domingo, 18 de janeiro de 2026
UM DIA COM AGNÈS VARDA
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Morre-me um amigo, Pensador da Ética e da Poética na Política
Morreu-me um amigo. Morreu-me um amigo grande no maior sentido da grandiosidade. Morreu-me um Mestre com quem muito aprendi e muitos outros aprenderam. Morreu-me um companheiro de lutas nos áridos e, muitas vezes tortuosos, caminhos da cultura.
Morreu
hoje, 17.12.25 o Professor Luiz Roberto Alves.
Desde que recebi a notícia, passeiam meus olhos sobre a obra que escreveu, sendo que coube-me a honra de editar alguns desses títulos, pela Alpharrabio Edições, outros, ainda, de prefaciar.
Confesso
não ter imaginado que, no momento como este, o fosso do vazio seria tão grande!
Mas foi/é. Triste de não ter jeito.
A
notícia chegou-me logo após ao acordar e atravessou todo este dia nublado, como
são os dias de partida para o desconhecido.
Comuniquei
a notícia triste em minhas redes sociais e a interação foi surpreendente.
Muitos ex-alunos, colegas e amigos. Depois o horário em que o corpo será
velado, amanhã das 9,30 às 15,00h na Câmara Municipal de Santo André. Um
velório público para quem se dedicou à vida pública e ao pensar de políticas
públicas durante décadas.
Prof. Luiz Roberto Alves, intelectual que durante décadas, além de atuar como professor/pesquisadora na ECA/USP (Livre-docente) e professor titular na UMESP, dedicou-se a pensar a cultura em todas as suas dimensões, transformando seu pensar em ações e intervenções efetivas nas políticas públicas da região do ABC e do Brasil. Ocupou postos de relevância nas administrações públicas locais, como Secretário da Educação e Cultura de São Bernardo do Campo e de Mauá, sempre em administrações públicas de caráter progressista. Também ocupou importantes cargos de abrangência nacional, como membro do Conselho de Educação Federal. Foi um de nossos maiores e melhores mentores, presente em todos os momentos cruciais da vida regional. Foi, sobretudo, um humanista!
| Prof. Luiz Roberto Alves, em sessão de autógrafos de seu livro "Administrar via Cultura" na Alpharrabio, agosto/2022 |
Como desajeitada e singela homenagem, reproduzo abaixo dois textos meus que integram dois de seus livros, a plaquete Grande ABC: culturas que excedem o lugar culturalizado, Alpharrabio Edições, Santo André, 2009; e “Políticas de Governança”, ABCDMaior, SBC, 2011
Grande ABC: culturas que excedem o lugar culturalizado
Conferência
proferida pelo Prof. Luiz Roberto Alves durante o 10º Congresso de História do
Grande ABC, Memória e Esquecimento, realizado na cidade de São Caetano do sul,
SP, de 3 a 6 de novembro de 2009.
A
Alpharrabio Edições, que há 18 anos vem registrando a criação literária e o
pensar regional, acrescenta mais este texto ao seu catálogo de quase uma
centena de títulos, acreditando ser sua leitura indispensável a todos aqueles
que pensam, promovem e fruem a cultura na região do Grande ABC.
A
relevância das ideias aqui apresentadas, fruto de profunda reflexão e vivências
do autor, somam-se, iluminam e muito podem contribuir com as discussões e
demandas em torno de políticas públicas e ações integradas da cultura na
região, que nos últimos anos vêm sendo levadas a cabo, em especial, no âmbito
do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC e do Núcleo Estratégico
Cultura no Consórcio do Grande ABC. DTV - Posfácio da plaquete Grande ABC: culturas
que excedem o lugar culturalizado, de Luiz Roberto Alves, Alpharrabio
Edições, 2009
Um pensador da Ética e da Poética na Política Em boa hora o ABCDMaior reúne num só volume os textos do professor Luiz Roberto Alves publicados em suas páginas, ao longo dos cinco anos de existência do jornal. Ao que parecia fragmentado, a leitura do conjunto dá unidade, ou seja, a essência do pensamento de uma das nossas mais brilhantes inteligências, verdadeiro intérprete dos sentidos de nossa história cultural.
