domingo, 14 de fevereiro de 2016

solidões da memória – notícias e impressões de leitura - I

A partir de hoje passarei a postar aqui algumas notícias e impressões de leitura sobre o meu mais recente livro, solidões da memória, publicadas desde o lançamento, em dezembro de 2015. A primeira delas, matéria assinada pelo jornalista Vinicius Castelli, sob o título “Poemas para sentir e viver”, publicada por ocasião do lançamento do livro, 19.12.2015, no Diário do Grande ABC, versão impressa e virtual (clic no título): Poemas para sentir e viver




"Memórias de parte de uma vida, algumas próprias, outras delas, pitadas de lembranças alheias, mas todas com algo em comum: a Ilha da Madeira, em Portugal. Muitos cheiros, sabores e sentimentos diversos podem ser vivenciados na experiência que a escritora de Santo André Dalila Teles Veras oferece agora ao público em seu novo livro, Solidões da Memória (Alpharrabio Edições/Dobra Editorial, 94 páginas, R$ 30, em média).
O lançamento da obra é hoje, na Livraria Alpharrabio, em Santo André, a partir das 11h e com entrada gratuita. O livro também pode ser comprado pelo site da Dobra Editorial  ou ser solicitado pelo e-mail virtual@alpharrabio.com.br. 
Nascida na Ilha da Madeira, a autora – que em sua conta tem mais de 20 livros lançados – chegou ao Brasil aos 11 anos e há 43 vive em Santo André.
Em Solidões da Memória, ela apresenta sua terra natal, personagens, paisagens e faz o leitor vivenciar situações, imaginar e sentir o vento no rosto por meio de vários poemas. “Essas memórias, digamos, foram sendo reavivadas nas viagens de regresso e (re)visitas que fiz à terra natal, a última delas em 2014”, explica. Nessas idas à Ilha, Dalila teve consigo um caderninho para as anotações das coisas todas que foram surgindo.
Ela conta que o ‘mergulho’ no passado nem sempre foi fácil, porém, desafiador ao que se refere ao processo criativo. “Tive muito receio e o natural cuidado para que não soasse piegas”, diz. Na obra, ela sai de cena, empresta suas memórias às páginas e opta pela escrita em terceira pessoa.
Entre as diversas sensações, algumas possuem gosto de saudade e deixam claro a importância de a memória seguir viva, caso de Nomear é Jamais Apagar, que diz ‘...na rua dos tanoeiros leio homenagem oculta ao anônimo artífice de barris. meu avô que ali trabalhou e, morto não foi apagado, vive à vista dos passantes branco sobre negro a lembrar’.
“Acredito que se não tivesse retornado e reencontrado com todas essas coisas que me fizeram lembrar, ela permaneceria em algum escaninho misterioso do cérebro, à espera de ser detonada. A partir desse ‘repasse’ ela torna-se coletiva, assim como o poema que, após publicado, também não nos pertence mais.”

Nesse mesmo dia, 19.12.2015, publiquei na minha TL do Facebook as minhas “impressões” sobre a fraterna manhã vivenciada na Alpharrabio Livraria, quando autografei o livrinho para um punhado de amigos que aceitaram o convite para o encontro:

Foi bonita a festa, pá! Mas... devo confessar, sessão de autógrafos é para mim um momento de angústia. Tenho pesadelos na véspera acreditando que não aparecerá ninguém... Gosto mesmo é do processo da escrita, pensar o livro, elaborar os poemas, escrever e reescrever (sim, reescrevo compulsivamente e só publico para me livrar do livro). Depois de publicado, um sentimento de esvaziamento, de tarefa cumprida... de que aquilo ali, o livro, não me pertence mais.

Não foi diferente desta vez. Vésperas de Natal, todos nos Shoppings, preocupados com as férias entrantes... Angústia.

