terça-feira, 27 de novembro de 2018

Espera, de Luzia Maninha - poesia plástica

















Acostumada, por questões de escolha e personalidade,  a manter-se nos bastidores, distante dos holofotes que, via de regra, ela mesma projeta no sentido de iluminar a arte daqueles a quem admira, Luzia Maninha é artista de reconhecido talento, ainda que relute em assumir-se como tal.
Além da impecável produção gráfica de livros, em especial os de caráter artesanal, prática a que se dedica ao longo de duas décadas, suas fotos frequentemente chamam atenção pelo inusitado do olhar. 
Após muita insistência de amigos que há anos a instigam a publicar, finalmente torna público este seu trabalho, apropriadamente denominado espera, sétimo volume da “Coleção PerVersas – literatura de autoria feminina”, Alpharrabio Edições, da qual é responsável pela concepção gráfica e criação manual,  desde o primeiro número.
“Bloco de imagens” é como a própria autora classifica este conjunto de instantâneos de celular. Muito mais que mera reunião aleatória de imagens, capturadas sempre com muita criatividade e delicadeza, o que se tem aqui é poderosa narrativa poética que bem poderíamos chamar de poesia plástica ou, melhor ainda, imagens haicais. Afinal, Maninha vale-se de ferramentas próprias da artesania do poema, para compor imagens que se aproximam do poema breve. Concisão e exercício contemplativo aproximam este trabalho da arte japonesa do haicai, a partir do próprio título que remete à questão tempo, outra característica do haicai.  É também próprio da língua da poesia, a transfiguração do real em imagem abstrata ou de múltipla interpretação que, como neste caso, captura o que estava fora e revela o que estava oculto.
Ao aproximar a câmera do detalhe, escolher o enquadramento, excluindo o plano geral que a tornaria concreta, a autora faz com que a imagem passe para o campo abstrato do imaginário.  A forma como, cuidadosamente,  foram encadeadas as imagens/poemas representa escolhas de linguagem, a qual sugere e propicia interpretações plurais.
Aquí, o já visto pelo olhar distraído de tantos, passa a ser visto pela vez primeira, transmutação pela arte, sem barreira alguma que a defina em gênero ou escola.
À subjetividade de doze imagens meticulosamente selecionadas, a fotógrafa juntou três instantâneos figurativos  (o primeiro e os dois últimos) que, sem o facilitismo de apontar ou direcionar olhares ou interpretações, antes, marcas sugeridas do humano, reforçam e dão consistência à narrativa. 
Não por acaso, o posfácio de autoria de Deise Assumpção, apresenta-se em forma de poema. Não por acaso, a imagem na tira da capa revela a claridade da palavra “espera” e mantém quase diluída, sobre fundo abstrato, a grafia do nome da autora, mestra na arte da tentativa de desaparição. Nada, portanto, aqui é por acaso. O conjunto foi pensado, artística e harmoniosamente como peça única.
De nada (ou de muito) adiantou o esforço em manter-se atrás das cortinas da arte. Luzia Maninha, com este pequeno/enorme artefato gráfico/artístico, adentra num caminho sem volta e fica a nos dever, desde já e sem direito a espera, outros e outros “blocos”, edifícios inteiros que a sua sensibilidade haverá de revelar e construir.
                                                              dalila teles veras

em tempo: se difícil foi convencer a publicar, mais difícil é convencer a autora a promover uma apresentação pública da obra.    

domingo, 11 de novembro de 2018

Mulherio das Letras realiza II Encontro Nacional - Literatura, compromisso e resistência (*)





O coletivo Mulherio das Letras, criado em 2017, conta hoje com adesão de mais de seis mil mulheres brasileiras residentes no Brasil e algumas no exterior. Nos últimos dias 2, 3 e 4 de novembro, realizou o II Encontro Nacional no Guarujá, SP, reunindo cerca de 200 de suas integrantes. Do primeiro, realizado no ano passado em João Pessoa, na Paraíba, participaram aproximadamente 500 mulheres, todas ligadas à literatura e ao livro, como poetas, ficcionistas, dramaturgas, tradutoras, pesquisadoras, críticas, editoras, livreiras, ilustradoras, designers e jornalistas, muitas das quais ativistas culturais e sociais, ligadas a movimentos e coletivos.

