terça-feira, 25 de setembro de 2018

Dez nos anos sem o Maestro Flávio Florence - Homenagem



             Produzi este texto para lembrar os 10 anos de morte do Maestro Flávio Florence. Dele retirei alguns excertos para ler durante a homenagem que lhe foi prestada pela Associação Coro da Cidade de Santo André, na Catedral do Carmo, repleta de amigos e admiradores do homenageado.
            A bela cerimônia, revestida de momentos de muita emoção, foi composta por um concerto do Coro da Cidade de Santo, regido pelo Maestro Roberto Ondei e outros regentes convidados, como Silvia Hokama e Sérgio Assumpção. Ao Coro juntaram-se, em forma de participação especial, integrantes do Coro da Universidade Federal do ABC, ex-integrantes do Coral Municipal de Santo André e do Coral da Fundação Santo André. Igualmente convidados as solistas Marta Dalila Mauler e Cláudia Arcos, sopranos, o barítono Sebastião Teixeira e o tenor Gilmar Ayres. No programa, os compositores prediletos de FF, dentre outros, Bach, Stravinsky, Mozart, Fauré, Haendel. O cuidado apurado na programação e em toda a organização do encontro transformou aquele momento em verdadeira epifania.

foto de Luzia Maninha

            Muito agradeço a Márcia Miyashiro, integrante do Coro e uma das organizadoras, o honroso convite para participar de um momento tão significativo para a história de nossa região.

            Naquele domingo, 21 de setembro de 2008, a notícia da morte de Flavio Florence tomou de imensa tristeza todos nós, seus amigos e admiradores. O ABC perdia uma das maiores personagens do seu cenário artístico e cultural.
            Nesse mesmo dia, às 15h00, após uma pequena multidão ter velado seu corpo no Saguão do Teatro Municipal de Santo André, quando na saída da urna com o seu corpo em direção ao carro funerário que o levaria para o Crematório da Vila Alpina e o aplaudíamos pela última vez, um vazio enorme pairava sobre aquele espaço onde tantas vezes FF nos proporcionou momentos musicais inesquecíveis.
            Perdíamos um talentoso artista e admirável homem de cultura que muito contribuiu para a projeção da arte e da cultural da nossa região, responsável, ao longo de duas décadas, pela formação de um público fiel para a música de concerto. Era a sensação de perda de um irmão de quem nunca privei de intimidade, mas com quem tive o privilégio de tê-lo como contemporâneo e cúmplice próximo, no campo da arte e do pensar.
            No texto que publiquei em meu blog, lembrava as inúmeras vezes em que minha trajetória de vida cultural e intelectual, durante duas décadas, cruzou com a dele, desde o concerto inaugural da Orquestra Jovem de Santo André, em 24.4.88, ao qual assisti ao lado de toda a família, até seu último e comovente concerto, em 25 de maio do ano de sua morte, quando Flavio subiu ao palco do Teatro Municipal de Santo André,  visivelmente fraco e cambaleante. Mal movia a batuta, regia com o olhar, acrescido do fogo ainda aceso de sua arte e da vontade inabalável de uma vida dedicada à arte (A música é minha vida, dizia). A enfermidade vencia, ali, a batalha que tão dignamente durante dois anos, ele havia travado com ela.
            Em maio de 1992, junto aos poetas do Grupo Livrespaço, do qual eu era uma das integrantes, subimos ao palco do Teatro Municipal de Santo André e lemos poemas/releituras de Mário de Andrade, nos intervalos das peças de Villa-Lobos, executadas pela orquestra que ele, sempre tão brilhantemente, regia, naquela ocasião, lembrando e celebrando os 70 anos da Semana de Arte Moderna.
            Fomos colunistas no Diário do Grande ABC no mesmo período de quase 5 anos;            Como membros fundadores da Associação Pró-Música do Grande ABC, integramos também a diretoria daquela instituição.
            Por duas ocasiões, nos anos 1990,  FF ministrou na Livraria Alpharrabio,  o curso Música Clássica para Leigos. Com invejável cultura, clareza e didatismo, ele esclarecia os principais pontos da história da música ocidental, dando ênfase ao efeito antecessor e contribuindo para que nos tornássemos amantes da música clássica.
            Aliás, lembro com muito orgulho sua inestimável colaboração na programação cultural da Livraria Alpharrabio, como, por exemplo, em 2004, quando levou, para uma memorável Conversa de Livraria, o maestro português Álvaro Cassuto, que se encontrava em nossa cidade para reger, como maestro convidado, a nossa Orquestra ou, ainda, quando, em 2006, com muita erudição e pertinência, comentou o filme “Nelson Freire”, de João Moreira Salles, dentro do ciclo de Documentários Prova dos Nove, com a competência e erudição de sempre.
            Ainda que isto pareça auto-referencial, faço-o apenas para dizer o quanto me orgulho do privilégio em tê-lo como contemporâneo e parceiro.