Mas... fiat lux! Milagres sempre acontecem na minha vida e muitas das centenas de amigos que cultivei ao longo da vida resolvem trocar o Shopping pela livraria e fazem do que era apreensão alegria, muita alegria. Mas o Alpharrabio não é uma simples livraria, é O LUGAR, com significados, com uma história de 24 anos (a completar no próximo mês de fevereiro). As pessoas não vão ali apenas porque há o lançamento de um livro. Vão ali para o encontro (todos, afinal, se conhecem) para a conversa e para reafirmarem o sentimento de "pertença". A todos os que vieram prestigiar o lançamento de "solidões da memória" nesta linda manhã de quase verão (que durou o dia inteiro) o meu agradecimento sincero. Bem hajam! (dtv)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Fortalecimento simbólico

Preocupada, após muito refletir sobre a leitura de um recente texto sob o título “A morte do Hyperlink: Consequências”, de Hassein Derakshan, um jornalista iraniano, pioneiro e premiado blogueiro que, após alguns anos de prisão (por suas atividades na Internet), constata os assustadores tentáculos da rede social Facebook (hoje são contabilizados 1.5 bilhões de usuários ativos mensalmente) que “roubam” mais e mais leitores das mídias digitais.  
Desta forma, para muitos, a Internet resume-se ao Facebook (50% dos usuários). Assim, diz ele, “A mídia digital foi forçada a gerar histórias tolas e “virais” para sobreviver, causando um golpe severo no jornalismo sério.”
Pois bem, “tolas” ou não, volto às minhas postagens no FB, fortalecendo, ainda que simbolicamente, esta indispensável mídia, seguindo o raciocínio daquele jornalista: “como resultado dessa competição de popularidade, visões minoritárias cada vez engajam menos pessoas. Isso é particularmente alarmante em um mundo enfrentando a séria ameaça de grupos religiosos e nacionalistas radicais. O algoritmo secreto do Facebook tende a nos abastecer com mais do que já gostamos, reforçando nossos pontos de vista enquanto reduz nossa exposição a ideias desafiadoras e divergentes.”
Só não sei se retomarei o pique dos primeiros anos de blogueira (desde janeiro de 2009) quando postava diariamente. Tentemos, pois. (dtv)


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

do poeta Carlos Machado e da poesia.net


Carlos Machado, conhecido como generoso e incansável divulgador da poesia brasileira – criou e edita o site “Alguma poesia” e o precioso boletim semanal, poesia.net,  com abordagens críticas de poetas, na sua maioria, brasileiros contemporâneos - é, antes de tudo, um poeta brasileiro dos melhores e que bem merecia estar mais estudado e divulgado, ao menos na mesma medida em que o faz com seus pares.
Jornalista, nascido na Bahia e residente em Paulo, cursou engenharia mecânica na UFBA e, em São Paulo, jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Publicou “Pássaro de vidro”, SP, Hedra, 2006, Mané Ventura, Gonçalo e eu – uma história de cordel. São Paulo: Ed. do autor, 2012; cada bicho com seu capricho, poemas para crianças, MOV Palavras, 2015 e Tesoura Cega, pela Dobra Literatura, selo Donizete Galvão, 2015.
Este seu último belo livro  revela e (re)afirma um poeta de sintaxe singular, com seus temas recorrentes (a memória, o cotidiano, a poesia, o tempo) tratados com linguagem erudita sem pedantismo e um olhar de quem passeou longa e sabiamente por toda a história da literatura. Carlos sabe dizer dos poetas e da poesia alheia como ninguém, mas sabe muito mais elaborar sua própria obra que vai se firmando na centralidade do universo que ele, com tanto empenho, comenta e divulga com tanta propriedade.
Um poeta crítico merecedor de todas as homenagens, às quais incluo esta, ainda que que singela.





PUNHOS 
o tempo tem punhos
de renda

e toda a cerimônia dos
carrascos

na mão direita três
punhais:

ponteiros de metal
cravados

na pele fria de cada
hora que vai

(de Pássaro de Vidro)






Pastelaria Triunfo

Foi na pastelaria Triunfo,
uma casa de comércio na
Cidade da Bahia – mas também
um locus suspenso na memória
de meu amigo Santana -,
que se deu aquele episódio
de criança, luzes, sorvetes
e alumbramento. Cada um
de nós tem sua Pastelaria Triunfo,
seu porto de sonhos à prova
de vento e desterro. Não importa
se um dia o lugar existiu
de física presença – na Ladeira
da Praça, na Graça, na Praça
da Sé – ou é apenas miragem,
amarrotado desvario que
mantém o homem vivo.
        
