quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

solidões da memória – notícias e impressões de leitura – III

Nesta terceira postagem da série que reúne notícias e impressões críticas de leitura sobre o meu mais recente livro “solidões da memória”, registro aqui sensível abordagem da jornalista Sonia Nabarrete, publicada no Jornal ABCDMaior, em 20.01.2016, nas versões impressa e virtual: Clic AQUI para ler o original.

Dalila Teles Veras faz de memórias poesia

Depois de 24 anos à frente da Alpharrabio, escritora reafirma compromisso com a cultura regional

Aos 11 anos, Dalila Teles Veras deixou Funchal, na Ilha da Madeira, onde nasceu, para viver em São Paulo, no Brasil, acompanhando a família que fugia das dificuldades pós-guerra. De lá, trouxe lembranças e sentimentos, que se transformaram em matéria-prima para muitos poemas. Alguns deles estão em seu último livro, Solidões da memória.
“Não é um livro de memórias, e sim de poesias”, esclareceu Dalila, que até nas fotos presentes na obra, que têm a ilha portuguesa como cenário, fez questão de dar um tratamento que deixasse os contornos esfumaçados para passar a ideia de algo onírico. Ela explicou que neste trabalho, como acontece em toda sua produção poética, criou a partir de fatos reais e vivências, que foram totalmente transfigurados.
O novo livro também consolida sua busca pela concisão. “Bem antes da internet, que criou a tendência de textos curtos, eu já procurava dizer muito com pouco”, conta Dalila, que começou a gostar de literatura, e em especial de poesia, ainda criança, incentivada por duas grandes leitoras da família, a mãe e a avó. Com o tempo, esse encantamento pela leitura só aumentou. Escreveu poemas em várias publicações e hoje soma 16 livros de poesia, entre os mais de 20 que publicou. A Ilha da Madeira está presente em três deles: Madeira: do vinho à saudade, Estranhas formas de Vida, em referência a uma canção de Amália Rodrigues e que tem as epígrafes de todos os poemas retiradas de fados, e o recém-lançado solidões da memória.
O último livro desta trilogia começou a ser preparado em 2014, quando esteve na ilha com este objetivo. Quando o material já estava praticamente pronto, encontrou uma caderneta, com anotações de outra viagem, feita em 2012, onde havia praticamente montado o roteiro do livro. “Juntei o material e me lembrei que, antes disso tudo, havia visitado uma exposição chamada Rizoma, que remete à raiz, e que, na verdade, ali tinha começado a nascer o livro”, relatou Dalila, impressionada com a capacidade de armazenamento das memórias pelo cérebro humano, de onde se pode tirar, muito tempo depois, a lembrança inspiradora.


Alpharrabio surgiu como espaço para escritores
Desde 1972, quando se casou com o também escritor Valdecírio Teles Veras, Dalila vive em Santo André, onde participa ativamente da vida cultural da cidade e de todo o ABCD. Durante 11 anos, esteve à frente do Grupo Livrespaço, que reunia escritores e manteve uma revista, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte.
Os escritores da Região precisavam de um lugar para se reunir, conversar, produzir e lançar seus livros. Foi assim que nasceu a Alpharrabio, misto de livraria e editora, que em fevereiro completa 24 anos de atividades como um verdadeiro centro cultural.
Dalila confessa que, como negócio, a Alpharrabio, sediada em Santo André, nunca deu lucro, mas se firmou como um dos espaços mais importantes para a cultura do ABCD. “Lançamos mais de 200 livros, 98% deles de autores da Região, e abrimos espaço também para os artistas plásticos, realizando pelo menos quatro grandes exposições por ano, além de sediar, há oito anos, o Fórum Permanente de Debates Culturais”, disse a escritora, que dirige a Alpharrabio com o apoio da cunhada, Luzia Maninha Teles Veras.
LER É PRECISO
Dalila é muito procurada por jovens autores, que buscam sua bênção para o que escrevem. A todos, recomenda que leiam muito. “Ninguém se torna escritor se não for, antes, leitor. É preciso ler muito para criar referência do que é bom. É fundamental conhecer Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa, Mário de Andrade, Cecília Meireles, Castro Alves, entre muitos outros”, disse a poeta.
Para ela, não tem sentido o argumento de alguns autores que alegam não ler para não se deixar influenciar. “É natural tentar escrever como alguém que a gente admira. Mas, aos poucos, o autor se liberta e encontra a própria voz.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