            Assim, termino este meu singelo depoimento, lendo um poema que fiz numa inesquecível tarde de abril de 1994, em sua residência, quando ele ministrou a um pequeno grupo a aula de encerramento do Curso “Música de Concerto Para Leigos”. Ouvimos Debussy e Shoenberg comentados por ele de forma didática e, como sempre, bem-humorada. 

Anticoncerto de domingo
(às margens da Represa Billings)
                 para Flávio Florence



Valsas de guerra
para garças desavisadas
: o primeiro susto
de um cálido encontro de inverno

Poemas de Verlaine,
Debussy, tardes e faunos
(profana sagração)
: o segundo susto
no bunker improvisado

Irreverência hierárquica de Schoenberg
revolução de Stravinsky
(Pássaro de Fogo a dançar)
: o terceiro susto
fuga justificada

(Crianças e algazarra
em incessante correr
passam ao largo de conceitos musicais
: música apenas para os sentidos)

Na dramaticidade inocente dos corpos
as crianças
querem apenas correr
(a arte já está com elas - intrínseco ritmo
constante sobressaltar)

Sua batuta permanece em nós, orquestrando lembranças dos momentos memoráveis que nos proporcionou, bem como seu inestimável legado que, certamente, prosseguirá na cada vez mais vigorosa existência da Orquestra e dos Coros. dtv

sábado, 8 de setembro de 2018

Nênia para Tônia Ferr


Quando abracei Tônia naquele 20 de fevereiro de 2016 (data desta foto de Luzia Maninha – comemoração do aniversário da livraria Alpharrabio) não imaginei que, por razões que a minha própria razão não saberia explicar, aquele seria nosso último abraço.




Acabo de receber uma mensagem de Jurema Barreto de Souza informando que, soube apenas agora, Tônia faleceu no último mês junho! Ontem, 7 de setembro, completaria 91 anos.  Curiosamente, não consegui chorar, mas fui acometida de uma dor funda, já conhecida e muitas vezes sentida nos últimos tempos. A dor da perda e despedida, uma dor que dá febre, uma dor irremediável (como disse meu neto, aos 5 anos, “a dor é dentro, vó”... sim, era por dentro).
Conheci Tônia Ferr (nome literário de Antônia Ferreira) em 1983, quando a convidamos a integrar o então recém-fundado Grupo Livrespaço de Poesia, em Santo André. Alagoana (“nasci numa sexta-feira de setembro, antes da Primavera, num povoado com mais de uma casa e menos de três, não tinha nome, era só um ponto , no município de União, estado de Alagoas. Mas é minha terra”). Veio menina para São Paulo, onde permaneceu e venceu.
Dona de uma história singularíssima que merece ser contada. Apenas na adolescência se alfabetizou, mas rapidamente, em programas de alfabetização de adultos (o antigo curso de “madureza”) concluiu o primeiro e o segundo grau e depois o curso de Contabilidade, profissão que exerceu, mediante prestação de concurso, como servidora federal, até sua aposentadoria. O gosto pela poesia, veio com ela, cresceu com a escuta dos cantadores nas feiras do seu lugar de origem, até que resolveu também ser poeta. Gostava muito, à maneira dos seus conterrâneos, de interpretar seus poemas em voz alta e sempre de cor, andando de lá pra cá. Não conseguia lê-los (pois quando coloco os óculos – e não consigo ler sem eles – parece que não ouço minha própria voz), mas os dizia com muita graça e propriedade. O poema que mais gostava de dizer, na verdade, uma autobiografia poética, era “Retrato” e, estou convencida, deveria ser transformado em seu epitáfio. Para quem a conheceu, impossível não lembra-la dizendo esse poema, sempre emprestando um toque “épico” à última estrofe.  Ficará para sempre em nossa memória, como nosso "cacto vermelho do norte".
Publicou o livro “Massacre”, edição da autora e integrou as coletâneas do Grupo Livrespaço.