             (Tesoura Cega)

Com alegria, dias atrás, recebo a edição nº 1.363 (dez. 2015) do Suplemento de Minas Gerais, um dos mais antigos e respeitáveis do país e, nele, página inteira, 4 poemas de Carlos Machado enchem a vista e o sentir estético. Eis um deles (livro novo à vista):

Néon

Com a calma cínica
do pó,
o cortejo trágico do mundo
acende neóns
à porta das farmácias.


E espera.






domingo, 15 de novembro de 2015

Mísia e Amália, Amália e Mísia – pelas trilhas do sentir



Já faz alguns dias que ouço os CDs deste encantatório álbum. Ouço, ouço e tento compreender as razões do enorme prazer estético que me proporcionam. Ao contrário da esfinge grega que prometia devorar aquele que não a decifrasse, o desafio que Mísia nos propõe é de outra ordem, caminha pelas trilhas dos sentidos e dos seus significados simbólicos ali presentes.  

Sem arcabouço técnico que possa me valer para uma análise musical, este meu comentário, caminha justamente por essas trilhas (do sentir).

Comecemos pelo “sentir” táctil do objeto. A capa, a produção gráfica do primoroso encarte  e verificaremos que nada aqui,  dos meticulosos e pensados detalhes de todo este delicado e, ao mesmo tempo, grandioso trabalho, está posto por acaso. Em cada minúcia, a marca e o bom gosto de Mísia, desde o conceito, a produção e a direção artística.

Desde o piano às tradicionais guitarras. Desde as participações especiais (Maria Bethânia, Martírio e Rogério Samora) à cuidadosa escolha dos fados, desde os inéditos, compostos especialmente para esta homenagem, quanto os que a própria Amália cantou, os mesmos, mas já outros. Sim, pois, assim como Amália, Mísia é artista única. Inimitável, jamais repete nem imita, faz de cada canção que interpreta a “sua” canção, ainda que a intenção, como neste caso, seja a de “homenagear”, como, de fato, homenageia.

Mísia nos diz que, mais do que um tributo, trata-se de “uma prenda” para Amália Rodrigues, que há 16 anos não está fisicamente entre nós, mas cuja “biografia continua a escrever-se” e permanece cada vez mais viva não só no coração dos que a amaram ao redor do mundo, mas no imaginário cultural e identitário do povo português. Uma prenda há anos acalentada e que agora, no seu tempo, é concluída. No seu tempo... Aquele tempo em que a maturidade atinge a dramaticidade e vivências requeridas. Um tempo que só poderia ser este, o de agora, que reafirma esta extraordinária artista como a voz de Portugal hoje.

Prosseguimos por esta senda e verificamos que a marca portuguesa é levada a tamanha altura que, por isso mesmo, atinge a universalidade. Num mundo perversamente globalizado, as culturas locais cada vez mais representam a diferença e a resistência, sem deixarem de pertencer a toda a humanidade, como é o caso do próprio Fado que, muito antes do reconhecimento oficial pela UNESCO, já o era.

Ouço e sinto: o piano (Maestro Fabrizio Romano, responsável também pelos arranjos),  ganha e empresta  sutilezas insuspeitas. Vai das quase imperceptíveis levezas à mais alta carga dramática, cujo exemplo maior está em “Tive um coração, perdi-o”, fado que inicia cantado à capela, já a indicar a intensa dramaticidade que virá a seguir. Mais do que um “acompanhamento”, neste caso específico, o piano é uma extensão da canção, ampliando o que a voz extraordinária de Mísia já diz.

Ponto também para Bethânia e Martírio que não se esforçam para “parecer” portuguesas, mas, sendo o que são (brasileira, espanhola, particulares e grandiosas) emprestam uma dignidade tamanha a esta participação que expande ainda mais os sentidos daquilo que cantam.

