sábado, 3 de maio de 2014

Diário (quase íntimo) 2013

maio 02, quinta
modos de fazer
modos de receber
novas formas
abstração
figuração
o corpo
escuta do outro
sensações
autonomia
reescritura
recortes
criação
rigor
experimento
ouvi, calou... aprendi
 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Quarenta dias em dois dias


Saí da leitura do romance "Quarenta dias" de Maria Valéria Rezende (Alfaguara, 2014) rendida (leia-se, transformada), como se eu mesma, nestes dois últimos dias, tivesse vivenciado as agruras dos quarenta dias de sua narradora, Alice, percorrido os becos e outros lugares escusos de uma cidade (Porto Alegre) que, por suas (des)humanidades,  bem poderia ser a minha ou qualquer uma das grandes cidades brasileiras.
 
 

Trata-se de um mergulho na vida urbana e nos seus personagens, costumeiramente invisíveis à grande maioria dos passantes, mas não só. É também e principalmente um mergulho no mundo das trevas, por uma mulher, professora aposentada, que se vê, repentinamente, obrigada pela insensibilidade da filha, a deixar sua casa e seus pertences, mudar-se para um apartamento "cenário de novela", frio e impessoal, sob a perspectiva de tornar-se apenas uma "avó profissional", matando sua própria história.

É nessa viagem/mergulho às cegas que Alice, de forma alucinada e inconsciente, busca criar uma história possível com a qual possa se identificar. Uma viagem através da banda podre e invisível de uma grande cidade, onde anônimos vão recebendo nomes e se transformando em protagonistas de outras histórias, compondo um painel assustadoramente humano e ao mesmo tempo assustadoramente despossuído de humanidade. Um exército dos abandonados à própria sorte, dos que, como ela, também largaram seus lugares, suas famílias e caíram no mundo e transformaram-se numa massa informe e fétida da qual, vez por outra, vertem os tais vestígios de humanidade, através de gestos de solidariedade e compaixão.

Não pude evitar  a lembrança de uma crônica já velhinha, que escrevi sob o impacto da tragédia ocorrida com o desabamento do edifício Palace, na Barra da Tijuca (RJ), no Carnaval de 1998. Comovida diante das expressões de dor daqueles que, assim como a personagem do romance que acabo de ler, assistiam ao momento da perda de sua própria história.

Naquele texto, dizia eu, uma casa não é um lugar que serve apenas para abrigar pessoas e coisas. Uma casa não é uma simples edificação, mas representa a própria vida de quem a habita, a memória representada por fotografias, livros, suvenires de viagens, fitas,  pétalas de flores, cartões postais, almofadas, objetos insignificantes para olhares desavisados, mas que, junto a lembranças não armazenáveis em quartos, salas ou cozinhas, como gestos, carícias, sons, cheiros, respirações, ritos que ali ficam colados às colunas, portas e paredes, impregnados da energia vital, representam o eixo referencial da própria existência de quem a habita. E foi isso que me fez compreender o gesto tresloucado de Alice

Quarenta dias, escrito na forma de diário e memória, possui um ritmo que obriga o leitor a, ofegante, acompanhar os passos da personagem pelos subterrâneos de uma cidade e de uma mulher, ambos à beira do colapso e da ruína. Um romance que, por força de uma poderosa narrativa, nos põe diante de uma tela na qual pode-se assistir ao que se lê. E que ninguém se iluda com a linguagem (quase) coloquial, aparentemente desprovida de "trabalho". Ser simples desse jeito requer talento literário,  uma vida inteira de dedicação e muito, mas muito trabalho.

Diário (quase íntimo) 2013


maio 01, quarta

Pirarucu da Amazônia
Pintado de Matogrosso

Peixes de rios distantes
degustados no alto da serra
próximo do planalto
em cujos rios
    peixes já não há

Diário (quase íntimo) 2013


abril 30, terça

Filipe faz cinco anos
e celebra, feliz
junto à "sua turma"
(família e escola)
Filipe e os amigos
Filipe e os familiares
Filipe e os livros
Filipe e suas perguntas
e sua curiosidade
e sua sede rumo ao porvir
    que será grande

Filipe, meu neto

terça-feira, 29 de abril de 2014

Diário (quase íntimo) 2013


abril 28, domingo

risoto de abobrinha
vinho tinto
preparam o espírito
para o dantesco:
  a velhice, a doença
        decrepitude
fardos depositados
no hospital público
onde a prima definha

Diário (quase íntimo) 2013


abril 27, sábado

"davids" suburbanos
tartarugas e garças
e peixes e verdes
convivem
com velhinhos em busca
da juventude impossível
e livros...

Escritores-caixeiros-viajantes
                     de editoras
contam suas histórias
e autografam como quem
                       carimba
A literatura e o escritor
      à mercê do espetáculo
e da especulação editorial


Diário (quase íntimo) 2013


abril 26, sexta

 o poeta
  manancial de histórias
(uma história para
      cada poema)
O poeta e
    suas canções
que são poemas-histórias
Show de histórias
     histórias que o poeta
gosta de contar ao público
   que veio ouvir suas canções