Ao longo das quatro últimas décadas,
aqueles que se interessam pelas questões mais pulsantes, urgentes e cruciais do
pensar a região do ABC, muito em especial no campo educativo-cultural,
acostumaram-se a ouvir e buscar nas reflexões do prof. Alves, quer seja através
de artigos e crônicas publicadas na imprensa, quer seja pelos estudos e
resultados de suas pesquisas publicados em livros, elementos para balizar e
construir seu próprio pensar e agir.
Intelectual
que vai além do pensar, escritor que ultrapassa o escrito, o
professor-pesquisador é presença viva e constante na vida regional, atuando
como assessor de movimentos sociais, comunitários e instituições regionais
metropolitanas para políticas sociais, notadamente de educação, cultura e
comunicação social. Tem participado de encontros de Mercocidades, Fórum Mundial
de Cidades e Megacities e ali apresentado trabalhos inéditos sobre políticas
sociais na área metropolitana de São Paulo, especialmente no Grande ABC
paulista.
Enquanto
Secretário de Educação, Cultura e Esportes de São Bernardo do Campo (1989-1992)
e Secretário de Educação e Cultura de Mauá (2001-2003), o Prof. Alves enfrentou
o desafio de exercitar na práxis algumas de suas convicções de "políticas
de governança", implementando no cotidiano da administração pública
"atitudes novas quanto à valorização dos recursos humanos, entendidos
muito além da gestão burocrática, isto é, como um novo processo de educação
para a gestão tripartite (povo, governo, instituições), capaz de garantir a
cidade em construção".
Em Cultura
do Trabalho - comunicação para a cidadania (Alpharrabio Edições, 1999),
reflete sobre os significados da educação, da cultura e do lazer na história
recente do Grande ABC, cujo foco aponta para a cidade de São Bernardo que, no
final dos anos 70, era chamada de "capital social do Brasil", mas
também de "república sindicalista".
A análise dos sentidos dos discursos
históricos seria uma das linhas de trabalho que viria a perseguir a partir daí
e que tem seu ponto alto no livro "Trabalho, Cultura e bem-comum (leitura
crítica internacional), Annablume 2008), resultado de um trabalho de
pesquisa desenvolvido na
Universidade de Florença, na Itália, no qual trabalhou a análise de
discurso (sócio semiótico), ou seja, "um trabalho do pensar um mundo de
sinais que penetram no mundo do trabalho" e sua atual precarização, que
"mexeu profundamente com os valores e o sistema simbólico".
Grande
ABC: culturas que excedem o lugar culturalizado, (plaquete, Alpharrabio
Edições, 2009) é um texto que, pela relevância das idéias, reflexões e
vivências do autor, é também leitura indispensável para a compreensão da
complexidade do universo cultural na região do Grande ABC.
Agora, esta valiosa reunião de
textos, originalmente escritos para o jornal, o que significa dizer que o autor
se valeu de uma linguagem mais acessível a uma parcela menos familiarizada com
o jargão acadêmico, vem contribuir decisivamente para uma ampla compreensão do
significado do discurso do pensador humanista Luiz Roberto Alves e, mais do que
isso, de sua ação, como intelectual comprometido com a ética e a poética na
política. dtv
Prefácio
do livro Políticas de Governança, Luiz Roberto Alves, ABCDMaior
Editora, 2011
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
FLIP e a ação libertadora de apenas flanar entre vagas humanas e silêncios
Quando, entusiasmada, participei como ouvinte, em 2017, da 15ª edição da FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty, exaltei, em artigo publicado na imprensa e no meu blog, vários pontos positivos e inovadores da curadoria de Josélia Aguiar, tais como diversidade e paridade de gênero contempladas nas mesas oficiais.
Naquela ocasião, regressei com a quase certeza de que não mais voltaria a Paraty para edição futura. Várias razões me levaram a esse não desejo, sendo que a principal delas, as dificuldades naturais de minha idade (o calçamento escorregadio das ruas e o medo de quedas) mas também pela falta de paciência de enfrentar filas para tudo, inclusive, para comer.
Durante estes últimos 8 anos, acompanhei algumas notícias sobre as edições da FLIP e estava convencida de que esse destino não mais me interessava, apesar de persistir meu interesse por livros, autores e literatura. Até que recebi o convite do editor Eduardo Lacerda (Editora Patuá pela qual publiquei meu mais recente livro de poemas, “opções para morrer no espaço”) para comparecer à Casa Gueto na qual receberia uma homenagem durante a 23ª edição da FLIP, decorrida de 30 de julho a 03 de agosto último.