Confira aqui o clip do CD, dirigido por Maria de Medeiros, no qual Mísia canta este arrepiante fado:

https://www.youtube.com/watch?v=bZ5G0JFkBbw

Ouço e o que ouço me sugere que neste “Para Amália”, não há concessões (nem comerciais muito menos nas tais facilidades tão ao gosto da indústria cultural que sempre nos quer convencer de que o que é bom “não vende”). Contrariando também esta lógica, este é bom e, pelo que nos chega, está vendendo muito bem.

Para aqueles que, desafortunadamente ainda não sabem, Mísia é uma cantora portuguesa, com uma consolidada carreira internacional, iniciada em 1991. Desde então, já apresentou, além de Portugal, nas mais prestigiadas salas ao redor do mundo. Em seu  sofisticado repertório, constam poemas de grandes nomes da literatura portuguesa, como Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, António Lobo Antunes e muitos outros. Alguns desses poemas foram escritos especialmente para sua voz.

Mísia virá ao Brasil nos próximos dias 19 (SP) e 20 (RJ) para recitais com repertório deste seu novo trabalho, “Para Amália”, um algum duplo, lançado simultaneamente em Portugal, Brasil e outros países e, desde o dia 31 de outubro, vem obtendo grande repercussão de público e de crítica. Ao que tudo indica, caminha para ficar marcado como o acontecimento musical do ano.

Não estarei em São Paulo no dia 19.11 e, desconsoladamente triste, não a verei no Teatro J. Safra. Guardarei comigo, à espera da próxima oportunidade, dois especiais momentos em que a vi cantar em São Paulo e fiquei rendida pelo hipnótico carisma de alguém que não canta apenas com a voz, mas com todo o corpo. Mais do que dizer e interpretar, significa. Para consolo próprio, seguirei ouvindo este Para Amália, além da dezena de outros CDs que ao longo dos últimos 10 anos tenho, incansavelmente ouvido,  desde que, de forma fortuita,  fui “convidada” a ouvir “Paixões Diagonais”, CD que “descobri”, sem nenhuma informação prévia, perdido numa gôndola de supermercado. Sedução à primeira vista, à primeira audição.

Para quem, por ventura, tenha se interessado, deixo aqui, mais informações (preciosas), copiadas do site oficial de Mísia:
“trata-se de um álbum duplo, gravado em Lisboa no final de 2014, ano em que se cumpriram os 15 anos da desaparição física de Amália Rodrigues. “Para Amália” foi construído não só com o repertório amaliano mas também com temas inéditos criados especialmente para este trabalho.
O primeiro disco, piano e voz, é constituído por músicas na sua maioria de Alain Oulman mas também de Carlos Gonçalves, Fontes Rocha. Poemas de David Mourão Ferreira, Amália, Afonso Lopes Vieira, Pedro Homem de Mello, etc.
O segundo disco, guitarras de Fado, tem um ambiente musical mais tradicional, incluindo Fados muito populares e um tema de folclore.
Textos inéditos de Amélia Muge, Tiago Torres da Silva, Mário Cláudio e Mísia escritos em tributo a Amália Rodrigues.
Neste álbum participam a grande  intérprete  brasileira Maria Bethânia cantando com Mísia “Amália Sempre e Agora”, um dos 4 inéditos deste disco (Música Mário Pacheco e poema de Amélia Muge), o actor Rogério Samora alternando com a voz cantada de Mísia diz magistralmente o poema “Amor sem Casa”  de Teresa Rita Lopes e a  carismática cantora espanhola Martírio  num dueto com  Mísia  interpreta  “Maria La Portuguesa” canção que Carlos Cano, compôs,  dedicada  a Amália  Rodrigues. De salientar o talento musical do maestro napolitano  Fabrizio Romano nos arranjos de todos os  temas do  CD1.
Em concerto, “Para Amália" pode apresentar-se em 2 versões: uma mais intimista, piano e voz, outra completa, na qual as guitarras se juntam ao piano. Em ambas, um efeito visual da projecção em loop da jóia preferida de Amália Rodrigues, vai pulsando em várias cores palavras chave do Fado: destino, voz, saudade, mulher, etc.
"Amália tornou-se eterna e está mais viva do que nunca. O Tempo contido na sua obra e o youtube trabalham nesse sentido”. Mísia”




