terça-feira, 25 de setembro de 2018

Dez nos anos sem o Maestro Flávio Florence - Homenagem



             Produzi este texto para lembrar os 10 anos de morte do Maestro Flávio Florence. Dele retirei alguns excertos para ler durante a homenagem que lhe foi prestada pela Associação Coro da Cidade de Santo André, na Catedral do Carmo, repleta de amigos e admiradores do homenageado.
            A bela cerimônia, revestida de momentos de muita emoção, foi composta por um concerto do Coro da Cidade de Santo, regido pelo Maestro Roberto Ondei e outros regentes convidados, como Silvia Hokama e Sérgio Assumpção. Ao Coro juntaram-se, em forma de participação especial, integrantes do Coro da Universidade Federal do ABC, ex-integrantes do Coral Municipal de Santo André e do Coral da Fundação Santo André. Igualmente convidados as solistas Marta Dalila Mauler e Cláudia Arcos, sopranos, o barítono Sebastião Teixeira e o tenor Gilmar Ayres. No programa, os compositores prediletos de FF, dentre outros, Bach, Stravinsky, Mozart, Fauré, Haendel. O cuidado apurado na programação e em toda a organização do encontro transformou aquele momento em verdadeira epifania.

foto de Luzia Maninha

            Muito agradeço a Márcia Miyashiro, integrante do Coro e uma das organizadoras, o honroso convite para participar de um momento tão significativo para a história de nossa região.

            Naquele domingo, 21 de setembro de 2008, a notícia da morte de Flavio Florence tomou de imensa tristeza todos nós, seus amigos e admiradores. O ABC perdia uma das maiores personagens do seu cenário artístico e cultural.
            Nesse mesmo dia, às 15h00, após uma pequena multidão ter velado seu corpo no Saguão do Teatro Municipal de Santo André, quando na saída da urna com o seu corpo em direção ao carro funerário que o levaria para o Crematório da Vila Alpina e o aplaudíamos pela última vez, um vazio enorme pairava sobre aquele espaço onde tantas vezes FF nos proporcionou momentos musicais inesquecíveis.
            Perdíamos um talentoso artista e admirável homem de cultura que muito contribuiu para a projeção da arte e da cultural da nossa região, responsável, ao longo de duas décadas, pela formação de um público fiel para a música de concerto. Era a sensação de perda de um irmão de quem nunca privei de intimidade, mas com quem tive o privilégio de tê-lo como contemporâneo e cúmplice próximo, no campo da arte e do pensar.
            No texto que publiquei em meu blog, lembrava as inúmeras vezes em que minha trajetória de vida cultural e intelectual, durante duas décadas, cruzou com a dele, desde o concerto inaugural da Orquestra Jovem de Santo André, em 24.4.88, ao qual assisti ao lado de toda a família, até seu último e comovente concerto, em 25 de maio do ano de sua morte, quando Flavio subiu ao palco do Teatro Municipal de Santo André,  visivelmente fraco e cambaleante. Mal movia a batuta, regia com o olhar, acrescido do fogo ainda aceso de sua arte e da vontade inabalável de uma vida dedicada à arte (A música é minha vida, dizia). A enfermidade vencia, ali, a batalha que tão dignamente durante dois anos, ele havia travado com ela.
            Em maio de 1992, junto aos poetas do Grupo Livrespaço, do qual eu era uma das integrantes, subimos ao palco do Teatro Municipal de Santo André e lemos poemas/releituras de Mário de Andrade, nos intervalos das peças de Villa-Lobos, executadas pela orquestra que ele, sempre tão brilhantemente, regia, naquela ocasião, lembrando e celebrando os 70 anos da Semana de Arte Moderna.
            Fomos colunistas no Diário do Grande ABC no mesmo período de quase 5 anos;            Como membros fundadores da Associação Pró-Música do Grande ABC, integramos também a diretoria daquela instituição.
            Por duas ocasiões, nos anos 1990,  FF ministrou na Livraria Alpharrabio,  o curso Música Clássica para Leigos. Com invejável cultura, clareza e didatismo, ele esclarecia os principais pontos da história da música ocidental, dando ênfase ao efeito antecessor e contribuindo para que nos tornássemos amantes da música clássica.
            Aliás, lembro com muito orgulho sua inestimável colaboração na programação cultural da Livraria Alpharrabio, como, por exemplo, em 2004, quando levou, para uma memorável Conversa de Livraria, o maestro português Álvaro Cassuto, que se encontrava em nossa cidade para reger, como maestro convidado, a nossa Orquestra ou, ainda, quando, em 2006, com muita erudição e pertinência, comentou o filme “Nelson Freire”, de João Moreira Salles, dentro do ciclo de Documentários Prova dos Nove, com a competência e erudição de sempre.
            Ainda que isto pareça auto-referencial, faço-o apenas para dizer o quanto me orgulho do privilégio em tê-lo como contemporâneo e parceiro.