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Relutei, mas a família me incentivou a aceitar o convite. Fui, com a minha “cuidadora” Isabela Teles Veras ao volante. E eis que um fato novo me aconteceu. Pela primeira vez, permaneci os 5 dias da FLIP sem nenhuma angústia por não ter visto esta ou aquela mesa, esta ou aquela pessoa. Esqueci da minha bulimia por informação e por livros, distúrbio do qual fui vítima por muitos e muitos anos.
Deixar-me ficar, ora num Café, ora num banco qualquer, a olhar o movimento da multidão a mover-se feito ondas nas ruas de pedras lisas e casas de portas coloridas, foi libertador. Aqui e ali, um conhecido e um abraço, alhures muitos conhecidos e mais abraços.
Percebi que, afinal, toda a cidade era literatura. As próprias pedras, estavam impregnadas de todas as histórias, de todos os poemas, de toda a literatura que por ali passou e passava neste. Comecei a ver letras, palavras, poemas, feito uma alucinação boa, em todos os recantos daquela encantadora cidade e a preocupação em ver/ouvir já não era prioridade, prioridade era deixar-se embalar pelo clima quase onírico daquela luz amarelada no interior das casas, bares, restaurantes, casas parceiras.
Da minha mansarda na margem esquerda do Perequê-Açu, três
pequenas janelas sobre o telhado da Pousada e vista para o rio. Ali, a pouca
distância do centro gravitacional do planeta das letras, fazia minha primeira
refeição do dia e tomava chá com bolo às 17h, pausa para anotar impressos e
vivências, ler o que veio comigo no dia anterior.
Tudo girava em torno da Igreja matriz que, desta vez, exerceu
o papel para o qual foi erguida, celebrando missas, portas abertas para o
mundanismo que enchia as ruas como as vagas da maré alta. O sagrado e o profano
irmanados, agora em paz (sim, em 2017 a igreja fez lugar de palco para as mesas
de debate e conferências)
Os números da festa da literatura deste ano são
estratosféricos. Aqui, alguns deles:
Custo total: R$ 11,8 milhões
34 mil visitantes, com uma taxa de ocupação de 98% das
pousadas e hotéis, sendo que o público do programa educativo foi de 8.728
pessoas
Dentro da FLIP as outras FLIPS: Flipinha, Flipzona,
FlipEduca e Flip+
600 mesas de palestras e debates, sendo 20 mesas oficiais e
uma extra com Valter Hugo Mãe (muitas giraram em torno do autor homenageado)
num total de 36 autores e as restantes distribuídas em Casas parceiras,
igualmente lotadas o tempo todo.
Na margem esquerda, um enorme e novo espaço reuniu mais de
140 autores, editoras independentes e coletivos editoriais.
Auditório para 471 pessoas (ingressos pagos)
Telão com 500 cadeiras, ingressos livres
35 casas parceiras
20.000 livros vendidos (infelizmente a venda ficou, como
sempre, concentrada em uma única mega livraria, nada de livrarias locais).
A despeito desses números, das enormes filas para todas as
palestras e debates, os abraços calaram mais do que as palestras e as mãos
trouxeram muitos livros, levaram outros, na costumeira troca entre autores.
Olhava para aquelas pessoas que por mim passavam e me sentia irmanada na
sincronicidade das escolhas, pois não acredito que alguém vá àquela cidade em
época de Festa da Literatura, sem gostar de livros nem de festas. As afinidades
eletivas é que nos juntavam, nos embalavam ao som das marés que, por vezes, também
invadiam as ruas a lembrar que o mar a receber o rio ali estavam, eternos.
Parêntesis para registrar um momento de reconhecimento e muito afeto. A mesa “um corpo que resiste e é” (o título é um verso de poema meu), em minha homenagem, na Casa Gueto, no segundo dia da FLIP, quinta-feira. Nela, os queridos Eduardo Lacerda, Isabela A. Teles Veras e Tarso de Melo discorreram sobre meu trabalho de escritora e ativista cultural.
Além das palavras carregadas de significados dos componentes da mesa, que muito me emocionaram, vi meus versos impressos em banners espalhados pela casa, em canecas para a cerveja, em um boné especial, exemplar único, e o maravilhoso volume da antologia “Casa Gueto – O dia segue não sendo mas há um corpo que resiste e é” – Dalila Teles Veras, Editora Patuá, 2025, com textos dos componentes da mesa nas 36 páginas iniciais, tipologia em branco sobre fundo preto, mais orelhas de Rosana Chrispim e Ricardo Escudeiro. Na epígrafe, “dedicamos este livro e nossa Casa Gueto 2025 à poeta Dalila Teles Veras”. Consegui não chorar, mas, como dizia Dilma Rousseff, há outras maneiras de chorar. Chorei por dentro, choro de alegria, muita alegria e agradecimento! Fecha parêntesis.