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cozinha e literatura ou das sincronicidades do espírito


Por estes dias, pousou em minha escrivaninha um pacote postado no Porto, algum tempo antes (a travessia atlântica, no que se refere a pacote enviado através dos correios, parece ter, por vezes, voltado ao ritmo das caravelas) por José Viale Moutinho, ilustre escritor meu conterrâneo e, o que é melhor, meu amigo.


Nada menos do que 5 livros saíram dali e vieram enriquecer a minha prateleira vialemoutiniana (“o diabo coxo – ocasionário fabuloso”, “Contos Populares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo”; “Portugal Lendário – tesouro da tradição popular” uma obra monumental publicada pelo Círculo de Leitores, com 524 pgs.;  “Entre Povo e Principais”, uma novela, em 2ª. edição, com Prefácio de Agustina Bessa-Luís, que diz : “Viale Moutinho é um dos últimos românticos do bem-dizer (....) Faz bem aos nervos lê-lo; faz bem à alma viver com os seus homens duros, os generais cravejados de medalhas, os caçadores atrás das lebres (...)”; o quinto e, para mim, mais importante (e já digo porquê) “Um jantar de escritores – seleção de textos e notas epicuristas”.
À alegria indescritível de sempre, a de abrir pacotes, saboreando de antemão o prazer estético de fruir seus conteúdos, juntou-se o sentimento de surpresa que reafirma a crença naquilo que Jung chamou de sincronicidade, ou seja, acontecimentos que se relacionam por seus próprios significados e não meramente pela causalidade.
É que no exato momento da chegada do pacote, estava eu dedicada à pesquisa sobre o papel da gastronomia na literatura, ou melhor, como é que a comida é “tratada” na ficção e na poesia de alguns escritores (naquele momento debruçava-me sobre Eça de Queiroz, o exemplo mais evidente na minha memória literária e valia-me do exaustivo trabalho de Dário Moreira de Castro Alves em “Era Tormes e Amanhecia – Dicionário gastronômico cultural de Eça de Queirós”). Preparava-me, com isso, para atender a um convite que recebi para integrar uma mesa de diálogo no Congresso Metodista, sob o tema  “Comida, Educação e Arte”, da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, no próximo dia 11. É evidente que ao me deparar com este “Um jantar de escritores – seleção de textos e notas epicuristas” estabeleceu-se de imediato a tal sincronicidade e, de quebra, muito contribuiu com minha pesquisa que, diga-se, não era do conhecimento de seu autor.
Neste, literalmente, saboroso livrinho, além do inevitável Eça, entra também o Camilo, sobre quem Viale Moutinho já publicou “Camilo e o Garfo” e uma farta mesa de banquetes da boa literatura portuguesa, passando pela poesia de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almeida Garrett, Bocage, António Nobre e Cesário Verde, bem como por romances e crônicas de Bulhão Pato, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão,  e tantos outros.

E viva a sincronicidade do espírito! Bem haja o Zé Viale, prolífico e original escritor, com sua generosidade transatlântica.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Uma visita ao Recôncavo Baiano e algumas descobertas

Atenção: isto não é um roteiro turístico. É só para reforçar algo que sempre constato em minhas viagens pelo Brasil, mas que muita gente ainda não se deu conta: São Paulo não é o Brasil (apesar do amor que devoto a este estado onde vivo desde os 11 anos) e não é a "força da grana que ergue e destrói coisas belas" que caracteriza este país, mas o seu povo e a incrível diversidade de sua cultura.