Maria Firmina dos Reis e Patrícia Galvão - Pagu, mulheres de reconhecido destaque nacional, foram homenageadas através de exposições, palestras e debates, no primeiro e segundo encontro, respectivamente.

Realizados com o apoio e infraestrutura das respectivas Prefeituras Municipais locais, os encontros tiveram caráter inovador, organizados de forma coletiva e horizontal, longe do modelo adotado como padrão de festivais e feiras de literatura que ocorrem em todo o Brasil.



Trata-se de uma iniciativa pioneira, marco no cenário da literatura brasileira na luta por maior visibilidade da produção literária da mulher na literatura e na luta por direitos que teve, na figura da escritora Maria Valéria Rezende, residente em João Pessoa, personalidade extraordinária de nossas letras, uma de suas principais ideólogas e motor inspirador em todas as etapas do coletivo.

As incontáveis discussões realizadas nos encontros nacionais bem como em inúmeros coletivos regionais decorridos durante o ano, através de rodas de conversas, palestras e oficinas, acabaram também por conduzir a debater as distorções da atual conjuntura brasileira e vêm balizado propostas e passos decisivos ainda a percorrer, transformando o coletivo em verdadeiro movimento.

Uma delegação de Natal, RN, composta por Rejane Souza, Jeanne Araújo, Eliety Marry e Gilvania Machado, representando o coletivo Nísia Floresta, propôs e foi aprovada por unanimidade, a realização do III Encontro Nacional do Mulherio das Letras na cidade de Natal, em outubro de 2019. O fato se reveste de simbologia, levando-se em conta que o Rio Grande do Norte elegeu este ano uma mulher para Governadora, Fátima Bezerra, a única mulher eleita governadora no país, tendo recebido a maior votação da história daquele estado.


Ao final do Encontro, uma Carta Aberta (abaixo) foi redigida, aprovada e já começou a circular nas redes sociais e blogs alternativos.




CARTA ABERTA DO II ENCONTRO NACIONAL DO MULHERIO DAS LETRAS - GUARUJÁ 2018

"A esperança é cortada, mas se regenera". (Pagu)

O Mulherio das Letras, criado em 2017, é um coletivo feminista literário, diretamente interessado na expressão pela palavra escrita e oral, com adesão de mais de seis mil mulheres brasileiras residentes no Brasil e no exterior, que se propõe a discutir as questões da mulher nas áreas da arte e da cultura.

As mulheres reunidas neste encontro, diante da atual e grave conjuntura do Brasil, se comprometem a defender as seguintes pautas:

1. O exercício pleno e irrestrito da democracia;
2. A liberdade de expressão;
3. A garantia e ampliação das políticas públicas para o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas;
4. Salvaguardar os direitos das mulheres, bem como fortalecer e dar visibilidade à literatura produzida por elas;
5. Comprometimento com a defesa da diversidade étnica, de gênero, de classe, de orientação sexual, bem como com a inclusão das mulheres com deficiência;
6. A defesa da educação e, especialmente, da universidade pública, gratuita, laica, de qualidade, inclusiva e aberta à comunidade;
7. A resistência ao sucateamento e desmantelamento dos equipamentos culturais e instituições públicas.

Paralelamente, o Mulherio das Letras realizará ações efetivas nos níveis regional, nacional e internacional, no sentido de manter permanentemente mobilizado o Movimento.

Comissão de redação:
Cátia Moraes
Dalila Teles Veras
Giovana Damaceno
Lindevânia Martins
Patrícia Vasconcelos
Rejane Souza
Rosana Chrispim

Carta aprovada com acréscimos e supressões na leitura pública deste documento no encerramento do Encontro.
Guarujá-SP, 4 de novembro de 2018.







(*) Texto publicado originalmente no portal Jornalistas Livres

Fotos: Luzia Maninha