E foi tão bom abraçar meus pares pelos caminhos e cantos de
Paraty, gente que acredita no poder da palavra, no conhecimento e na humanidade.
Eis algumas das pessoas amigas que abracei, confraternizei,
joguei conversa fora, vindas de todos os quadrantes do país. Com algumas delas tomei
o tal drink Jorge Amado, sucesso absoluto da festa, preparado com a cachaça local
“Gabriela”. Na verdade, uma “caipirinha” que, além do limão tradicional, leva o
acréscimo de maracujá e canela. O drink colorido e lindo desce docinho e
agradável, mas volta furioso e desagradável, ao menos para mim, que estava de
estômago vazio e pouca resistência ao álcool. Mas isso não chegou sequer a
empanar o brilho dos afetos dos que por mim passaram.
Maria Valéria Rezende e Marineuma Oliveira, João Pessoa, PB
Jeanne Araujo, Carla Alves, Bia Chrispim, Juscely Confessor
(Natal, RN)
Giovana Damaceno, Lincoln Botelho da Cunha, Volta Redonda, RJ
Claudia Roquette-Pinto, Rio de Janeiro, RJ
Mariam Pessah, Porto Alegre, RS
Tarso de Melo, Vanessa Molnar, Santo André, SP
Eduardo Lacerda, Priscila Gunutzmann, Germana Zanettini,
Beth Brait Alvim, Ayelén Medail, Diogo Cardoso e Simone Paulino, São Paulo,
Capital
Moreira de Acopiara, Diadema, SP
Susana Ventura, Santos, SP
Pedro Gontijo, Belo Horizonte, MG
Dalinha Catunda, Fortaleza, CE
Renato Freitas, deputado estadual – Curitiba, PR
Esqueci alguns. Claro que sim, mas eles/elas saberão compreender e perdoar. Retornar à FLIP em futuras edições? Acho que não, mas, para
além das emoções vivenciadas, ficará a lembrança que marca a descoberta de uma
determinada maneira de “entrar no clima” sem angústia, tal qual uma flâneuse
pós-tudo.
As fotos, na sua maioria clicadas por Isabela, bem ilustram estas desajeitadas palavras. dtv
sábado, 24 de maio de 2025
Mulheres escritoras brasileiras – homenagem (de março, abril, do ano inteiro) 20 – Lindevania Martins e Flavia Quintanilha
Mulheres escritoras brasileiras – homenagem (de março, abril, do ano inteiro)
domingo, 27 de abril de 2025
Mulheres escritoras brasileiras – homenagem (de março, abril, do ano inteiro) 19 – Rozzi Brasil e Lilia Guerra – O eixo Rio-São Paulo ligado pela periferia e sua potente literatura
Mulheres
escritoras brasileiras – homenagem (de março, abril, do ano inteiro)
Rozzi Brasil
Conheci
Rozzi em outubro de 2023, durante o Encontro Nacional do Mulherio das Letras,
realizado no Rio de Janeiro. Já a conhecia das redes sociais, mas foi nas rodas
de conversa e nos debates que sua voz me chamou atenção, pela forma clara e
segura com se expressava ao expor seus posicionamentos e ideias. Compareci à
sessão de autógrafos do seu livro de estreia, “Histórias da Cabrochinha”
(Editora Voz de Mulher, 2022) e naquela mesma noite li alguns dos contos.
Seriam mesmo contos? Li-os com a sensação de estar diante de uma espécie de
escrita de si, fluxo da consciência, diário com uma pegada muito forte sobre
questões sociológicas, vivências narradas por um outsider, alguém que está
dentro de um corpo, mas o enxerga de fora e, estando dentro, enxerga e amplia o
seu entorno. Transfigurados pela literatura, essas curtas e ágeis prosas, por
vezes (muitas vezes) cruéis, algumas são recebidas pelo leitor como um soco
cruzado na beira do estômago.