solidões da memória – notícias e impressões de leitura – II

Dando prosseguimento ao registro de algumas notícias e impressões de leitura sobre o meu livro solidões da memória, esta segunda postagem remete a dois textos, o primeiro, assinado pelo poeta e professor Demetrios Galvão, de Teresina, Piauí, publicado em 24.12.2015, na sua coluna “janelas em rotação” do portal Cidade Verde 
“recentemente conheci a poeta Dalila Teles Veras e devo dizer que, foi um desses encontros que só a literatura pode proporcionar. além de termos participado de uma mesa redonda falando sobre nossos fazeres poéticos e perspectivas sobre a literatura, esticamos o papo e fiquei maravilhado com essa figura humana que tem uma poesia tão bonita e sensível. nesse encontro trocamos nossos livros e levei na mochila o seu "Solidões da Memória". leitura que recomendo a todos que gostam de uma boa poesia.
pois bem, acabei de postar em meu blog um pequeno perfil biográfico da Dalila e 3 poemas do seu último livro. confiram:
Dalila (Isabel Agrela) Teles Veras, natural do Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, (1946), emigrou com a família para o Brasil (São Paulo, Capital), em 1957. Em 1972, após seu casamento com o advogado e escritor Valdecirio Teles Veras, radicou-se em Santo André.
Publicou mais de uma dezena de livros, nos gêneros poesia, crônica e o livro "Minudências", um diário do ano de 1999. Participou de inúmeras antologias no país e no exterior. Possui trabalhos (artigos, ensaios e textos literários) publicados em jornais e revistas de todo o país e do exterior. Atua à frente da livraria, editora e espaço cultural Alpharrabio. 
Entre os vários livros publicados estão: Lições de Tempo (1982); Inventário Precoce (1983); Madeira: do Vinho à Saudade (1989); Elemento em Fúria (1989); Forasteiros Registros Nordestinos (1991); Poética das Circunstâncias (1996); A Palavraparte (1996); A Vida Crônica (1999); As Artes do Ofício - um olhar sobre o ABC (2000); Minudências (diário) (2000); À Janela dos dias - poesia quase toda (2002); Vestígios (2003); Poesia do Intervalo (2005); Solilóquios (2005); Pecados (2006); Retratos Falhados (2008); Solidões da Memória (20150).
 Os poemas aqui publicados são do seu último livro “Solidões da Memória”, lançado ainda no mês de dezembro.
Para saber mais sobre a poeta é só acessar 

 rizoma
        vestígios de pegadas nas areias
        restos d’ossos roídos e d’espinhas
                     António Barahona

a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia

vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio

(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
– revivências)

a memória da infância
é a memória possível
(e só à poesia cabe recriar)

cartografia soletrada
         quietos fazemos as grandes viagens
                      José Tolentino Mendonça

o tio

(marinheiro, remetia
cartões postais
dos portos por onde
atracava seu navio

ulisses consanguíneo
sempre voltava para
contar, no seu
contar/inventar
reinventava-se
ficcionava-se)

soletrava cartografia
no imaginário da
destinatária



passagem

     porque não sou desta ilha, cresceram-se
        as asas que me afastam e desesperam
                        José Viale Moutinho

ansiado
o fogo de dezembro
coroava de assombros os
corpos bordados por urtigas
as pernas grossas de ladeiras
os olhos da mesma paisagem
(o fogo, artifício
intermitência do existir)

ano findo, meia noite
em ponto, os apitos dos vapores
invadiam terraços e janelas
nos parapeitos, iluminados
estremeciam-se
corpos e ilha

o mar, vagas ocultas
acendia-se
em esplendor
em fogo, os olhos
virgens de incêndios
armazenavam centelhas
(reserva e antídoto à monotonia
do novo e igual calendário)
alvoroço
para o poema vindouro

