terça-feira, 1 de setembro de 2015

Uma visita ao Recôncavo Baiano e algumas descobertas

Atenção: isto não é um roteiro turístico. É só para reforçar algo que sempre constato em minhas viagens pelo Brasil, mas que muita gente ainda não se deu conta: São Paulo não é o Brasil (apesar do amor que devoto a este estado onde vivo desde os 11 anos) e não é a "força da grana que ergue e destrói coisas belas" que caracteriza este país, mas o seu povo e a incrível diversidade de sua cultura.

Esta não é a primeira vez que visito a Bahia, mas como há sempre o que descobrir nas inúmeras Bahias existentes na Bahia, desta feita, estabeleci meu QG na cidade de Cachoeira (110km de Salvador), no chamado Recôncavo baiano. E se conto é porque sempre volto inconformada por constatar que o Brasil é um país magnífico, vocacionado para o turismo, com atrações históricas, culturais e paisagens deslumbrantes, mas que ainda é subestimado pelos próprios brasileiros e descuidado por quem dele deveria cuidar.

Cachoeira Vista da Casa Ateliê Hansen Bahia, em São Félix, cidades nas
margens opostas do Paraguaçu e ligadas pela Ponte Imperial D. Pedro II

Antiga Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, chamada de a Heróica, título que lhe foi concedido por D. Pedro I, em abril de 1826, como reconhecimento à campanha pela emancipação do país, a cidade Cachoeira foi um importante entreposto comercial. Próspera e rica vila do Recôncavo, considerada a maior cidade baiana depois da capital e um dos mais importantes centros urbanos brasileiros do Século XIX. Sua "descoberta" oficial data do ano de 1526 e era o ponto de acesso ideal para penetração do interior. Ali, na altura da bacia de Iguape ("lagomar") encerra-se a parte navegável do rio.

Um rio que tem marés e ondas - Bacia do São Francisco - Rio Paraguaçu

Tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Nacional (IPHAN), a cidade reúne um impressionante e inestimável conjunto arquitetônico do estilo barroco na Bahia. 

A Identificação foi imediata: vistas a partir do rio Paraguaçu, as cidades de Cachoeira e São Félix (desta falarei depois), ligadas pela "Imperial Ponte D. Pedro II,  (1865) sobre o Rio Paraguaçu, muito se assemelham à geografia de minha cidade natal, Funchal e, muito em especial, quando iluminadas, à noite. Tanto aqui como lá, à margem do rio estas, à margem do oceano aquela, suas imagens são de um verdadeiro presépio.

Dali,  onde nos hospedamos numa pousada instalada num autêntico Convento do Século XVIII, parte do admirável conjunto do Carmo


Pátio Interno da Pousa do Carmo (antigo Convento) visto do primeiro andar (todas as janelas dão para o interior)
 

passamos à "exploração" local. Além da navegação pelo Rio Paraguaçu (que nasce na Chapada Diamantina e deságua em Salvador, após percorrer 600km)

Ponte Imperial D. Pedro II que liga Cachoeira a São Félix, vista do barco


cidades circunvizinhas, como São Félix, Muritiba, Santo Amaro da Purificação, Maragogipe, Iguape.

Um Brasil profundo, negro, mestiço, europeu, africano, sincretismo cultural único, carregado de histórias e com visíveis marcas da História, ainda que, em muitos casos, o descaso crônico com o nosso Patrimônio Histórico seja tão dolorosamente constatado e lamentado. Aqui e ali, mobilizações populares provocam "milagres" e meritórios restauros.

Sem nenhuma intenção de traçarmos aqui nenhum roteiro de viagem, destaco alguns dos inúmeros e surpreendentes monumentos históricos daquela região tão pouco divulgados, mas que merecem e precisam ser melhor conhecidos e fruídos. Além do casario, muitas edificações em excelente estado, outros tantas em completa degradação, topamos, de surpresa em surpresa, com estes:


Igreja de N. Sra. de Belém e o padre voador

Frontispício da Torre da Igreja de Belém, onde se inscreve a data de sua fundação: 1686


- Contando com a luxuosa visita guiada do pároco de Cachoeira, Pe. Helio Vilas Boas, visitamos a Igreja de Nossa Senhora de Belém, edificada em 1686 dentro de uma aldeia indígena (o frontispício atual é do Séc. XIX, e o interior da igreja passa por um grande processo de restauro). Aprendi que essa Igreja fez parte de um antigo Seminário (que já não existe) onde estudaram Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, e o famoso Pe. Bartolomeu Lourenço de Gusmão, conhecido como padre voador, criador da mítica "passarola" e, para quem se lembra, personagem do romance Memorial do Convento, de José Saramago. 