Extraio
um parágrafo do comentário de Heloísa Buarque de Hollanda, a Helô Teixeira, na
quarta capa do livro: “Infelizmente, esta História da Cabrochinha, tal como
escrita, com talento, por Rozzi Brasil, é o retrato fiel de uma infinidade de
mulheres que sobrevivem nesta primeira metade do século XXI, Brasil.”
O
livro também traz um prefácio de Lilia Guerra que aponta que “despida de moldes
convencionais, vestindo sempre um estilo solto, confortável, a autora transmite
ao exto essa liberdade sem rótulos”.
O
fato é que passei a prestar mais atenção nessa escritora e suas questões de
cunho literário, de gênero e socioculturais, mas não só.
No
ano seguinte, 2024, em Belém, PA, onde o Encontro do Mulherio foi realizado,
voltei a encontrar a Rozzi e me foi possível estreitar um pouco mais os laços
literários, camaradas e de afeto. Naquela ocasião, mais um livro de sua autoria
foi apresentado, desta feita, de poemas. “Carne Viva”, inserido na Coleção V do
Mulherio das Letras (Venas Abiertas, Editora Popular, sob a batuta corajosa de
Karine Bassi.
Outra
surpresa, alguém que diz no poema “eu não tenho amigos, só tenho as letras”
(será, não foi isso que percebi no seu jeito de olhar e de dizer) e continua o
poema “Conheço, no Rio de Janeiro, / alguns lugares chamados / “Faixa de Gaza”,
lá se morre, se escola, / onde almas viram pedras / corpos, espantalhos /
corvos a vender / ninguém pra socorrer / De um lado e de outro, Há humanidade
explodida / Dignidade vencida. // Por mim nunca mais saía de casa, / nunca mais
abria a porta, / nunca mais descerrava os olhos. / Mas tem a civilidade / desse
mundo pré-histórico / Se não saio, não como. / Se fico, não vivo.
As
informações (minibio) sobre Rozzi tiradas dos seus livros são estas: “Pessoa
preta do Axé e LGBT. Cria de Zona Oeste do Rio de Janeiro. Escritora, sambista
e pesquisadora do samba carioca, professora ativista antirracista, realizadora
audiovisual, fotógrafa, designer, compositora da Portela, podcaster e
apresentadora. Mestre Quebradeira da Universidade das Quebradas, UFRJ.
Cofundadora do MUQ-Movimento Mulheres nas Quebradas do PACC/UFRJ, grupo
feminista voltado para produção literária de mulheres da periferia através do
projeto #LivresLivros do qual é idealizadora. Autora do livro Histórias da
Cabrochinha (Voz de Mulher, 2023) sobre vivências e violências de uma mulher
negra periférica no Rio de Janeiro; Por Dias Melhores (ebook). Integrante de 6
antologias entre 2020 e 2022. Idealizadora e correalizadora do movimento Vem
pra Cá! Sarau, que tem foco no protagonismo literário das mulheres
periféricas”. Trabalhos de Rozzi podem ser encontrados nas redes sociais e
blogs
Lilia
Guerra, nascida em São Paulo, autora de contos e romances que já circulam entre
um público mais alargado através da publicação de uma grande editora, como é o
caso da Todavia, que publicou o romance “O céu para os bastardos”, como também o
livro de contos “Perifobia”, neologismo criado pela autora referindo-se ao fato
de que a periferia pode causar (ou causa) repulsa.
Assim
como Rozzi, Lilian passa para seus livros a realidade que tão bem conhece, a do
mundo das “quebradas” paulistanas, o mundo em que ela e sua família viveram e o
faz com delicadeza espantosa e inteligente bom humor.
“Amor
Avenida”, seu primeiro livro, foi publicado em 2014 de forma independente e com
pequena tiragem. Em 2022, após a autora realizar rigorosa revisão e
“enxugamento”, o livro é reeditado pela Editora Patuá, com recursos do PROAC.
Em
2023, na livraria e Espaço Cultural Alpharrabio, em Santo André, tive
oportunidade de ver e ouvir Lilian a falar de seus livros, em especial daquele
que ali era apresentado e autografado, “O céu para os bastardos”. Dona de uma
simpatia elegante, sublinhou que trabalha como auxiliar de enfermagem na
Capital paulista. Isso causou-me uma certa inquietação, ou seja, como é que
alguém que exerce com tanto afinco e destreza o ofício da escrita não pode
tê-la como ofício principal? É jovem e certamente ainda colherá os frutos desse
ofício que, hoje, ainda não lhe dá o sustento material.