O segundo texto, publicado no mesmo dia 24.12.2016 na revista A.Poética, editada por Maria Fernandes, no Funchal, destaca o lançamento do livro solidões da memória:


Foi apresentado no passado dia 4 de Dezembro “Solidões da Memória”,  o mais recente trabalho de Dalila Teles Veras. O livro, sob a chancela conjunta da Alpharrabio Edições e da Dobra Editorial foi apresentado na Casa das Rosas, em São Paulo e encerra um conjunto de poemas inspirados nas memórias da autora: a sua primeira infância passada na Ilha da Madeira, onde nasceu e a viagem transatlântica que empreendeu com a família, rumo ao Brasil onde reside até hoje.
Do livro, escreve o poeta Tarso de Melo em carta à autora, publicada no livro a título de posfácio:
“(…) me agrada muito a ideia de uma trilogia composta por Madeira: do vinho à saudade (que é 1989!), estranhas formas de vida e este solidões da memória, formando uma “trilogia das raízes” dentro da sua obra.(…) Em solidões da memória, parece-me que esta ideia de uma poesia que revira as memórias, que revira seus próprios fundamentos, não para se prender a eles, mas para pensar as incertezas do presente com a intensidade ganha no contato com as raízes, tensionando-as, é ainda mais forte que nos outros livros da “trilogia”. Não por acaso, logo no primeiro poema encontramos: “a memória da infância/ é a memória possível/ (e só à poesia cabe recriar)”. E eu até diria, torcendo um pouco seu verso: “e à poesia só cabe recriar” (a si e à memória). Isto fica claro em vários momentos, como na “madeira [que] não é apenas fotografias”, em “confidência da madeirense”, e na excelente “caderneta de anotações”, cuja provisoriedade denota também uma dificuldade ou até impossibilidade de cristalizar a memória, porque quer mesmo pegá-la viva. Outro aspecto de que gostei bastante é o esforço para desconstruir a “ilha” ou aquilo que você chama de “insularidade”, que é, ademais, um óptimo título! Se usamos “ilha” para dizer “isolamento”, o que ressalta de seus poemas é um retrato de uma ilha (real) que se esparrama (na memória, no tempo, no espaço) e cria contactos que a “des-insulam” ou “des-isolam”. Uma ilha (vivida, lembrada) que não pode ser contida – em fotos, em fatos, em fados. Vai além. Transborda. Coloca em xeque até mesmo as “solidões” que o título destaca, mas que o faz no plural, desde aí revelando a pluralidade da própria memória. Talvez por isso agora não caibam apenas as epígrafes dos fadistas, mas a poeta tenha que recorrer ao diálogo com poetas – daqui e de lá – que foram lidos ao longo da vida, dando conta das transformações dessa memória.”
Em apresentação nas badanas da obra, diz Rosana Chrispim:
“ Cada um dos poemas (re)constrói o resgate e a memória, revelando imagens que, ao fim e ao cabo, podem espelhar, cristalizar a memória própria de quem os lê. Inteiros, intensos e intensamente delicados são precisos (nada neles ultrapassa ou falta) e formam um conjunto, tão precioso quanto uma sobremesa harmonizada com um vinho. Convidam. O belo e pungente texto ao final, tem o sabor de uma prosa poética e mostra o caminho da poeta por si mesma. Cristalino de corpo e alma.”