Pois bem, o Pe. Bartolomeu, começou ali sua carreira de inventor, criando uma maquineta que elevava a água de um brejo 100 metros abaixo da edificação que veio facilitar a vida dos que ali viviam. A Igreja de Nossa Senhora de Belém, hoje é um Santuário de Peregrinação. Arrepiante pisar o solo dessas histórias.


Conjunto do Carmo - Igreja N. Sra. do Carmo



O chamado conjunto arquitetônico do Carmo é composto pela Igreja da Ordem Terceira do Carmo,  pelo Convento (hoje transformado em Pousada) e pela Casa de Oração Ordem Terceira do Carmo (transformada em Centro de Convenções). De um valor histórico incalculável, a Construção, de estilos e épocas diversas (1696-1747) é realmente admirável. A Igreja tem seu interior revestido de ouro e maravilhosos painéis de azulejos portugueses. Na Sacristia, um impressionante conjunto de imagens de madeira trazidas de Macau que representam a Paixão de Cristo. As magníficas figuras, em tamanho natural, possuem traços orientais e cabeça raspada (disseram-me que é uma "versão" oriental de que os condenados à morte na cruz, à época de Jesus, tinham suas cabeças raspadas). As imagens são únicas e impressionam de fato, além dos armários onde estão colocadas, com pinturas autênticas nas portas e interiores, também de Macau. Muitos outros tesouros, sabe-se, foram saqueados por quadrilhas que percorrem o Brasil de ponta a ponta com essa finalidade. Sem a mínima segurança, o que restou de toda essa riqueza é "zelado", via de regra, voluntariamente e de forma precária, por cidadãos da comunidade que, organizados em "irmandades",  se revezam e esforçam como podem. Vez ou outra, por pressão desses mesmos abnegados cidadãos, restauros são realizados, mas sempre são insuficientes pelo fato de que a conservação é precária. Uma realidade que nos entristece e que precisa com urgência ser revertida.


Igreja Matriz N. Sra. do Rosário do Porto de Cachoeira





O Oh! de admiração continua ao entrarmos na Igreja Matriz N. Sra. do Rosário, Prédio do Século XVIII, igualmente de riquíssimo interior com a surpresa maior: novo e muito maior conjunto de azulejos portugueses, da época da edificação, muito bem conservados que, dizem, ser o maior conjunto do gênero existente no Brasil e um dos maiores fora de Portugal. Uma Sacristia com um belíssimo teto de pintura "ilusionista" do italiano José Theófilo de Jesus.   


Passeio e encontro com a Regata Aratu-Maragogipe

No passeio pelo Rio Paraguaçu, a surpresa da chegada das embarcações e dos tradicionais saveiros, da 46ª Regata Aratu-Maragojipe. E dá-lhe Samba suor e cerveja, dentro das próprias embarcações que reproduzem cenas de blocos carnavalescos (os participantes de cada uma delas com seus uniformes/abadás)








A Bahia é festa o ano todo. A Regata faz parte das festividades de São Bartolomeu em Maragogipe. E o sincretismo cultural, a mistura do profano e do religioso, mais uma vez,  se faz presente. No dia seguinte à regata, baianas vestidas a caráter saem em cortejo do Terreiro Banda Lecongo até as escadarias da Igreja do Santo Padroeiro (fechada nessa altura) para a tradicional lavagem.



No largo atrás da Igreja, o samba de roda anima a multidão dia e noite afora. A multidão aumenta a cada momento.


Os baianos não andam, dançam, gingam e demonstram uma indiscutível sensualidade. Não falam, cantam. 


Finalmente, no dia 24, dia do Santo, os atos religiosos são celebrados, não sem antes, uma boa salva de fogos.





Como se vê, a Noite de São Bartolomeu nos trópicos nada tem a ver (e ainda bem) com aquela outra no Século XVI, em Paris, que tingiu o Sena de sangue, consequência de disputas de poder e desvario de monarcas e altas patentes. A noite aqui é do povo que celebra sua mestiçagem e fé sincrética.

