quinta-feira, 1 de maio de 2014

Quarenta dias em dois dias


Saí da leitura do romance "Quarenta dias" de Maria Valéria Rezende (Alfaguara, 2014) rendida (leia-se, transformada), como se eu mesma, nestes dois últimos dias, tivesse vivenciado as agruras dos quarenta dias de sua narradora, Alice, percorrido os becos e outros lugares escusos de uma cidade (Porto Alegre) que, por suas (des)humanidades,  bem poderia ser a minha ou qualquer uma das grandes cidades brasileiras.
 
 

Trata-se de um mergulho na vida urbana e nos seus personagens, costumeiramente invisíveis à grande maioria dos passantes, mas não só. É também e principalmente um mergulho no mundo das trevas, por uma mulher, professora aposentada, que se vê, repentinamente, obrigada pela insensibilidade da filha, a deixar sua casa e seus pertences, mudar-se para um apartamento "cenário de novela", frio e impessoal, sob a perspectiva de tornar-se apenas uma "avó profissional", matando sua própria história.

É nessa viagem/mergulho às cegas que Alice, de forma alucinada e inconsciente, busca criar uma história possível com a qual possa se identificar. Uma viagem através da banda podre e invisível de uma grande cidade, onde anônimos vão recebendo nomes e se transformando em protagonistas de outras histórias, compondo um painel assustadoramente humano e ao mesmo tempo assustadoramente despossuído de humanidade. Um exército dos abandonados à própria sorte, dos que, como ela, também largaram seus lugares, suas famílias e caíram no mundo e transformaram-se numa massa informe e fétida da qual, vez por outra, vertem os tais vestígios de humanidade, através de gestos de solidariedade e compaixão.

Não pude evitar  a lembrança de uma crônica já velhinha, que escrevi sob o impacto da tragédia ocorrida com o desabamento do edifício Palace, na Barra da Tijuca (RJ), no Carnaval de 1998. Comovida diante das expressões de dor daqueles que, assim como a personagem do romance que acabo de ler, assistiam ao momento da perda de sua própria história.

Naquele texto, dizia eu, uma casa não é um lugar que serve apenas para abrigar pessoas e coisas. Uma casa não é uma simples edificação, mas representa a própria vida de quem a habita, a memória representada por fotografias, livros, suvenires de viagens, fitas,  pétalas de flores, cartões postais, almofadas, objetos insignificantes para olhares desavisados, mas que, junto a lembranças não armazenáveis em quartos, salas ou cozinhas, como gestos, carícias, sons, cheiros, respirações, ritos que ali ficam colados às colunas, portas e paredes, impregnados da energia vital, representam o eixo referencial da própria existência de quem a habita. E foi isso que me fez compreender o gesto tresloucado de Alice

Quarenta dias, escrito na forma de diário e memória, possui um ritmo que obriga o leitor a, ofegante, acompanhar os passos da personagem pelos subterrâneos de uma cidade e de uma mulher, ambos à beira do colapso e da ruína. Um romance que, por força de uma poderosa narrativa, nos põe diante de uma tela na qual pode-se assistir ao que se lê. E que ninguém se iluda com a linguagem (quase) coloquial, aparentemente desprovida de "trabalho". Ser simples desse jeito requer talento literário,  uma vida inteira de dedicação e muito, mas muito trabalho.

6 comentários:

  1. preciosas (e lúcidas) sua impressões me fazem pensar, sem mesmo antes ler o livro, em como ficamos reféns do nosso tempo (ou da sua falta), quase anestesiados, impotentes.

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  2. a liberdade da rotina é fundamental - quero ler este romance vou ler seu comentário é instigante - abraços Constança

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  3. Obrigada pela sugestão, Dalila. Fiquei interessadíssima e vou conferir. Abraço.

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  4. Concordo com sua opinião! Eu também adorei a obra e fiquei tão impactada que ainda nao consegui expressar o tudo de bom que a autora provocou em minha mente. Fatima Barreto - Fpolis (SC)

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