Deixo aqui o poema referido, como homenagem póstuma, sentida e saudosa à camarada das letras:

RETRATO

Era um brotinho mirrado e feio
veio de longe, não sei de onde
ou talvez nasceu ali mesmo, no monturo.
Tinha as folhas verdes quase amarelas
e o caule de um verde bem escuro.
       Por engano foi levado p´ro jardim.    
       Cuidados, carinhos nunca precisou.
       Era feio, mirrado e ali ficou
       a competir com plantas muito melindrosas
       como cravo, amor-perfeito e rosas.
O jardineiro via-o e não ligava
arrancá-lo dali não arrancava
mas adubo, água, limpeza ele não via
Era planta ruim, não merecia.
       O brotinho a tudo observava
        a injustiça que a ele se fazia
        e jurava vingança, não por maldade
        mas na esperança
        de ser visto um dia
O tempo a passar e ele a esperar
enquanto cravos e rosas floresciam.
O amor-perfeito muito bajulado
e ele ali, no mesmo jardim, sempre injustiçado.
         De tão oprimido nunca floresceu.
         De tão maltrado não cresceu
         Mas ele estava ali, era um forte
         Era um cacto vermelho do norte!

(in Livrespaço coletânea II, 1984)



segunda-feira, 4 de junho de 2018

uma estação no purgatório


A mala já estava pronta. Dentro, cadernetas para o diário de bordo e a polaroid, com o estoque de filmes para os registros instantâneos de mais um retorno ao meu país natal. Um compromisso literário (participação na 44ª. Feira do livro do Funchal) e mais um mergulho no rizoma (quem sabe um novo projeto de livro).  Foi quando o imponderável bateu à porta. O coração do meu velho  acompanhante deu sinal de que algo não estava bem. Hospital, exames, cateteres, stent, cirurgia, uti, a espera do tempo parado, a angústia da incerteza. Em lugar do aeroporto, a estação purgatório, onde trocamos de papel. Agora sou eu sua acompanhante.  Mas como já me dizia o velho Chico Boíba, lavrador seu conterrâneo, nascido nas barrancas do Rio Parnaíba, “nordestino é feito juriti, avoa depois do tiro mesmo com as tripas de fora”. Dito e feito, foi assim. Valdecirio, aos76 anos, a serem completados ainda este mês, deixou a equipe médica boquiaberta. Após 10 dias sob cuidados intensivos, segue hospitalizado, mas agora no quarto, etapa que antecipa a alta (para casa). A recuperação será lenta e provavelmente demorada, mas certa, acredito e tento me adaptar.
A viagem programada não foi registrada, mas a temporada no purgatório, sim (pela poesia, que é a forma que escolhi para isso). 

uma estação no purgatório
       “Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.” AR


I

a sua dor
          dói
em mim

ele sou
eu, a mesma
         essência
         amalgamada

quatro décadas
      e meia e mais
      repartidas
      confundidas

somos dois
e
somos um

sua dor
a minha

dobramento
dobradiça
enfermiços

26.5.2018





II

o corpo, a sacralidade
                    do corpo
o corpo, a dignidade
                   do corpo
subsistem apenas
               na autonomia

rasgado
vísceras
excrementos
expostos
:
devassa sacrílega
profanação

na dependência alheia
o corpo
deixa de ser

27.5.2018

 


III

no confinamento
      enfermo
      tudo
é espera

tempo sem horas

artificial, o ar
                 o quarto
                 a janela

provisória, a casa

simulacro, o viver

28.5.2018

 


IV

alógeno, este sol
   não aquece
   não aquece

enganosamente
quente, esta luz
   não dissolve
   não dissolve

as sombras
geladas
indissolúveis


29.5.2018

 


V

no reino da assepsia
habitam
sorrisos protocolares
discursos ensaiados
jalecos amarrotados
olhares insones

boletins pontuais
(glicemia, pressão arterial,
hemoglobina, ina... ina... ina...)
preenchem as horas

30.5.2018


 


VI

priim... (...) priim... (...)
a máquina justifica sua função

ploc... (....) ploc... (...)
a bolsa goteja disciplinadamente
              plasma e drogas

colecionar ruídos
:
(onomatopeia indesejada)
agenda do dia


31.05.2018

 


VII

insubordinar-se
:
não se estima
não se aceita

neste meio
neste seio
neste sem
           aconchego

submeter-se
:
a regra
   tácita
inegociável


01.06.2018




VIII

verde, amarelo, vermelho
cinza... cinza... cinza...

cromatismo do dia/noite

vermelho/ vigilância
sinais e apreensão
a permanência

02.06.2018





terça-feira, 12 de dezembro de 2017

poesia.net 15 anos/Carlos Machado - em forma de homenagem

Enviei o comentário abaixo ao poeta Carlos Machado, editor do poesia.net que neste 12 de dezembro comemora 15 anos. O comentário foi publicado no site especial dos 15 anos do poesia.net e o republico aqui, com a minha dupla homenagem, repetida 15 vezes.