O A.Poética iniciou já na edição passada a divulgação de alguns poemas desta obra sendo que o segundo poema está contido na presente edição.

veja a publicação original do A.Poética, clicando AQUI


domingo, 14 de fevereiro de 2016

solidões da memória – notícias e impressões de leitura - I

A partir de hoje passarei a postar aqui algumas notícias e impressões de leitura sobre o meu mais recente livro, solidões da memória, publicadas desde o lançamento, em dezembro de 2015. A primeira delas, matéria assinada pelo jornalista Vinicius Castelli, sob o título “Poemas para sentir e viver”, publicada por ocasião do lançamento do livro, 19.12.2015, no Diário do Grande ABC, versão impressa e virtual (clic no título): Poemas para sentir e viver




"Memórias de parte de uma vida, algumas próprias, outras delas, pitadas de lembranças alheias, mas todas com algo em comum: a Ilha da Madeira, em Portugal. Muitos cheiros, sabores e sentimentos diversos podem ser vivenciados na experiência que a escritora de Santo André Dalila Teles Veras oferece agora ao público em seu novo livro, Solidões da Memória (Alpharrabio Edições/Dobra Editorial, 94 páginas, R$ 30, em média).
O lançamento da obra é hoje, na Livraria Alpharrabio, em Santo André, a partir das 11h e com entrada gratuita. O livro também pode ser comprado pelo site da Dobra Editorial  ou ser solicitado pelo e-mail virtual@alpharrabio.com.br. 
Nascida na Ilha da Madeira, a autora – que em sua conta tem mais de 20 livros lançados – chegou ao Brasil aos 11 anos e há 43 vive em Santo André.
Em Solidões da Memória, ela apresenta sua terra natal, personagens, paisagens e faz o leitor vivenciar situações, imaginar e sentir o vento no rosto por meio de vários poemas. “Essas memórias, digamos, foram sendo reavivadas nas viagens de regresso e (re)visitas que fiz à terra natal, a última delas em 2014”, explica. Nessas idas à Ilha, Dalila teve consigo um caderninho para as anotações das coisas todas que foram surgindo.
Ela conta que o ‘mergulho’ no passado nem sempre foi fácil, porém, desafiador ao que se refere ao processo criativo. “Tive muito receio e o natural cuidado para que não soasse piegas”, diz. Na obra, ela sai de cena, empresta suas memórias às páginas e opta pela escrita em terceira pessoa.
Entre as diversas sensações, algumas possuem gosto de saudade e deixam claro a importância de a memória seguir viva, caso de Nomear é Jamais Apagar, que diz ‘...na rua dos tanoeiros leio homenagem oculta ao anônimo artífice de barris. meu avô que ali trabalhou e, morto não foi apagado, vive à vista dos passantes branco sobre negro a lembrar’.
“Acredito que se não tivesse retornado e reencontrado com todas essas coisas que me fizeram lembrar, ela permaneceria em algum escaninho misterioso do cérebro, à espera de ser detonada. A partir desse ‘repasse’ ela torna-se coletiva, assim como o poema que, após publicado, também não nos pertence mais.”

Nesse mesmo dia, 19.12.2015, publiquei na minha TL do Facebook as minhas “impressões” sobre a fraterna manhã vivenciada na Alpharrabio Livraria, quando autografei o livrinho para um punhado de amigos que aceitaram o convite para o encontro:

Foi bonita a festa, pá! Mas... devo confessar, sessão de autógrafos é para mim um momento de angústia. Tenho pesadelos na véspera acreditando que não aparecerá ninguém... Gosto mesmo é do processo da escrita, pensar o livro, elaborar os poemas, escrever e reescrever (sim, reescrevo compulsivamente e só publico para me livrar do livro). Depois de publicado, um sentimento de esvaziamento, de tarefa cumprida... de que aquilo ali, o livro, não me pertence mais.

Não foi diferente desta vez. Vésperas de Natal, todos nos Shoppings, preocupados com as férias entrantes... Angústia.

