sábado, 10 de agosto de 2019

Da Série Objetos com História - II - Agasalhar com a alma




Hoje foi dia de usar a echarpe que pertenceu a minha mãe, Maria Lourdes Olival Agrela, falecida em 2002. Quando tive que exercer a dolorosa ação de doar os seus objetos pessoais (poucos por sinal, roupas, sapatos, enfim), não resisti e guardei duas ou três peças que, além dos vasos de orquídea que até hoje florescem sem os seus cuidados e os descuidados meus, materializam ainda sua presença de uma determinada forma que só a mim faz sentido.

Não sou apegada a bens materiais, mas acabo guardando muitas coisas, não por seu valor monetário, mas pela simbologia da memória que faz parte de minha trajetória de vida. Uma delas é esta echarpe, da qual gosto muito (foi presente meu para ela que, ao contrário de mim, era calorenta e pouco se agasalhava, razão pela qual, a peça é de um tecido leve, mais para ornamentar do que agasalhar)

Como pouco vou ao cemitério, estabeleci algumas formas de homenagear meus mortos queridos e diminuir a saudade que deixaram. O uso desta echarpe, em dias de necessidade de afeto maternal, é uma delas. Além de homenagear, também me acalenta e embala. Quando contei isso a minha amiga argentina Margarita Lo Russo, ela me disse que existia uma bela palavra em seu idioma materno que bem definiria este gesto: “apapachar”, ou seja, “abraçar ou agasalhar com a alma”. Achei isso tão bonito que passei a usar a peça mais vezes, pois, assim, além de relembrar a mãe, agasalhando-me de ternura, homenageio igualmente este belíssimo vocábulo apapachar

domingo, 4 de agosto de 2019

Da série "Objetos com história"


Hoje vesti meu casaco húngaro, adquirido numa visita a Budapest, em 20015, e que me acompanha desde então. Sempre que preciso de energias e por inexplicável razão simbólica (talvez por ser tecido em tear manual, talvez por sua estampa florida e seus botões de ferro...), visto-o e é como se proferisse uma palavra mágica, do tipo “shazam”, para passar o restante do dia com a sensação de cavalgar o dia, feito os “ginetes apocalípticos” daquela terra de fronteiras constantemente alteradas. Os objetos possuem poder.



Abaixo um poema que fiz à época, dedicado àquele povo e que integra um livro inédito e há anos, sempre “in progress”, cujo título, provisório é poemas errantes ou viagens na minha e outras terras:

Magyarország e sua língua

a velha magyarország

século após século
desde sua fundação
no século IX, foi
ocupada / dominada
por romanos,
celtas, eslavos
otomanos, turcos
hunos e russos

do fausto do império
à utopia do comunismo
a hungria cigana
hoje experimenta
a democracia, enfrenta
globalização e consumismo
(nova ameaça)

Dessa história toda
ficou-me a imagem
dos “ginetes apocalípticos”
que cavalgaram dia e noite
comeram a si mesmos
pela conquista da terra
e da própria identidade
cravaram “magyar”
no próprio peito e
nas terras conquistadas
construíram seu patrimônio
numa língua que é só deles
sem parentescos
- singular patrimônio