E há ainda o Museu e a Casa Museu Ateliê de Hansen Bahia

Fundação Hansen Bahia - Galeria (Cachoeira)

Casa Museu Ateliê onde viveu Hansen Bahia (São Félix)

O Museu biográfico Parque Histórico Castro Alves - PHCA, em Cabaceiras, onde nasceu o poeta Castro Alves

Fazenda Cabaceiras


O Convento de Santo Antônio do Paraguaçu, da Ordem religiosa Franciscana, é o primeiro a ser estabelecido no Brasil, impressionante edificação (1658-1686), às margens do Paraguaçu, no povoado de São Francisco do Paraguaçu, pertencente a Cachoeira. Essa maravilha, infeliz e incompreensivelmente, encontra-se, ao menos externamente (não encontramos naquele momento o "guardador" do local e, desconhecemos seu interior) encontra-se quase em ruínas.




A Irmandade da Boa Morte composta só por mulheres negras, em Cachoeira:



e a lindíssima e rica Igreja do Monte com seu adorável casario colonial ao redor, também em Cachoeira:



e a surpreendente descoberta do Instituto Roque Araujo, com seu museu de cinema e audiovisual, em Cachoeira:


e a fábrica de charutos artesanais Danemann, verdadeiras obras de arte, localizada em São Félix:


e a Igreja de Santo Amaro da Purificação, o Solar de Dona Canô e as marcas de seus dois filhos ilustres:





e a inesquecível lembrança da imagem noturna de Cachoeira, com a lua ao fundo, vista do corredor do 1º andar da minha Pousada:


e outros e tantos e tão apaixonantes que talvez volte a falar deles por aqui. (dtv)

12 comentários:

  1. Linda viagem, saborosos comentários. Estive ali quando criança, tenho poucas lembranças.

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  2. Belo texto. Lindas imagens.
    Você tem toda razão Dalila, vivemos num país magnífico e descuidado por aqueles que dele deveriam cuidar.
    abraços



    Joca

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    1. Grata, meu caro Joca, por sua leitura e comentário. Abraços

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  3. Antonio Possidonio2 de setembro de 2015 09:55

    Dalila, acabo ler tua bela reportagem sentimental, que mexeu com os meus guardados afetivos. Bela síntese que oferece ao leitor uma panorâmica convidando para visitar a região visitada, ou revisitá-la, como eu que estou doidinho de saudade de rever o pouco que de lá conheço, agora ampliado por conta dos teus apontamentos e oportunas observações. 0 visitante apressado não percebe o que você percebeu, querida poeta. Grato pela oportunidade de revisitar o querido Paraguaçu (pouco conheço da denomida parte Baixa), a vontade de voltar se amplia. A benção, poeta. APS

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    1. dalila teles veras2 de setembro de 2015 18:46

      Você, meu irmão, foi o grande inspirador desta viagem e esteve o tempo todo na nossa lembrança. Essa região já habitava nosso imaginário coletivo de tanto ouvi-lo contar. Abraço sempre grato

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  4. bonito relato de espaços com memória
    abraços
    Constança

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    1. dalila teles veras4 de setembro de 2015 09:02

      obrigada, caríssima Constança

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  5. Tem uma canção portuguesa que "reza" assim:
    "Não invejo de quem tem carros, parelhas e montes"
    Só invejo quem bebe água em todas as fontes"

    Minha cara Amiga Dalila,
    Aiii que invejinha (da boa) senti ao ler as suas "Viagens da Minha Terra".
    Aiii que saudade de lugares sonhados, aiii que saudade de ares ainda não respirados, aiii, aiii que eu também lá hei-se ir e seguindo a dica do amigo Possidónio, terei por base este seu "mapa".

    Grata pela sua partilha, um abraço daqueles nossos

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  6. dalila teles veras4 de setembro de 2015 09:03

    Olá, Isa
    Para viajantes interessados e curiosos como você, não só ofereço o "mapa", como me ofereço para acompanhante. Grata

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  7. Que bela e cativante postagem, Dalila. Obrigada. Mais um destino a incluir em nosso planos.

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    1. dalila teles veras8 de setembro de 2015 08:10

      Manter uma lista de "a realizar", cara Adélia, é importante para caminharmos no sentido mais pleno do viver. Muita honra contar com sua leitura e atenção de sempre.

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