Mas... fiat lux! Milagres sempre acontecem na minha vida e muitas das centenas de amigos que cultivei ao longo da vida resolvem trocar o Shopping pela livraria e fazem do que era apreensão alegria, muita alegria. Mas o Alpharrabio não é uma simples livraria, é O LUGAR, com significados, com uma história de 24 anos (a completar no próximo mês de fevereiro). As pessoas não vão ali apenas porque há o lançamento de um livro. Vão ali para o encontro (todos, afinal, se conhecem) para a conversa e para reafirmarem o sentimento de "pertença". A todos os que vieram prestigiar o lançamento de "solidões da memória" nesta linda manhã de quase verão (que durou o dia inteiro) o meu agradecimento sincero. Bem hajam! (dtv)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Fortalecimento simbólico

Preocupada, após muito refletir sobre a leitura de um recente texto sob o título “A morte do Hyperlink: Consequências”, de Hassein Derakshan, um jornalista iraniano, pioneiro e premiado blogueiro que, após alguns anos de prisão (por suas atividades na Internet), constata os assustadores tentáculos da rede social Facebook (hoje são contabilizados 1.5 bilhões de usuários ativos mensalmente) que “roubam” mais e mais leitores das mídias digitais.  
Desta forma, para muitos, a Internet resume-se ao Facebook (50% dos usuários). Assim, diz ele, “A mídia digital foi forçada a gerar histórias tolas e “virais” para sobreviver, causando um golpe severo no jornalismo sério.”
Pois bem, “tolas” ou não, volto às minhas postagens no FB, fortalecendo, ainda que simbolicamente, esta indispensável mídia, seguindo o raciocínio daquele jornalista: “como resultado dessa competição de popularidade, visões minoritárias cada vez engajam menos pessoas. Isso é particularmente alarmante em um mundo enfrentando a séria ameaça de grupos religiosos e nacionalistas radicais. O algoritmo secreto do Facebook tende a nos abastecer com mais do que já gostamos, reforçando nossos pontos de vista enquanto reduz nossa exposição a ideias desafiadoras e divergentes.”
Só não sei se retomarei o pique dos primeiros anos de blogueira (desde janeiro de 2009) quando postava diariamente. Tentemos, pois. (dtv)


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

do poeta Carlos Machado e da poesia.net


Carlos Machado, conhecido como generoso e incansável divulgador da poesia brasileira – criou e edita o site “Alguma poesia” e o precioso boletim semanal, poesia.net,  com abordagens críticas de poetas, na sua maioria, brasileiros contemporâneos - é, antes de tudo, um poeta brasileiro dos melhores e que bem merecia estar mais estudado e divulgado, ao menos na mesma medida em que o faz com seus pares.
Jornalista, nascido na Bahia e residente em Paulo, cursou engenharia mecânica na UFBA e, em São Paulo, jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Publicou “Pássaro de vidro”, SP, Hedra, 2006, Mané Ventura, Gonçalo e eu – uma história de cordel. São Paulo: Ed. do autor, 2012; cada bicho com seu capricho, poemas para crianças, MOV Palavras, 2015 e Tesoura Cega, pela Dobra Literatura, selo Donizete Galvão, 2015.
Este seu último belo livro  revela e (re)afirma um poeta de sintaxe singular, com seus temas recorrentes (a memória, o cotidiano, a poesia, o tempo) tratados com linguagem erudita sem pedantismo e um olhar de quem passeou longa e sabiamente por toda a história da literatura. Carlos sabe dizer dos poetas e da poesia alheia como ninguém, mas sabe muito mais elaborar sua própria obra que vai se firmando na centralidade do universo que ele, com tanto empenho, comenta e divulga com tanta propriedade.
Um poeta crítico merecedor de todas as homenagens, às quais incluo esta, ainda que que singela.





