Março - Mulheres escritoras brasileiras – homenagem
17 – Maria do Carmo Ferreira – Carminha
Eram anos da despedida do Século XX, comunicação virtual ainda precária (a dos emails era novidade), não me lembro como nem exatamente a data de seu início, comecei a receber deliciosas mensagens de alguém que assinava simplesmente “carminha” (assim, com letra minúscula) que, mais velha do que eu e para meu espanto, lidava muito bem com o então ainda acanhado meio virtual, em especial, com imagens.
Foram inúmeros emails de Santo André para Niterói e de Niterói para Santo André, sempre lidos, de minha parte, com muito gosto, pela presença de espírito, bom-humor e referencial literário e cultural invejáveis da minha missivista virtual de quem não ouvira falar até então. Abastecida com alguns poemas meus, ela os transformava quase sempre em um poema visual, em montagem bela e criativa.
Passou-se um bom tempo, até que, já no comecinho deste nosso Século, março de 2000, para ser mais exata, o SLMG – Suplemento Literário de Minas Gerais nº 57, dedica a Maria do Carmo Ferreira, Carminha, um enorme dossiê, com uma bela e expressiva foto da autora. Para mim, ali se “materializava” a poeta, mas aí já era tarde, Carminha, a tão estimada interlocutora virtual, havia desaparecido do meu campo de visão já há algum tempo. Cessaram os emails e, por mais que me esforçasse, não mais a localizei. Guardei o Suplemento com o belo dossiê, única prova palpável, material, de que aquela mulher existia, tinha nome, sobrenome e fazia poemas de altíssima voltagem!
Com as mudanças sucessivas de computador e provedores, não fiquei com nenhum arquivo dessas missivas virtuais. Reavivada a memória, gastei largas horas vasculhando meus arquivos físicos a ver se tirei “print” de alguma desses emails valiosas que eram e... Nada, nadinha!
Eis que recebo a notícia, pela querida Silvana Guimarães, de que a reunião de toda a obra de Carminha, completamente inédita em livro, estava sendo organizada por ela e por Fabrício Marques, sim, aquele jovem que a entrevistara para o dossiê do SLMG. A comunicação vinha com uma nota alvissareira: “há um poema dedicado a você, Dalila!”. Foi grande a felicidade, muito grande, especialmente por saber que a poeta encontra-se vivíssima e acompanhou todo o processo da publicação da sua obra.
Dias destes, chega-me aqui, essa obra monumental, “Maria do Carmo Ferreira – Poesia reunida -1966-2003”, lindamente editada pelo competente Miguel Jubé, o fazedor de preciosidades gráficas pela Editora Martelo, Goiânia, GO. Essa joia preciosa vem numa caixa com três volumes, intitulados, “Cave Carmen” (1); “Coram populo” (2) e “Quantum satis” (3). Não fosse a surpresa já grande, ainda veio acompanhada de uma dedicatória assinada pela autora e pelos organizadores. Desde então, não mais a larguei.
Nada mais justo do que incluir a imensa Maria do Carmo nesta série de homenagens a escritoras brasileiras, vivas, como a 17ª homenageada.
Faço público meu melhor agradecimento aos poetas organizadores, Adelaide Do Julinho Silvana Guimarães e Fabrício Marques Marques, bem como ao editor, Miguel Jubé, a quem também parabenizo.
Leiam Maria do Carmo Ferreira, urgentemente! Leiam as mulheres escritoras!
Por fim, se me permitem a autorreferência, transcrevo o poema “Ressurreição da Palavra – para Dalila Teles Veras”, não apenas porque a mim é dedicado, mas porque é belo.
A palavra feito pão.
Não a palavra part/ida
na contraluz do seu não.
Mas a palavra partilha.
Não à part´ilha: a palavra
arquipélago, oásis,
cartilha de mão em mão.
A palavra enquanto quase,
projeto de vir a ser.
Mas sempre com´pro´metida
na uto´pia que re´faz
um Thomas Morus morrer.
Escrever, Santo Agostinho,
(sua!) Cidade de Deus.
A palavra ora-pro-nóbis
que configure uma terra
sem males, sem o ego´cêntrico
da prepotência encerrada
em si, dentro da palavra.
Mas a Palavra de´Vida
que açambarque a humanidade
dos Sete Povos d´antanho
no amanho de tudo e todos.
A palavra inaugural
Como a palavra Batismo
no nosso Jordão de hoje.
Como o Ser´mão da Palavra
Pelas bem-aventuranças.
Seja a Palavra, eficaz
na nossa finita espera,
mas infinita esperança.
A palavra feita sangue.
A palavra feita pão.
A palavra feita paz
na hemo´filia pisada:
quarup... ágape... agora
que tanto fez quanto jaz.