quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Retorno com poema

Voltei (ou tento) voltar aos caminhos virtuais. Com o Poeta, diria que ficaram velhas todas as notícias.
Li muito (ou ainda mais) no tempo que havia sido reservado ao ócio, mas não foi. Escrevi freneticamente também. Coloquei um ponto final no novo livrinho, Solidões da Memória.
Cada vez mais estou convencida de que a poesia é imprescindível à sobrevivência (ao menos da minha).
Marco meu retorno ao espaço virtual, com um poeminha:

Poética (*)
     "Atravessar as coisas / para melhor absorver-lhes / a duração e o gosto."
                          Donizete Galvão

desprezar
a macieza da superfície
a enganosa lisura
observar
as imperfeições
as fendas invisíveis
empreender a tarefa
: escavar
a coisa, a pedra, a letra
até que a solidez do corpo
e o equilíbrio do poema
se revelem


(*) poema de dtv integrante da coletânea "Outras Ruminações", Dobra Editorial, SP, finalzinho de 2014, livro em homenagem ao poeta Donizete Galvão, no qual seus poemas são "relidos" por cerca de 70 poetas.
Que 2015 nos traga um pouco mais de leveza do que prenuncia este seu início. Saudações fraternas a todos

domingo, 4 de janeiro de 2015

Intervalo

Despeço-me (por um tempo) deste país virtual para um mergulho mais fundo e completo no meu país real e particular. Primeiro celebrar (e muito - a festa é também rito e necessidade vital - só não pode ser todo dia porque aí cansa...), por estar viva, com saúde e rodeada dos que amo. Depois dar conta da pilha de livros que o bom velhinho deixou por aqui (ele adivinha sempre meus desejos). Poesia, muita poesia. Não porque é novo o ano, mas porque dela me nutro todos os dias de todos os anos. Até qualquer dia... Prometo voltar menos preguiçosa neste 2015 (dtv)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Natal

Natal, em respeito à minha história pessoal e dos meus ancestrais, segue da mesma forma há 4 décadas por aqui. O presépio adquiriu a feição multicultural da família, uma mistura de lapinha madeirense, à qual foram se juntando peças adquiridas em diferentes locais e ocasiões agora se constitui numa pequena coleção de mini-presépios de várias "nacionalidades", sem faltar as "searinhas", simbolizando a fartura do ano vindouro, tradição rural da terra natal, a Ilha da Madeira. O bacalhau às lascas com (muita) cebola, (muito) azeite e grãos também integra a tradição na ceia do dia 24. Mais uma vez, o louvor à memória, aos que aqui já não estão e a celebração dos que aqui se encontram com saúde e projetos futuros. Celebrei/celebramos.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A maldição da palavra

Postei este texto no facebook pelo fato de que o mesmo se originou de um episódio do próprio meio, mas como o blog "armazena" melhor as palavras, deixo-o também aqui:

Definitivamente, sábados são dias bipolares na minha vida. Para o bem e para o mal, as grandes alegrias e tristezas, algumas tragédias também, costumam me acontecer nesse dia da semana, sempre juntas, fazendo jus a essa tal bipolaridade do dia.
Como, para o bem e para o mal, o maldito fb é também um confessionário, provocador de "tragédias", vamos ao relato da bipolaridade deste sábado:
manhã
Com alegria, exercitei a arte da conversa entre gente que gosta (pouca, pouquíssima, é verdade) a arte de fazer e ler poesia essa inutilidade diante dos olhos utilitários do mundo.
noite
madrugada abafada de já domingo, disseram-me que faço da poesia a "arte da fuga" e da palavra "a arte de magoar" e, em outras palavras, que não passo de um ser desprezível e inútil.
Saí ferida do embate, triste de não ter jeito, sentindo-me na clandestinidade.
Perdi o sono. A noite, outra noite, mais abafada e triste.
Sem entender as razões de tantas culpas e pecados que me são atribuídos, valho-me justamente da palavra (afinal, foi a palavra que elegi como ofício) para, glosando os versos da poeta de olhos da cor do mar, concluir:
Ai palavras ai palavras que estranha maldição a vossa!


sábado, 29 de novembro de 2014

Da série, Olha só o que o carteiro deixou aqui II


Este nem precisei "rasgar" o envelope porque veio nos moldes de "arte correio", "propostal", poesia "em aberto" a quem dela queira se apropriar, como convém a um poeta, meu velho camarada Zhô Bertholini. Resistente às novas mídias, fiel à velha caixa postal 071, Vai deixando marcas do corpo no papel, jamais em branco, jamais vazio, sempre arte (para partilhar, para (re)distribuir. 
Mais uma preciosidade que vai para a minha caixa relicário



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Da série, Olha só o que o carteiro deixou aqui




Cheguei há pouco do trabalho. Sobre a escrivaninha, esperava-me um envelope amarelo, subscrito com meu nome em letra elegante. O carimbo do correio registra: Madrid 10 Out.2014. Foi uma longa viagem (45 dias) até chegar ao seu destino. O gesto de abrir um envelope assemelha-se a gestos ancestrais de descobertas. Foi assim que mergulhei em delicadezas e poesia, mimos preciosos enviados por alguém que até então era um desconhecido (não é mais...). Uma edição fac-similar do Romancero Gitano de Lorca... objeto gráfico e simbólico tão estimado! E não só, recheado de outras delicadezas que me fizeram passear pela linda Madrid, cidade onde já estive por 3 ou 4 vezes mas que há anos não visito. Nunca estive lá no Outono, mas é a estação de que mais gosto (em qualquer canto do mundo). Receber folhas outonais madrilenhas, envolvidas em papel de seda com a legenda: "el otoño ha llegado" representa uma verdadeira epifania! Depois, passear pelo Reina Sofia, Prado, e o Museo del Romanticismo (este eu não conhecia) e um marca-página com a imagem da grande e trágica poeta argentina Alejandra Pizarnik!... Ser apresentada a Joaquin Sorolla (também não conheço - ó mundo tão vasto, e tanto ainda a conhecer!) e terminar o "passeio" em Lisboa, com Jazz às onze (assim como o remetente, também gosto de recolher postais por onde ando, guardá-los ou presenteá-los, marcas do vi e ouvi. Obrigada, caríssimo amigo. A partir de agora,  o amigo virtual torna-se uma presença física (real e de muita sensibilidade). E viva os "milagres" das redes sociais (para o bem e para o mal. Para o bem, neste caso, claro - até porque, os casos de "para o mal" simplesmente ignoro). Bem haja!



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Diário (quase íntimo) 2013

quarta, 27

"À medida que nos aproximamos da morte, também nos voltamos para a terra. Mas não para a terra em geral e sim para aquele pedaço, aquele ínfimo mas tão querido, tão saudoso pedaço de terra em que transcorreu nossa primeira idade"
"A mim, a literatura permitiu expressar horríveis e contraditórias manifestações de minha alma"
"Quando já abandonamos a energia dos trabalhos, o ardor da paixão, a ilusão de outros projetos, com frequência ficamos habitando o presente, distraidamente, como um jogo ao qual não prestássemos atenção, porque nosso eu mais profundo ancorou-se àqueles momentos em que a vida resplandecia".
Ernesto Sabato, "Antes do Fim" (tradução Sérgio Molina, Cia. das Letras), livro belo e terrível, visão lúcida e sombria dos derradeiros anos do grande escritor argentino. Livro que leio, quando não deveria ler.