PUNHOS 
o tempo tem punhos
de renda

e toda a cerimônia dos
carrascos

na mão direita três
punhais:

ponteiros de metal
cravados

na pele fria de cada
hora que vai

(de Pássaro de Vidro)






Pastelaria Triunfo

Foi na pastelaria Triunfo,
uma casa de comércio na
Cidade da Bahia – mas também
um locus suspenso na memória
de meu amigo Santana -,
que se deu aquele episódio
de criança, luzes, sorvetes
e alumbramento. Cada um
de nós tem sua Pastelaria Triunfo,
seu porto de sonhos à prova
de vento e desterro. Não importa
se um dia o lugar existiu
de física presença – na Ladeira
da Praça, na Graça, na Praça
da Sé – ou é apenas miragem,
amarrotado desvario que
mantém o homem vivo.
        
             (Tesoura Cega)

Com alegria, dias atrás, recebo a edição nº 1.363 (dez. 2015) do Suplemento de Minas Gerais, um dos mais antigos e respeitáveis do país e, nele, página inteira, 4 poemas de Carlos Machado enchem a vista e o sentir estético. Eis um deles (livro novo à vista):

Néon

Com a calma cínica
do pó,
o cortejo trágico do mundo
acende neóns
à porta das farmácias.


E espera.






domingo, 15 de novembro de 2015

Mísia e Amália, Amália e Mísia – pelas trilhas do sentir



Já faz alguns dias que ouço os CDs deste encantatório álbum. Ouço, ouço e tento compreender as razões do enorme prazer estético que me proporcionam. Ao contrário da esfinge grega que prometia devorar aquele que não a decifrasse, o desafio que Mísia nos propõe é de outra ordem, caminha pelas trilhas dos sentidos e dos seus significados simbólicos ali presentes.  

Sem arcabouço técnico que possa me valer para uma análise musical, este meu comentário, caminha justamente por essas trilhas (do sentir).

Comecemos pelo “sentir” táctil do objeto. A capa, a produção gráfica do primoroso encarte  e verificaremos que nada aqui,  dos meticulosos e pensados detalhes de todo este delicado e, ao mesmo tempo, grandioso trabalho, está posto por acaso. Em cada minúcia, a marca e o bom gosto de Mísia, desde o conceito, a produção e a direção artística.

Desde o piano às tradicionais guitarras. Desde as participações especiais (Maria Bethânia, Martírio e Rogério Samora) à cuidadosa escolha dos fados, desde os inéditos, compostos especialmente para esta homenagem, quanto os que a própria Amália cantou, os mesmos, mas já outros. Sim, pois, assim como Amália, Mísia é artista única. Inimitável, jamais repete nem imita, faz de cada canção que interpreta a “sua” canção, ainda que a intenção, como neste caso, seja a de “homenagear”, como, de fato, homenageia.

Mísia nos diz que, mais do que um tributo, trata-se de “uma prenda” para Amália Rodrigues, que há 16 anos não está fisicamente entre nós, mas cuja “biografia continua a escrever-se” e permanece cada vez mais viva não só no coração dos que a amaram ao redor do mundo, mas no imaginário cultural e identitário do povo português. Uma prenda há anos acalentada e que agora, no seu tempo, é concluída. No seu tempo... Aquele tempo em que a maturidade atinge a dramaticidade e vivências requeridas. Um tempo que só poderia ser este, o de agora, que reafirma esta extraordinária artista como a voz de Portugal hoje.

Prosseguimos por esta senda e verificamos que a marca portuguesa é levada a tamanha altura que, por isso mesmo, atinge a universalidade. Num mundo perversamente globalizado, as culturas locais cada vez mais representam a diferença e a resistência, sem deixarem de pertencer a toda a humanidade, como é o caso do próprio Fado que, muito antes do reconhecimento oficial pela UNESCO, já o era.

Ouço e sinto: o piano (Maestro Fabrizio Romano, responsável também pelos arranjos),  ganha e empresta  sutilezas insuspeitas. Vai das quase imperceptíveis levezas à mais alta carga dramática, cujo exemplo maior está em “Tive um coração, perdi-o”, fado que inicia cantado à capela, já a indicar a intensa dramaticidade que virá a seguir. Mais do que um “acompanhamento”, neste caso específico, o piano é uma extensão da canção, ampliando o que a voz extraordinária de Mísia já diz.