"Muito mais do que um sítio virtual, Alguma Poesia, repositário de preciosos “boletins” com abordagens críticas sobre poetas brasileiros e estrangeiros, é já uma verdadeira Instituição da língua da poesia. O cuidado cirúrgico e extremamente respeitoso com o tratamento dado a cada um dos boletins regularmente publicados há exatos 15 anos (sim, eu disse QUINZE anos — e isso em termos de assuntos virtuais é assombroso), faz desse espaço um lugar de referência e memória viva da poesia contemporânea. Não fosse o bastante, transmutado em “poesia.net”, desenvolveu e ramificou-se em outras formas “mais ágeis”, como cartões postais poéticos e uma página no Facebook, ampliando, assim, a leitura da poesia e chamando atenção dos mais distraídos para essa linguagem nem sempre levada tão a sério nesses meios ligeiros de comunicação. Conexão admirável entre os próprios poetas e um número estonteante de leitores alcançados. Atrás disso tudo há um nome: Carlos Machado, seu criador e editor, poeta dos mais refinados, tradutor idem, crítico que só usa de sua pena para falar do que acredita, jamais para dizer mal do que não gosta, muito menos para provocar deliberadamente polêmicas estéreis tão comuns na república das letras. Fica difícil acreditar que este desprendido e incansável trabalho seja realizado por uma só pessoa que, diga-se, o faz de forma competente, mas, sobretudo, amorosa, sem qualquer espécie de patrocínios pecuniários, públicos ou privados. O papel de seguidora fiel e entusiasta desde os primeiros tempos, a alegria de ser apresentada a poetas que desconhecia e reler, de forma diversa, aqueles que já conhecia, já seria o bastante. Mas o fato de ter sido contemplada com boletins e cartões postais foi além da satisfação de leitora: representou verdadeira honraria que me enche, confesso, de muita vaidade. Bem haja, Machado, timoneiro dessa nau que transporta carga tão preciosa!

Dalila Teles Veras, poeta (poesia.net n. 72n. 331 e n. 355)
Santo André, SP"

domingo, 3 de dezembro de 2017

Duda, o operário letrado - saudade


Estive esta tarde no Cemitério da Saudade, na Vila Assunção, primeiro bairro em Santo André onde residi por nove anos. Naquele cemitério repousam inúmeras personalidades, políticas (como Celso Daniel e uma dezena de outros Prefeitos e políticos de destaque na região do ABC) e artísticas, como Luiz Sacilotto (que, para meu espanto, não consta da galeria de “ilustres” na entrada do local).

Hoje, dia 02 de dezembro de 2017, um domingo nublado, o local acolheu mais um ilustre cidadão, José Duda Costa, chamado por nós, o povo da cultura e da memória, simples e carinhosamente por Duda.


A minha parcela de ativismo cultural deu-me canseiras, contrariedades, mas muitas alegrias. Dentre elas, a felicidade de conviver com pessoas especiais, gente que se destacou por sua singularidade, jamais por celebridade ou fatos midiáticos, muito menos por qualquer espécie de cargo ou poder. Duda foi uma dessas figuras que admirei e tive a honra de receber sua amizade por três décadas.

Foi um homem simples, mas não dessa “simplicidade” que comporta alienação, desconhecimento. Não frequentou escolas superiores, desconfio que apenas as primeiras letras, mas era um grande leitor, o que o diferenciava enormemente.  Lia e decifrava, porque a sede do conhecimento e da participação social o movia. Fez parte de uma geração de operários letrados, engajados, participantes, proponentes e, naturalmente, memorialistas. Desse grupo de “operário padrão” (não naquele enquadramento do “padrão” imposto pelo patrão, mas no da demanda da própria classe trabalhadora, do qual faziam  parte  (e com eles tive a honra de conviver e prezar de amizade), o Philadelpho Braz (hors concours) e muitos outros que já nos deixaram. Alguns deles, temos ainda a sorte de conviver como João de Deus e Alberto Braz (irmão gêmeo de Philadelpho).

