a premiada escritora Vanessa Molnar, em um contundente texto publicado em sua tl do FB.

    Dirigia-se aos escritores. Sob o argumento de que, apesar de ser a “vida literária da nossa cidade histórica, diversa e riquíssima, nenhum escritor da região, de Santo André ou representante cultural de editores e produtores terem sido convidados. E passa a relacionar boa parte de pessoas e espaços culturais, “uma riqueza, que os burocratas ignoram e que não dá para citar aqui sem cometer nenhuma injustiça”. Referia-se também ao espantoso tempo recorde de um edital com esse valor tão alto, organizado por uma pessoa que não tem nenhuma relação com a região e “faz questão de não ter, já que nem a Secretaria de Cultura, que poderia buscar a construção conjunta com os artistas locais, sequer sabia do evento”.

    A repercussão foi larga e imediata, com opiniões indignadas que dão conta de que “alguns escritores” haviam sido convidados a participar, mas sem cachê. A indignação fez-se presente.

    Curiosamente, no dia seguinte ao da matéria de jornal e do artigo de Molnar, recebi um convite/sondagem “informal” do curador da Feira, Reynaldo Bessa, que sugeria que eu mesma “montasse uma mesa com 2 escritores e um mediador, um deles seria eu. A mesa daria conta da “atual cena literária no ABC”. Esse convite, que oferecia R$ 1.000,00 a cada escritor e R$ 600,00 ao mediador, me foi enviado amadoristicamente, através de um áudio de cinco minutos, no WhatsApp. Pedi que o mesmo fosse formalizado por escrito (via email) o que foi feito apenas na noite do último domingo, dia 06.08. (a 11 dias da realização da feira). O convite veio também para a livraria e editora Alpharrabio, que dirijo há 31 anos, cujo catálogo prioriza a literatura de autores natos ou residentes na região, oferecendo um estande, especialmente cedido. Fato curioso é o desse curador sugerir, transferindo seu papel, para que eu “organize” a mesa, "convidando mais dois escritores", demonstra que isso não estava nos planos, mas agora... Não respondi e esperei para dar uma resposta alinhada com a comunidade.

    Dada a enorme quantidade de pessoas que pautaram o assunto em suas postagens nas plataformas Instagram e Facebook, um grupo de mais de 50 pessoas passou a se reunir no espaço virtual e o que vem sendo apurado a respeito é da maior gravidade.

    Fazendo coro com a comunidade, o vereador Ricardo Alvarez, encaminhou na sessão desta terça-feira da Câmara Municipal um requerimento de informação à Prefeitura Municipal, listando praticamente todos os questionamentos até aqui levantados pela comunidade. O assunto também foi levado ao Fórum de Cultura em sua sessão de ontem, segunda-feira.

 

NOTA FINAL: é claro que todos nós gostaríamos de uma Feira ou Festival do livro na cidade, mas não dessa forma que suscita tantos questionamentos, até o momento sem resposta. Afinal, com uma população de 748 mil habitantes, a cidade nada fica a dever a algumas capitais do país, inclusive em pujança econômica. Sim, uma Feira limpa e transparente que contemple a enorme diversidade de culturas (sim, no plural).

    Aguardamos, assim uma resposta do senhor Prefeito Municipal, Paulo Serra, que seja clara e ofereça respostas satisfatórias.

Quanto a mim, respondo publicamente aquilo que meu silêncio já disse, NÃO aceito! Sei que não vou por aí. dtv 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Síndrome do coração partido - ou a poesia sempre topa comigo mesmo nas piores horas

 

Manhã de segunda. Desperto. Sol de inverno. Convite. A perspectiva do café da manhã sempre é de puro prazer, para mim, a refeição mais importante do dia. Não foi.

Súbito, aperto no peito, sensação de desmaio, vista turva e rosto pálido.

Sinais, em escala mais leve e breve, já percebidos em outras ocasiões, mas não levados em conta. Observadora tarimbada, percebo que, desta vez, preciso levar a sério. Chamei uma das três amorosas “cuidadoras” que tenho a sorte de ter a meu lado e, em cinco minutos, cá estava ela, a do meio, dizendo: vamos!  