Ponto também para Bethânia e Martírio que não se esforçam para “parecer” portuguesas, mas, sendo o que são (brasileira, espanhola, particulares e grandiosas) emprestam uma dignidade tamanha a esta participação que expande ainda mais os sentidos daquilo que cantam.

Confira aqui o clip do CD, dirigido por Maria de Medeiros, no qual Mísia canta este arrepiante fado:

https://www.youtube.com/watch?v=bZ5G0JFkBbw

Ouço e o que ouço me sugere que neste “Para Amália”, não há concessões (nem comerciais muito menos nas tais facilidades tão ao gosto da indústria cultural que sempre nos quer convencer de que o que é bom “não vende”). Contrariando também esta lógica, este é bom e, pelo que nos chega, está vendendo muito bem.

Para aqueles que, desafortunadamente ainda não sabem, Mísia é uma cantora portuguesa, com uma consolidada carreira internacional, iniciada em 1991. Desde então, já apresentou, além de Portugal, nas mais prestigiadas salas ao redor do mundo. Em seu  sofisticado repertório, constam poemas de grandes nomes da literatura portuguesa, como Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, António Lobo Antunes e muitos outros. Alguns desses poemas foram escritos especialmente para sua voz.

Mísia virá ao Brasil nos próximos dias 19 (SP) e 20 (RJ) para recitais com repertório deste seu novo trabalho, “Para Amália”, um algum duplo, lançado simultaneamente em Portugal, Brasil e outros países e, desde o dia 31 de outubro, vem obtendo grande repercussão de público e de crítica. Ao que tudo indica, caminha para ficar marcado como o acontecimento musical do ano.

Não estarei em São Paulo no dia 19.11 e, desconsoladamente triste, não a verei no Teatro J. Safra. Guardarei comigo, à espera da próxima oportunidade, dois especiais momentos em que a vi cantar em São Paulo e fiquei rendida pelo hipnótico carisma de alguém que não canta apenas com a voz, mas com todo o corpo. Mais do que dizer e interpretar, significa. Para consolo próprio, seguirei ouvindo este Para Amália, além da dezena de outros CDs que ao longo dos últimos 10 anos tenho, incansavelmente ouvido,  desde que, de forma fortuita,  fui “convidada” a ouvir “Paixões Diagonais”, CD que “descobri”, sem nenhuma informação prévia, perdido numa gôndola de supermercado. Sedução à primeira vista, à primeira audição.

Para quem, por ventura, tenha se interessado, deixo aqui, mais informações (preciosas), copiadas do site oficial de Mísia:
“trata-se de um álbum duplo, gravado em Lisboa no final de 2014, ano em que se cumpriram os 15 anos da desaparição física de Amália Rodrigues. “Para Amália” foi construído não só com o repertório amaliano mas também com temas inéditos criados especialmente para este trabalho.
O primeiro disco, piano e voz, é constituído por músicas na sua maioria de Alain Oulman mas também de Carlos Gonçalves, Fontes Rocha. Poemas de David Mourão Ferreira, Amália, Afonso Lopes Vieira, Pedro Homem de Mello, etc.
O segundo disco, guitarras de Fado, tem um ambiente musical mais tradicional, incluindo Fados muito populares e um tema de folclore.
Textos inéditos de Amélia Muge, Tiago Torres da Silva, Mário Cláudio e Mísia escritos em tributo a Amália Rodrigues.
Neste álbum participam a grande  intérprete  brasileira Maria Bethânia cantando com Mísia “Amália Sempre e Agora”, um dos 4 inéditos deste disco (Música Mário Pacheco e poema de Amélia Muge), o actor Rogério Samora alternando com a voz cantada de Mísia diz magistralmente o poema “Amor sem Casa”  de Teresa Rita Lopes e a  carismática cantora espanhola Martírio  num dueto com  Mísia  interpreta  “Maria La Portuguesa” canção que Carlos Cano, compôs,  dedicada  a Amália  Rodrigues. De salientar o talento musical do maestro napolitano  Fabrizio Romano nos arranjos de todos os  temas do  CD1.
Em concerto, “Para Amália" pode apresentar-se em 2 versões: uma mais intimista, piano e voz, outra completa, na qual as guitarras se juntam ao piano. Em ambas, um efeito visual da projecção em loop da jóia preferida de Amália Rodrigues, vai pulsando em várias cores palavras chave do Fado: destino, voz, saudade, mulher, etc.
"Amália tornou-se eterna e está mais viva do que nunca. O Tempo contido na sua obra e o youtube trabalham nesse sentido”. Mísia”