Esta não é a primeira vez que visito a Bahia, mas como há sempre o que descobrir nas inúmeras Bahias existentes na Bahia, desta feita, estabeleci meu QG na cidade de Cachoeira (110km de Salvador), no chamado Recôncavo baiano. E se conto é porque sempre volto inconformada por constatar que o Brasil é um país magnífico, vocacionado para o turismo, com atrações históricas, culturais e paisagens deslumbrantes, mas que ainda é subestimado pelos próprios brasileiros e descuidado por quem dele deveria cuidar.

Cachoeira Vista da Casa Ateliê Hansen Bahia, em São Félix, cidades nas
margens opostas do Paraguaçu e ligadas pela Ponte Imperial D. Pedro II

Antiga Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, chamada de a Heróica, título que lhe foi concedido por D. Pedro I, em abril de 1826, como reconhecimento à campanha pela emancipação do país, a cidade Cachoeira foi um importante entreposto comercial. Próspera e rica vila do Recôncavo, considerada a maior cidade baiana depois da capital e um dos mais importantes centros urbanos brasileiros do Século XIX. Sua "descoberta" oficial data do ano de 1526 e era o ponto de acesso ideal para penetração do interior. Ali, na altura da bacia de Iguape ("lagomar") encerra-se a parte navegável do rio.

Um rio que tem marés e ondas - Bacia do São Francisco - Rio Paraguaçu

Tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Nacional (IPHAN), a cidade reúne um impressionante e inestimável conjunto arquitetônico do estilo barroco na Bahia. 

A Identificação foi imediata: vistas a partir do rio Paraguaçu, as cidades de Cachoeira e São Félix (desta falarei depois), ligadas pela "Imperial Ponte D. Pedro II,  (1865) sobre o Rio Paraguaçu, muito se assemelham à geografia de minha cidade natal, Funchal e, muito em especial, quando iluminadas, à noite. Tanto aqui como lá, à margem do rio estas, à margem do oceano aquela, suas imagens são de um verdadeiro presépio.

Dali,  onde nos hospedamos numa pousada instalada num autêntico Convento do Século XVIII, parte do admirável conjunto do Carmo


Pátio Interno da Pousa do Carmo (antigo Convento) visto do primeiro andar (todas as janelas dão para o interior)
 

passamos à "exploração" local. Além da navegação pelo Rio Paraguaçu (que nasce na Chapada Diamantina e deságua em Salvador, após percorrer 600km)

Ponte Imperial D. Pedro II que liga Cachoeira a São Félix, vista do barco


cidades circunvizinhas, como São Félix, Muritiba, Santo Amaro da Purificação, Maragogipe, Iguape.

Um Brasil profundo, negro, mestiço, europeu, africano, sincretismo cultural único, carregado de histórias e com visíveis marcas da História, ainda que, em muitos casos, o descaso crônico com o nosso Patrimônio Histórico seja tão dolorosamente constatado e lamentado. Aqui e ali, mobilizações populares provocam "milagres" e meritórios restauros.

Sem nenhuma intenção de traçarmos aqui nenhum roteiro de viagem, destaco alguns dos inúmeros e surpreendentes monumentos históricos daquela região tão pouco divulgados, mas que merecem e precisam ser melhor conhecidos e fruídos. Além do casario, muitas edificações em excelente estado, outros tantas em completa degradação, topamos, de surpresa em surpresa, com estes:


Igreja de N. Sra. de Belém e o padre voador

Frontispício da Torre da Igreja de Belém, onde se inscreve a data de sua fundação: 1686


- Contando com a luxuosa visita guiada do pároco de Cachoeira, Pe. Helio Vilas Boas, visitamos a Igreja de Nossa Senhora de Belém, edificada em 1686 dentro de uma aldeia indígena (o frontispício atual é do Séc. XIX, e o interior da igreja passa por um grande processo de restauro). Aprendi que essa Igreja fez parte de um antigo Seminário (que já não existe) onde estudaram Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, e o famoso Pe. Bartolomeu Lourenço de Gusmão, conhecido como padre voador, criador da mítica "passarola" e, para quem se lembra, personagem do romance Memorial do Convento, de José Saramago. 