Quando
a conheci, pensei logo na Rozzi e nas pontes que se erguem através de sua
literatura e das vozes que lhes dizem “Escrevam isso. É importante”. E elas escrevem, registram, do seu lugar de
mulheres, tudo aquilo que foi negado a muitas mulheres ao longo do tempo. Dizem
e fazem disso literatura justamente pela forma como o dizem.
Leiam
Rozzi Brasil, leiam Lilian Guerra, leiam a literatura feitas por mulheres que
destravaram completamente os aros que as mantinham na penumbra em condições de
afazia. Agora contam e contam bem, literatura que deveria ser leitura
obrigatória na reeducação de machistas renitentes.
dtv
quinta-feira, 24 de abril de 2025
Da Poesia e das Mulheres de Abril
Ano passado, fui convidada por Violante Saramago Matos, organizadora do livro 50 anos 50 vozes 50 mulheres a colaborar com esse magnífico projeto literário que então celebrava os 50 anos da Chamada Revolução dos Cravos em Portugal, minha terra natal.
Nos 51 anos da linda Revolução, deixo aqui o meu testemunho de como vivi esse momento, mesmo à distância.
Da Poesia e das Mulheres de Abril
Os cravos de Abril, com seu belo
simbolismo, cravaram em mim a certeza da necessidade de manter a utopia e a
liberdade. Tinha então vinte e oito anos e, sobre minha mesa de trabalho,
lia-se, num pequeno cartaz: “seja realista, exija o impossível”, frase grafitada
nos muros da Sorbonne em 1968, durante as ocupações estudantis.
Antes, bem antes de 68 e 74, a
dura lição na quebra do meu analfabetismo político, veio em 1964, num outro
abril ao avesso, quando, por um Golpe, era instaurada a brutal Ditadura Militar
no Brasil que duraria 21 anos.
Em 1974, vivíamos no Brasil o
auge da popularidade do regime totalitário, aplaudida pelos “inocentes
úteis” que acreditavam no enfático discurso do desenvolvimentismo e de um
suposto “milagre econômico”.
Entretanto, no lado consciente,
grassava o medo e as incertezas dos que sabiam e sentiam no próprio corpo o
valor a ser pago pelas próprias utopias. Essas poderosas garras peçonhentas,
entre outras trágicas medidas, suprimiram toda e qualquer liberdade de
expressão.
Assim, jornais sob censura, o 25
de Abril chegou por aqui de forma quase clandestina, em pedaços e aos
solavancos. Não interessava ao regime militar e suas diretrizes de guerra suja,
silenciosa e assassina, divulgar a conquista portuguesa na derrubada do
igualmente autoritarismo fascista.
Já graduada na matéria
através da própria vivência, aprofundei meu aprendizado político com os relatos
de amigos mais bem in(formados), bem como nos livros proibidos à época. Daí
minha curiosidade e interesse crescente sobre a situação em Portugal, país de
minha naturalidade, então renascido.
Aflita pela falta de notícias, lá
fui eu atravessar o Atlântico, ao lado de Valdecirio, meu mestre em política,
com quem havia casado em 1972.
Em 1º de julho de 1974 desembarcávamos
em Lisboa. Íamos, eu e ele, conferir e, se possível, partilhar da euforia
vigente naquele novo Portugal que, decorridos dois meses, ainda festejava a
Revolução.
Aqui e ali, símbolos de Abril, a lembrar:
um soldado no aeroporto com um cravo vermelho em sua arma,
tal qual no famoso pôster com a foto
de um menino de cabelos anelados a colocar um cravo no fuzil do soldado,
adquirido dias depois na Baixa Pombalina;
já no táxi, “Grândola, Vila Morena" a servir de trilha
sonora, o motorista: - “Depois de 50 anos, desatamos a língua, ninguém mais nos
proíbe nada. Somos livres!”. No dia de retorno ao Brasil, esse mesmo taxista
nos levaria a sua casa (para não esperarmos tanto tempo no aeroporto,
justificava ele) a comer tremoços e figos, com vinho da propriedade de sua
família do Norte.
Lembro-me de ter rascunhado um poema, meio desengonçado
pela emoção, que evocava Camões e terminava dizendo algo assim:
“apenas o sangue
a rugir
rubro lembrete
mais do que nunca
hoje é dia
de sentir-se
português”.