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cozinha e literatura ou das sincronicidades do espírito


Por estes dias, pousou em minha escrivaninha um pacote postado no Porto, algum tempo antes (a travessia atlântica, no que se refere a pacote enviado através dos correios, parece ter, por vezes, voltado ao ritmo das caravelas) por José Viale Moutinho, ilustre escritor meu conterrâneo e, o que é melhor, meu amigo.


Nada menos do que 5 livros saíram dali e vieram enriquecer a minha prateleira vialemoutiniana (“o diabo coxo – ocasionário fabuloso”, “Contos Populares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo”; “Portugal Lendário – tesouro da tradição popular” uma obra monumental publicada pelo Círculo de Leitores, com 524 pgs.;  “Entre Povo e Principais”, uma novela, em 2ª. edição, com Prefácio de Agustina Bessa-Luís, que diz : “Viale Moutinho é um dos últimos românticos do bem-dizer (....) Faz bem aos nervos lê-lo; faz bem à alma viver com os seus homens duros, os generais cravejados de medalhas, os caçadores atrás das lebres (...)”; o quinto e, para mim, mais importante (e já digo porquê) “Um jantar de escritores – seleção de textos e notas epicuristas”.
À alegria indescritível de sempre, a de abrir pacotes, saboreando de antemão o prazer estético de fruir seus conteúdos, juntou-se o sentimento de surpresa que reafirma a crença naquilo que Jung chamou de sincronicidade, ou seja, acontecimentos que se relacionam por seus próprios significados e não meramente pela causalidade.
É que no exato momento da chegada do pacote, estava eu dedicada à pesquisa sobre o papel da gastronomia na literatura, ou melhor, como é que a comida é “tratada” na ficção e na poesia de alguns escritores (naquele momento debruçava-me sobre Eça de Queiroz, o exemplo mais evidente na minha memória literária e valia-me do exaustivo trabalho de Dário Moreira de Castro Alves em “Era Tormes e Amanhecia – Dicionário gastronômico cultural de Eça de Queirós”). Preparava-me, com isso, para atender a um convite que recebi para integrar uma mesa de diálogo no Congresso Metodista, sob o tema  “Comida, Educação e Arte”, da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, no próximo dia 11. É evidente que ao me deparar com este “Um jantar de escritores – seleção de textos e notas epicuristas” estabeleceu-se de imediato a tal sincronicidade e, de quebra, muito contribuiu com minha pesquisa que, diga-se, não era do conhecimento de seu autor.
Neste, literalmente, saboroso livrinho, além do inevitável Eça, entra também o Camilo, sobre quem Viale Moutinho já publicou “Camilo e o Garfo” e uma farta mesa de banquetes da boa literatura portuguesa, passando pela poesia de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almeida Garrett, Bocage, António Nobre e Cesário Verde, bem como por romances e crônicas de Bulhão Pato, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão,  e tantos outros.

E viva a sincronicidade do espírito! Bem haja o Zé Viale, prolífico e original escritor, com sua generosidade transatlântica.