A biografia singela de Duda pouco diz do homem que a protagonizou. Nascido em Garanhuns, PE, em 1934, filho de um lavrador que possuía um armazém de secos e molhados (aqui, minha identificação de origens imediatamente assimilada).  Órfão em tenra idade, aos 11 anos, foi para Recife morar com uma irmã casada, onde trabalhou como mecânico. Em 1948, como tantos seus conterrâneos, veio para São Paulo, uma viagem épica, no chamado “pau de arara”,  aventura que ele contava sempre com muita graça. Aqui, veio trabalhar em Santo André, onde teve inúmeros empregos (Fábrica de Doces, cobrador em empresa de ônibus, garçom, cozinheiro e, finalmente, com a vinda das grandes indústrias, operário metalúrgico no então nascente e fervilhante mercado de trabalho (trabalhou na International Harvestes Máquinas, General Eletric e Volkswagen). Tinha conhecimentos de desenho mecânico e fez carreira exitosa nessas empresas. Na Volkswagen, onde trabalhou por 18 anos até sua aposentadoria, foi inspetor de Qualidade do Departamento de Prensas.

Conheci Duda nos primórdios do GIPEM – Grupo Pesquisadores da Memória, fins da década de 80, contato que foi aprofundado na preparação do I Congresso de História do ABC, realizado em 1990 com a inauguração do Museu de Santo André. Sua prosa fácil e bem humorada, recheada de boas histórias era isca fácil à amizade. Foi um frequentador assíduo da Livraria Alpharrabio, participando com muita propriedade das atividades ali realizadas.

A partir daí, eu e muitos outros amigos (muitos dos quais compareceram hoje ao seu sepultamento) nos acostumamos à presença de Duda em todos (sim, TODOS) os movimentos em pról da Memória e preservação do Patrimônio Cultural e Arquitetônico, assim como em todos os 14 Congressos de História do ABC, dos quais participou não só na organização, mas como debatedor, depoente, incentivador e entusiasmado partícipe. 




O último deles, já muito debilitado, em Rio Grande da Serra, há pouco mais de 20 dias. Foi conduzido até ali pelo amigo João de Deus que o acarinhou com desvelo durante todo aquele segundo dia do Congresso. Mostrava-se feliz o nosso Duda, estava entre as pessoas que falavam a sua língua, a língua fraterna da memória. Foi sua última aparição pública. A sua presença foi verdadeiramente grata e saudade por todos que ali estavam. 

Viveu lindamente os seus 83 anos. Deixa uma linda família, composta pela Dona Glória, com quem casou há 60 anos, seis filhos, netos e bisnetos. Deixa também um espólio composto por objetos responsáveis por seu conhecimento enciclopédico sobre música popular e clássica (milhares de fitas K7, LPs, CDs), livros sobre os mais diversos assuntos de seu interesse, em especial, biografias. coleções das quais muito se orgulhava e gostava de mostrar aos amigos que o visitavam, recebidos com bolo e chá de maracujá de Dona Glória. Sim, ele também gostava muito de ler poesia e fazia versos para todas as ocasiões. Deixa, sobretudo, a memória inesquecível de sua presença como cidadão participante da vida de sua cidade e de sua região. 






Duda vive. Viva Duda!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

60 Anos de Brasil - uma pequena história emigrante (a minha)




No dia 29 de novembro de 1957, uma sexta-feira, o “Santa Maria”, paquete português pertencente à Companhia Colonial de Navegação, atracou no Porto de Santos. Dentre turistas (na primeira classe) muitos emigrantes (terceira classe) vinham em “caráter permanente”, como era o caso da família Olival/Agrela, a minha (Manuel de Jesus Agrela, Maria de Lourdes do Olival, Dalila Isabel Agrela, José Manuel Agrela, Maria Floripes do Olival Agrela).
29 de novembro de 2017 foi ontem, mas como não me apercebi da data, celebro hoje os meus 60 anos de Brasil, em forma de abraço fraterno aos meus irmãos brasileiros e com alguma poesia.
A infância e a travessia foram objeto dos poemas do meu livro “solidões da memória” (Alpharrabio/Dobra, 2015). 