Faltou-me a total vivência dos acontecimentos. Ficou-me a convicção do
caminho da luta e manutenção da utopia pela vida afora.
Aprendi sobre o 25 de Abril após o 25 de abril e ainda aprendo. Lendo
aqui, escutando ali.
Todavia, sempre me perguntava sobre qual teria sido o papel das mulheres
naquele processo. A única figura feminina destacada pelas eventuais matérias na
imprensa (ao menos nas que chegaram ao meu conhecimento) era a de Celeste
Martins Caeiro que, por um bom tempo, era apontada como “a mulher que ofertou
cravos aos soldados”, criadora involuntária (?) do famoso símbolo, mas sequer
possuía nome. A multidão que se formara nas ruas de Lisboa, seguiu-lhe o gesto.
A multiplicação instantânea do acontecimento, em tempos virtuais, seria chamado
de “viralização”.
Na poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, destacada escritora,
conhecida também como figura política com participação ativa no processo de
redemocratização, foi talvez a voz daquele instante revolucionário, a voz
poderosa da palavra de uma mulher. São dela os quatro versos famosos e
definitivos sobre (“25 DE ABRIL / Esta é a madrugada que eu esperava / O dia
inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres
habitamos a substância do tempo”. Outros tantos e belos poemas sobre o assunto,
escritos em 1974 e 1975, foram reunidos em seu livro O Nome das Coisas,
1977, mas por aqui chegado muito depois. Eram tempos separados pelo grande mar
que ela tanto cantou.
Maria Teresa Horta que, dois anos antes, havia sido processada e
condenada pelo conteúdo de seu livro Minha Senhora de Mim, foi outra grande voz que seguiu publicando e, através da militância feminista
permanente, muito provocou com suas ardentes palavras. Além do seu explícito As
Mulheres de abril, publicado em 1976, recentemente surpreendeu seus
leitores nas redes sociais. Ao lembrar a data da Revolução dos Cravos, divulgou
um poema inédito datado de 27 de abril de 1974 (“25 DE ABRIL / Dantes / era um
silêncio imenso / de grito amordaçado / Hoje / há uma festa à nossa beira /
fazendo a liberdade /florescer em cravo // Mudando o sonho / em vida / e canto
alado”.
Mesmo com algumas conquistas, as
mulheres seguiram invisibilizadas, lá, aqui e em todo lado, até mesmo aquelas
que ao lado dos capitães caminhavam, como nos revela a escritora e cineasta Ana
Sofia Fonseca, em seu livro “Capitãs de Abril”, publicado em 2014, 40 anos
depois. Nessa obra, a escritora dá voz às mulheres e sua respectiva visão
revolucionária. Sim, as mulheres estavam lá e foram elas que, posteriormente, muito
contaram, como o fez Ana Sofia. Ainda que lentamente, os véus da invisibilidade
feminina vão sendo retirados.
Encerro meu depoimento, voltando
àquela Lisboa de 1974. Para nós, que nos preparávamos para retornar à
desesperançada realidade brasileira, que ainda duraria mais uma década,
compartilhar daquela alegria esperançada representou um momento único e
inesquecível.
Dalila
Teles Veras
segunda-feira, 14 de abril de 2025
Mulheres escritoras brasileiras – homenagem (de março, abril, do ano inteiro) 18 – Nic Cardeal e Henriette Effenberger
Mulheres
escritoras brasileiras – homenagem (de março, abril, do ano inteiro)
18
– Nic Cardeal e Henriette Effenberger
Estive
a pensar nas mulheres que o Movimento Feminista Mulherio da Letras me
apresentou, durante os oito anos de sua existência.
Nesta
série que inaugurei no início de março, foram homenageadas algumas escritoras
ligadas a esse Movimento ainda que, algumas delas, já as tenha conhecido (e
lido) bem antes, como é o caso da Maria Valéria Rezende e Rosângela Vieira
Rocha. Giovana Damaceno, tema de um dos últimos posts, foi um presente que
recebi do Mulherio, do qual é atuante membro, desde seu início, assim como
outras que ainda ocuparão este espaço.
Isto
posto, dou início à segunda parte da série, um capítulo para comentar, mesmo
que na forma breve, a obra dessas escritoras atuantes no coletivo Movimento
Mulherio das Letras e que, sem ele, muito provavelmente, não as teria conhecido
e nem à sua literatura. O Brasil é um mundo e para conhecer um mundo e as 7,6
mil mulheres que aderiram ao Mulherio, através da página do Facebook, seria
preciso uma nova vida.