Em quase oito décadas de vida, faltam apenas três anos para completá-las, as únicas vezes em que estive hospitalizada foi de pura alegria e celebração da vida, ou seja, na ocasião dos meus três partos, ou seja, o nascimento das minhas atuais “cuidadoras”, o último deles, há 44 anos. Sou, é claro, privilegiada.

Por mais horror que tenha a esses ambientes, nos últimos cinco anos passei por eles com bastante frequência, sempre como acompanhante, jamais como enferma. Antes, também por longos períodos, como acompanhante de minha mãe. A angústia é sempre muito grande e agora não é diferente.

Tenho me valido da poesia para transmutar esses sentimentos e observações em poemas que renderam dois pequenos volumes, vestígios, de 2003, e a plaquete, uma estação no purgatório, encartada no meu livro tempo em fúria, 2019, além de poemas e crônicas esparsas.

Para manter o hábito do registro, aqui vai este, o desta nova estação, a minha, agora no inferno, como interna numa UTI – Unidade de Terapia Intensiva.

Tão logo a informação chegou às distraídas atendentes na recepção do Hospital, foi como se um alarme invisível tivesse soado provocando o corre-corre com a idosa e sua dor no peito. Vem o empurrador da cadeira de rodas, a enfermeira perguntadora, com o seu implacável questionário. Enquanto respondo, outra enfermeira auxiliar vai colocando os eletrodos, uns 8 no peito, outros nos tornozelos, e vão me levando para a maca no setor de observação (não, não é de pássaros, é de gente).

Enquanto sou transportada, lembro que há exatos 21 anos (num 2 de junho), minha mãe, com a mesma idade que tenho hoje, falecia neste mesmo hospital. Teria chegado a minha vez? perguntei-me.

Desnudada das vestes que havia colocado às pressas, mas que, como invólucro e inserção na minha "tribo", me emprestavam uma certa dignidade, passo a ser apenas um corpo à mercê de mãos, agulhas e máquinas.  Um delas, mede o circuito elétrico do coração, enquanto uma apressada enfermeira erra a veia onde seria colocado o acesso para introdução de soro e medicamentos. Fica lá o hematoma e vamos em frente. Nova furada. Vamos ao soro e aos anticoagulantes.

Expressão preocupada, lá vem a jovem, bonita e simpática cardiologista de plantão e, com doçura na voz, me diz que, diante do resultado do eletrocardiograma, será necessária uma pesquisa mais acurada, ou seja, novos exames, para saber a razão do "curto-circuito". Nada mais preciso, neste caso, do que um cateterismo. É o que precisamos fazer. Diante do meu olhar apavorado, ela pousa suavemente sua mão sobre meu ombro e diz que tenho sorte. No plantão está o melhor médico do hospital para esse procedimento. Ensina-me a respirar corretamente.

E lá vai a maca ligeira para uma sala de aspecto, para mim, futurista, com enormes máquinas e luzinhas piscantes. Enquanto um belo, impassível e enorme enfermeiro, uma touca colorida com desenhos étnicos, aparência de soberano africano, cuida de acionar máquinas e separar ferramentas, ignorando, aparentemente, a enfermeira que depila a paciente prevendo opções, no caso da primeira tentativa não dar certo. Uma minúscula toalhinha faz o papel de tapa-sexo, enquanto braço e perna são desinfectados e ficam ali, desamparados pelas circunstâncias, à espera.

Colocam no meu nariz um pequeno respirador com oxigênio, dão-me um Rivotril para ingerir (suspeitam do meu nervosismo?). Uma voz simpática diz: sou doutor fulano, responsável pelo seu exame, fique calma que será rápido e tranquilo. Enquanto respiro fundo, simplesmente apago e nem sequer suspeito em que local do corpo foi aplicada a sedação.