Neste poema, chegada, falo da viagem e do impacto com a terra prometida.

chegada
  
       Para a frente era só o inavegável
        Sob o clamor de um sol inabitável
                                       Sophia de Mello Breyner Andresen


onze foram os dias
enjoo,  sarna e tédio
terceira classe
paquete santa maria

da terra prometida
primeiro, o recife
amarelos inaugurais

aos emigrantes, o
delimitado espaço
do porto, aos turistas
a cidade  (entre)vista
do cais

(aos que vinham
para o trabalho
ver o trabalho
era  o limite)

via-se
:
corpos gingantes, a estiva
torsos negros azuis suados

e o cheiro despudorado
do abacaxi a anular o resto

 (o brasil tinha cheiro
e era de ananás)

Nota: O navio Santa Maria, construído entre 1952 e 1953, na Bélgica por encomenda do Governo Português, fazia parte do “Plano de Renovação da Marinha de Comércio”, tido como “Despacho 100” e implementado por Américo Tomás, então ministro da Marinha de Portugal. Fez parte desse plano a construção de 56 navios para a Marinha Mercante portuguesa. Juntamente com o seu similar, o “Vera Cruz”, construído um pouco antes, esses navios ficaram conhecidos como “navios do Despacho 100”.
A viagem inaugural do Santa Maria ocorreu em 1953, com destino ao Brasil, Uruguai e Argentina. Durante sua carreira (1953-1973) fez carreira regular entre Portugal e as Américas (do Norte, Central e do Sul). Foi o único paquete português com linhas regulares para portos dos EUA.


Não foi, entretanto, por essa carreira trivial transportando mercadores e passageiros que o Santa Maria ficou célebre.  Em 21 de janeiro de 1961, um grupo de exilados políticos portugueses e espanhóis, ligados à “Direção Revolucionária Ibérica de Libertação” que, à época, faziam oposição política aos governos ditatoriais de Salazar e Franco,  sequestrou o navio que passou a ser chamado de “Santa Liberdade” pelos revolucionários. No comando do navio sequestrado, ação denominada “Operação Dulcineia”, estavam o Capitão Henrique Galvão e Jorge de Soutomayor. A lamentar o assassinato do oficial João José Nascimento Costa, 3º piloto. O sequestro, muito barulho depois, acabaria no Porto do Recife, no dia 2 de fevereiro. Foi o primeiro sequestro político de um transatlântico da história contemporânea.  O seu final não teve nada de glorioso. Ainda relativamente  novo e navegando, foi vendido, em 1973, para a China, para desmanche.

Concluindo, não escolhi emigrar, mas escolhi ser brasileira sem deixar patente a minha nacionalidade portuguesa. Sou uma escritora brasileira nascida em Portugal (a minha sintaxe não é a lusitana, como é de se esperar de alguém que saiu de seu lugar de nascença aos 11 anos e vive há 60 noutro, o da escrita). dtv

sábado, 21 de outubro de 2017

Marcus Accioly, uma nênia

Quando morre um poeta - e hoje morreu um - vou à estante, retiro tudo o que dele encontro e ponho-me a ler... ler. É a maneira que encontrei para velar o corpo de sua obra, um corpo que bem conheço. Assim, também velo seu corpo, que desconheço, mas homenageio e respeito.


Morreu hoje, aos 74 anos o poeta Marcus Accioly, nascido em Pernambuco, equivocadamente tido por alguns como “poeta regionalista”. Não foi/não é. Foi/é um poeta Brasileiro/universal, imenso, épico, órfico, exuberante.  A ele rendo minhas homenagens.

O poema abaixo, pertence ao livro “Sísifo”, Edições Quíron/MEC, 1976

Canto Terceiro
O IMPOSSÍVEL DA ALEGORIA
      II
pedranimal
       e pássaro-poeta

há um puma na montanha e há uma pedra
(além de Sísifo) há uma pedra e um puma
há a montanha uma pedra um puma e Sísifo

os perigos de Sísifo: a montanha
uma pedra e um puma (a pedra sobe
e o puma desce sobre a pedra e Sísifo

há uma pedra entre o puma e Sísifo
há uma luta entre o puma e Sísifo
há uma pedra e um puma para Sísifo

há um puma sozinho na montanha
há uma pedra subindo na montanha
há Sísifo somente na montanha

há um puma e o puma é a própria morte
há uma pedra e a pedra é um poema
há Sísifo e Sísifo é o poeta

Marcus Accioly, in Sísifo, Edições Quíron/MEC, 1976