Pois bem, o Pe. Bartolomeu, começou ali sua carreira de inventor, criando uma maquineta que elevava a água de um brejo 100 metros abaixo da edificação que veio facilitar a vida dos que ali viviam. A Igreja de Nossa Senhora de Belém, hoje é um Santuário de Peregrinação. Arrepiante pisar o solo dessas histórias.


Conjunto do Carmo - Igreja N. Sra. do Carmo



O chamado conjunto arquitetônico do Carmo é composto pela Igreja da Ordem Terceira do Carmo,  pelo Convento (hoje transformado em Pousada) e pela Casa de Oração Ordem Terceira do Carmo (transformada em Centro de Convenções). De um valor histórico incalculável, a Construção, de estilos e épocas diversas (1696-1747) é realmente admirável. A Igreja tem seu interior revestido de ouro e maravilhosos painéis de azulejos portugueses. Na Sacristia, um impressionante conjunto de imagens de madeira trazidas de Macau que representam a Paixão de Cristo. As magníficas figuras, em tamanho natural, possuem traços orientais e cabeça raspada (disseram-me que é uma "versão" oriental de que os condenados à morte na cruz, à época de Jesus, tinham suas cabeças raspadas). As imagens são únicas e impressionam de fato, além dos armários onde estão colocadas, com pinturas autênticas nas portas e interiores, também de Macau. Muitos outros tesouros, sabe-se, foram saqueados por quadrilhas que percorrem o Brasil de ponta a ponta com essa finalidade. Sem a mínima segurança, o que restou de toda essa riqueza é "zelado", via de regra, voluntariamente e de forma precária, por cidadãos da comunidade que, organizados em "irmandades",  se revezam e esforçam como podem. Vez ou outra, por pressão desses mesmos abnegados cidadãos, restauros são realizados, mas sempre são insuficientes pelo fato de que a conservação é precária. Uma realidade que nos entristece e que precisa com urgência ser revertida.


Igreja Matriz N. Sra. do Rosário do Porto de Cachoeira





O Oh! de admiração continua ao entrarmos na Igreja Matriz N. Sra. do Rosário, Prédio do Século XVIII, igualmente de riquíssimo interior com a surpresa maior: novo e muito maior conjunto de azulejos portugueses, da época da edificação, muito bem conservados que, dizem, ser o maior conjunto do gênero existente no Brasil e um dos maiores fora de Portugal. Uma Sacristia com um belíssimo teto de pintura "ilusionista" do italiano José Theófilo de Jesus.   


Passeio e encontro com a Regata Aratu-Maragogipe

No passeio pelo Rio Paraguaçu, a surpresa da chegada das embarcações e dos tradicionais saveiros, da 46ª Regata Aratu-Maragojipe. E dá-lhe Samba suor e cerveja, dentro das próprias embarcações que reproduzem cenas de blocos carnavalescos (os participantes de cada uma delas com seus uniformes/abadás)








A Bahia é festa o ano todo. A Regata faz parte das festividades de São Bartolomeu em Maragogipe. E o sincretismo cultural, a mistura do profano e do religioso, mais uma vez,  se faz presente. No dia seguinte à regata, baianas vestidas a caráter saem em cortejo do Terreiro Banda Lecongo até as escadarias da Igreja do Santo Padroeiro (fechada nessa altura) para a tradicional lavagem.



No largo atrás da Igreja, o samba de roda anima a multidão dia e noite afora. A multidão aumenta a cada momento.


Os baianos não andam, dançam, gingam e demonstram uma indiscutível sensualidade. Não falam, cantam. 


Finalmente, no dia 24, dia do Santo, os atos religiosos são celebrados, não sem antes, uma boa salva de fogos.





Como se vê, a Noite de São Bartolomeu nos trópicos nada tem a ver (e ainda bem) com aquela outra no Século XVI, em Paris, que tingiu o Sena de sangue, consequência de disputas de poder e desvario de monarcas e altas patentes. A noite aqui é do povo que celebra sua mestiçagem e fé sincrética.