Sonolenta ainda, ouço: seu exame terminou, senhora. Correu tudo bem. Percebo que, à maneira dos encarcerados, estou agora “vestida” com uma ridícula bata fechada nas costas por um laço, uniforme para os confinados por motivos de saúde.

E lá vai a maca novamente atravessando portas e corredores e entra no que chamam de “UTI Cardiológica”. Ocupo o quarto 14, relativamente espaçoso, com uma cama e um sofá reversível para o acompanhante e as tais máquinas com seus visores luminosos a monitorar o corpo, verificando batimentos cardíacos, pressão arterial, saturação pulmonar e... sei lá mais o quê.  

A partir daqui, fico refém nessa cela sem janelas, com uma tela gigantesca a exibir imagens capturadas por câmeras em tempo real das ruas ao redor. O ar é condicionado e de nada me interessa essas imagens ilusórias com palmeiras ao vento e carros, muitos carros a trafegar, cujos motoristas sequer desconfiam do quanto é bom o vento nas ventas. Minha realidade é aqui. O consolo é ter minha fiel escudeira a meu lado, sem arredar pé.

Mais à noitinha, o resultado do cateterismo. Que fique tranquilo o leitor pois não irei transcrevê-lo, afinal, isso não é para o entendimento de simples mortais como nós, o que registrei com muita clareza, foi o diagnóstico do médico: “síndrome de coração partido”. Como? Isso existe? É científico? Sim, é. Comprovadamente científico. Ora, mas se prestaria muito bem para o título de um poema ou, quem sabe, de um livro. A poesia me procura e sempre tromba comigo nos lugares e situações mais inverossímeis.

Já em casa, vou ao Google atrás de mais detalhes dessa tal síndrome de nome tão poético.  

            No insuspeito site do HCor (Hospital do Coração – SP), leio: “O estresse emocional e físico são alguns dos fatores que impulsionam a síndrome do coração partido. Considerado um problema raro que provoca sintomas semelhantes aos de um infarto, como dor no peito, falta de ar ou cansaço, e que surge em períodos de grande estresse emocional. (...) A síndrome do coração partido normalmente é considerada uma doença com origem psicológica. Porém estudos hemodinâmicos mostram que, durante a síndrome, os ventrículos do coração não contraem corretamente, simulando um infarto do miocárdio e resultando numa imagem semelhante a um coração partido.”

            Romântico, poético? Nananinanão! A coisa é assustadora e ainda não me refiz. De alguma maneira, passei a ser uma cardiopata, afinal, há outras cositas a serem observadas, todas "compatíveis com a idade". O tratamento recomendado? Caminhada e sociabilização. A "sociabilidade" que sempre pratiquei com intensidade, me foi tirada pela pandemia e, após as tragédias e os lutos, pela falta de motivação e hábito. A caminhada, sempre planejada e pouco praticada, reconheço, junto à festa dos encontros, serão os desafios nesta minha nova fase, ou seja,  "a vida é agora" e é festa. Amanhã, sairei, ao lado de Mrs. Dalloway para comprar flores.      

Abaixo, breve ensaio fotográfico da minha cuidadora/paparazzi (a mais velha) com alguma cenas da rotina diária na UTI, inclusive na etapa de recuperação.

Com a fisioterapeuta e uma echarpe para disfarçar o desalinho da vestimenta

Preparo para a futura corrida de "São Silvestre"


E houve "concerto" individual, como "bônus"


As marcas/avisos da passagem


DO RETORNO E DA FELICIDADE EM SABER-SE MIMADA (Obrigada, Tarso de Melo, obrigada, Márcia Rosenberg, queridos amigos e tantos outros que, ao lado das três filhas, Carolina, Isabela e Alice e Luzia Maninha (amorosas e incansáveis), a irmã amorosa, Floripes. Valdecirio, o velho companheiro/marido há 51 anos, que nada soube dizer quando retornei, sentindo-se fisicamente desconfortável, pela emoção do momento. Por fim, a todos que, por inabilidade minha, não consigo registrar aqui, mas sabem que estão incluídos nos meus agradecimentos.