            Assim, termino este meu singelo depoimento, lendo um poema que fiz numa inesquecível tarde de abril de 1994, em sua residência, quando ele ministrou a um pequeno grupo a aula de encerramento do Curso “Música de Concerto Para Leigos”. Ouvimos Debussy e Shoenberg comentados por ele de forma didática e, como sempre, bem-humorada. 

Anticoncerto de domingo
(às margens da Represa Billings)
                 para Flávio Florence



Valsas de guerra
para garças desavisadas
: o primeiro susto
de um cálido encontro de inverno

Poemas de Verlaine,
Debussy, tardes e faunos
(profana sagração)
: o segundo susto
no bunker improvisado

Irreverência hierárquica de Schoenberg
revolução de Stravinsky
(Pássaro de Fogo a dançar)
: o terceiro susto
fuga justificada

(Crianças e algazarra
em incessante correr
passam ao largo de conceitos musicais
: música apenas para os sentidos)

Na dramaticidade inocente dos corpos
as crianças
querem apenas correr
(a arte já está com elas - intrínseco ritmo
constante sobressaltar)

Sua batuta permanece em nós, orquestrando lembranças dos momentos memoráveis que nos proporcionou, bem como seu inestimável legado que, certamente, prosseguirá na cada vez mais vigorosa existência da Orquestra e dos Coros. dtv

sábado, 8 de setembro de 2018

Nênia para Tônia Ferr


Quando abracei Tônia naquele 20 de fevereiro de 2016 (data desta foto de Luzia Maninha – comemoração do aniversário da livraria Alpharrabio) não imaginei que, por razões que a minha própria razão não saberia explicar, aquele seria nosso último abraço.




Acabo de receber uma mensagem de Jurema Barreto de Souza informando que, soube apenas agora, Tônia faleceu no último mês junho! Ontem, 7 de setembro, completaria 91 anos.  Curiosamente, não consegui chorar, mas fui acometida de uma dor funda, já conhecida e muitas vezes sentida nos últimos tempos. A dor da perda e despedida, uma dor que dá febre, uma dor irremediável (como disse meu neto, aos 5 anos, “a dor é dentro, vó”... sim, era por dentro).
Conheci Tônia Ferr (nome literário de Antônia Ferreira) em 1983, quando a convidamos a integrar o então recém-fundado Grupo Livrespaço de Poesia, em Santo André. Alagoana (“nasci numa sexta-feira de setembro, antes da Primavera, num povoado com mais de uma casa e menos de três, não tinha nome, era só um ponto , no município de União, estado de Alagoas. Mas é minha terra”). Veio menina para São Paulo, onde permaneceu e venceu.
Dona de uma história singularíssima que merece ser contada. Apenas na adolescência se alfabetizou, mas rapidamente, em programas de alfabetização de adultos (o antigo curso de “madureza”) concluiu o primeiro e o segundo grau e depois o curso de Contabilidade, profissão que exerceu, mediante prestação de concurso, como servidora federal, até sua aposentadoria. O gosto pela poesia, veio com ela, cresceu com a escuta dos cantadores nas feiras do seu lugar de origem, até que resolveu também ser poeta. Gostava muito, à maneira dos seus conterrâneos, de interpretar seus poemas em voz alta e sempre de cor, andando de lá pra cá. Não conseguia lê-los (pois quando coloco os óculos – e não consigo ler sem eles – parece que não ouço minha própria voz), mas os dizia com muita graça e propriedade. O poema que mais gostava de dizer, na verdade, uma autobiografia poética, era “Retrato” e, estou convencida, deveria ser transformado em seu epitáfio. Para quem a conheceu, impossível não lembra-la dizendo esse poema, sempre emprestando um toque “épico” à última estrofe.  Ficará para sempre em nossa memória, como nosso "cacto vermelho do norte".
Publicou o livro “Massacre”, edição da autora e integrou as coletâneas do Grupo Livrespaço.

Deixo aqui o poema referido, como homenagem póstuma, sentida e saudosa à camarada das letras:

RETRATO

Era um brotinho mirrado e feio
veio de longe, não sei de onde
ou talvez nasceu ali mesmo, no monturo.
Tinha as folhas verdes quase amarelas
e o caule de um verde bem escuro.
       Por engano foi levado p´ro jardim.    
       Cuidados, carinhos nunca precisou.
       Era feio, mirrado e ali ficou
       a competir com plantas muito melindrosas
       como cravo, amor-perfeito e rosas.
O jardineiro via-o e não ligava
arrancá-lo dali não arrancava
mas adubo, água, limpeza ele não via
Era planta ruim, não merecia.
       O brotinho a tudo observava
        a injustiça que a ele se fazia
        e jurava vingança, não por maldade
        mas na esperança
        de ser visto um dia
O tempo a passar e ele a esperar
enquanto cravos e rosas floresciam.
O amor-perfeito muito bajulado
e ele ali, no mesmo jardim, sempre injustiçado.
         De tão oprimido nunca floresceu.
         De tão maltrado não cresceu
         Mas ele estava ali, era um forte
         Era um cacto vermelho do norte!

(in Livrespaço coletânea II, 1984)