E há ainda o Museu e a Casa Museu Ateliê de Hansen Bahia

Fundação Hansen Bahia - Galeria (Cachoeira)

Casa Museu Ateliê onde viveu Hansen Bahia (São Félix)

O Museu biográfico Parque Histórico Castro Alves - PHCA, em Cabaceiras, onde nasceu o poeta Castro Alves

Fazenda Cabaceiras


O Convento de Santo Antônio do Paraguaçu, da Ordem religiosa Franciscana, é o primeiro a ser estabelecido no Brasil, impressionante edificação (1658-1686), às margens do Paraguaçu, no povoado de São Francisco do Paraguaçu, pertencente a Cachoeira. Essa maravilha, infeliz e incompreensivelmente, encontra-se, ao menos externamente (não encontramos naquele momento o "guardador" do local e, desconhecemos seu interior) encontra-se quase em ruínas.




A Irmandade da Boa Morte composta só por mulheres negras, em Cachoeira:



e a lindíssima e rica Igreja do Monte com seu adorável casario colonial ao redor, também em Cachoeira:



e a surpreendente descoberta do Instituto Roque Araujo, com seu museu de cinema e audiovisual, em Cachoeira:


e a fábrica de charutos artesanais Danemann, verdadeiras obras de arte, localizada em São Félix:


e a Igreja de Santo Amaro da Purificação, o Solar de Dona Canô e as marcas de seus dois filhos ilustres:





e a inesquecível lembrança da imagem noturna de Cachoeira, com a lua ao fundo, vista do corredor do 1º andar da minha Pousada:


e outros e tantos e tão apaixonantes que talvez volte a falar deles por aqui. (dtv)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

São... São... Paulo(s) - cidades dentro da cidade - II

Parte II - a segunda cidade, a da vieille cuisine

Seguindo o roteiro, vamos à busca da "segunda cidade", a da velha e honesta gastronomia paulistana, ou seja, restaurantes sem firulas, sem "música ambiente", sem "música ao vivo", mas com uma cozinha honesta, desgourmetizada, garçons que gostam do que fazem. Locais onde se vai não só para saciar a fome imediata, mas também com o sentido do rito.
Não é muito fácil encontrar essas velhas casas. As poucas que existem, resistem bravamente, graças a clientes fiéis.



Um bacalhau grelhado, acompanhado de brócolis, batatas, cebola, ovo, cozidos no vapor, regado com muito azeite. Itamarati (1949), no Largo de São Francisco, bem em frente à velha Academia de Direito.



Pastas de berinjela e homus, coalhada e pão sírio de entrada. Kafta grelhado com  cuscuz marroquino de prato principal. Almanara (1950) na Rua Basílio da Gama (uma ruazinha quase clandestina, que sai da Pça. da República e acaba em lugar nenhum.)



Um filé no Girondino (2005, mas inspirado no Café do mesmo nome, instalado em 1875 na rua 15 de Novembro e que existiu até os anos 20). Rua Boa Vista, esquina com Largo de São Bento. Lamentavelmente, ao menos para mim, não vale mais a pena. Virou "modinha" e a boa cozinha desapareceu. Os preços altos a substituíram. Vale o ambiente, a vista para o Mosteiro e o (ainda) muito bom café.


Um café no Café Floresta (1977), no edifício Copan (Niemeyer). O café é excelente (esta é uma loja do produtor) e o "clima" dos velhos Cafés é convidativo. Apesar de não gostar de tomar um café em pé, este é um dos poucos locais que topo fazer isso, pelos motivos expostos.

Nesta cidade múltipla, há cardápios para todos os gostos, preços para todos os bolsos, ambientes para todos as exigências.

Anotações do diário de bordo:

em silêncio
auscultar as narrativas que a cidade oferece
(o imaginário coletivo e seus sentidos)



a memória pessoal
(autobiografia)
em construção
permanente

saguão Biblioteca Mário de Andrade - sem identificação de autoria


O que a cidade "escreveu" e esqueceu
é também a minha escrita
minha singularidade
na multiplicidade
(intercambiáveis)