Assim
como procedi até o momento, só falarei de obras lidas por mim e que habitam as
estantes da minha bibliocasa.
Nesta
18ª postagem, destaco duas escritoras que chegaram até mim, através do Mulherio
das Letras, Nic Cardeal e Henriette Effenberger. Além das qualidades literárias
de seus livros, ambas possuem espírito agregador e solidário com seus pares,
características que deveriam nortear, acredito eu, todas as integrantes do
Mulherio e fora dele.
NIC
CARDEAL
Eunice
Maria Cardeal ou Nic Cardeal que é como que assina seus livros, nasceu em Santa
Catarina e atualmente vive em Curitiba. Publicou, o livro “sede de céu”, de
poemas, 2019, “Costurando ventanias – uns contos e outras crônicas”, 2021,
ambos pela Editora Penalux, SP. Sua obra, entretanto, está espalhada em algumas
dezenas de antologias e coletâneas, revistas e blogs, como a revista
eletrônicas SerMulherArte onde publica resenhas e entrevistas de/com mulheres
de todo o Brasil e, eventualmente, do exterior.
Lírica
incurável e inventora de sedutoras metáforas, Nic emprega tamanha suavidade a
tudo que escreve que, leitora, fico a imaginar que só pode escrever assim, quem
leva a vida ou encara a vida da mesma maneira. Não, a poeta não se limita a
falar apenas de “levezas”, não é dessa matéria que é construída sua obra (quer
na poesia ou na prosa, que, diga-se, é poesia também), é do seu caráter humano
ou daquilo que deveria ser composto esse caráter humano. O mérito de sua poesia
é também da forma como diz, não apenas do que diz.
Seus
poemas são longos, na sua grande maioria, o que não lhes tira o mérito.
Entretanto, deixo aqui uma amostragem dos poemas curtos, que muito me agradam e
que é onde, no meu modo de ver, a poeta revela um extraordinário poder de
concisão, dizendo muito com o pouco dizer.
O
grito
Tenho
silêncios
incrustados
na garganta:
eu
grito
por
escrito.
Saudade
A
presença dorme na distância.
E
sonha.
Silêncios
Sou
emudecida
no
gesto equilibrista
quase
malabarista
de
palavras nunca ditas.
HENRIETTE
EFFENBERGER
Nasceu
e reside em Bragança Paulista, SP. É romancista, contista, memorialista, poeta
e escreve também literatura para a infância, tendo publicado livros em todos
esses gêneros, desde 2002.
Na
minha estante de literatura brasileira feita por mulheres, constam os livros de
Henriette: Linhas Tortas, 2008 (contos premiados em concursos literários), com
apresentação de Inácio de Loyola Brandão); Fissuras, contos, 2018, Editora
Penalux, SP, com prefácio de Rosângela Vieira Rocha (escritora já homenageada
nesta série) e Quase Nada de Azul sobre os Olhos, romance Telecazu Edições,
2021.
Dona
de uma prosa fluente, narradora habilidosa e íntima conhecedora da língua,
Henriette conduz o leitor sempre à surpresa final de seus contos, verdadeiras
joias do gênero.
Tenho
por hábito, sublinhar e escrever à margem do que li, algumas impressões. Vejo
que em Fissuras, há alguns comentários, como no conto “Arre, Capeta”, escrevi a
lápis a observação: “muito bom!”, assim como em “Redenção” outro conto que
classifiquei de “bom!”, em “Horas cinzentas” grifei a frase “A velhice, aos
poucos, vai incorporando a morte. Amarela os papéis, mais do que a nicotina
mancha os dentes e os dedos nodosos (...)”. Na margem, escrevi, também muito de
leve e a lápis, “maravilhoso!”. No conto “Navegar é preciso”, anotei ao final:
“um poema!”. Reli-o agora, em voz alta, e confirmo a primeira impressão: um
poema!
Leiam
Nic Cardeal, leiam Henriette Effenberger, leiam as escritoras brasileiras
vivas, divulguem e orgulhem-se delas, bem como do fato de vivermos num mesmo
tempo, sermos contemporâneas umas das outras, cúmplices na palavra.
dtv






































