sábado, 24 de outubro de 2020

Das Armadilhas e Janelas da Memória

 

Ao caminhar numa área arborizada do condomínio onde resido, notei que, após os ventos de ontem, a grama ficou salpicada de azuis. Essa imagem e o aroma que ali reinava, abriram mais uma das frestas na minha já tão gasta memória. Sentei-me num dos bancos embaixo do altíssimo jacarandá, fechei os olhos, e vi-me a caminhar pelas ruas do Funchal, minha cidade natal. A memória olfativa aliada aos azuis destravou o trinco e abriu-se a janela armadilha para capturar rizomas.

Em 1999, quando escrevia uma coluna semanal para um jornal de minha região (O Diário do Grande ABC), publiquei a crônica que transcrevo a seguir e que, mais tarde, integrou meu livro “A Vida Crônica”. Desculpem, mas é que fiquei nostálgica, sentimento bem mais português do que a saudade.  




JANELAS DA MEMÓRIA

 

Folheio, com a devida reverência, um alfarrábio de 76 anos  (Antologia de poemas, de Augusto Gil, 1923 – Livraria Bertrand, Lisboa) publicado ainda em vida do então muito popular escritor português. A simples leitura do título do poema Balada na Neve abre-me uma grande janela na memória.

“Batem leve, levemente,

Como quem chama por mim...

Será chuva? Será gente?

Gente não é certamente

E a chuva não bate assim...”

Inexplicavelmente e com facilidade, posso dizer de cor estes e os outros versos do poema. Vejo, ainda, a cena da infância evocada com uma clareza assustadora: fim do ano letivo. Festa. Presença dos pais e autoridades (diretoria da escola, pároco, professores) A menina de 8 ou 9 anos, sobe ao palco e recita Augusto  Gil

“É talvez a ventania;

Mas há pouco, há poucochinho,

Nem uma agulha bulia

Na quieta melancolia

Dos pinheiros do caminho...

Quem bate assim levemente,

Com tão estranha leveza

Que mal se ouve, mal se sente?...

Não é chuva, nem é gente,

Nem é vento, com certeza.

Fui ver a neve caia,

Do azul cinzento do céu,

Branca e leve, branca e fria...

-Há quanto tempo a não via!

E que saudade, Deus meu!

Olho-a através da vidraça

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente e, quando passa,

Os passos imprime e traça

Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais

Da pobre gente que avança,

E noto, por entre os mais,

Os traços miniaturais

Duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos”...

Chorando copiosamente, a menina não consegue terminar o poema. O pároco acode, sobe ao palco, dizendo-se emocionado com a emoção da menina que continua a chorar...

Vingada, a memória apagou de vez o poema. Nem título, nem autor, nem um só verso puderam ser lembrados nos posteriores 40 e poucos anos. Agora, como se um disquete fosse inserido na memória, o poema ressurge, verso, após verso, mas... (e aqui entra o fator que só ao humano pertence) só até o exato trecho que provocou aquela emoção menina diante do infortúnio infantil.

Busco no livro a parte final que a memória novamente recusa

“E descalcinhos, doridos...

A neve deixa inda vê-los,

Primeiro bem definidos ,

-Depois em sulcos compridos,

Porque não podia ergue-los

Que quem já é pecador

Sofra tormentos... enfim!...

Mas as crianças, Senhor,

Porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,

Uma funda turbação

Entra em mim, fica em mim presa,

ai neve na natureza...

E cai no meu coração.”

Apagaram-se alguns versos na memória, mas a menina ficou irremediavelmente fatalizada para a poesia.

 

 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Carta a Giovana Damasceno




Querida Giovana,
Chegou aqui o seu “Alguém para segurar a minha mão” (Penalux, 2020), já há alguns dias. Deixei o envelope na “quarentena” e, quando o abri, deu-se aquele fato estético de que nos fala Borges, não consegui mais fechar. Era noite e mais tarde ficou e eu, livro adentro. Após a 71ª pagina, fui vencida pelo cansaço e tive que aguardar momento mais propício para tomar fôlego para encerrar a leitura, o que ocorreu ontem.
Demos, os que moram aqui comigo, uma trégua no isolamento e fomos para nosso refúgio (quase) secreto, uma casinha perto da serra do mar, cercada de mata atlântica, que já foi minha segunda residência, pois minhas filhas cresceram passando todos os fins-de-semana ali, mas que nos últimos anos deixou de ser. Estava precisada de me reconectar não só com a história do lugar, mas também com a natureza. Esta a 3ª. vez, pois de março a junho, não fui capaz de sair de casa, mas vi que fiz bobagem e, nesse caso, era excesso de zelo.
Levei seu livro e, após o almoço, protegida por toda a energia que dali emana, sentei-me à sombra de uma laranjeira e terminei a leitura. Gostei muitíssimo e digo porquê: primeiro pelo motivo óbvio, você é uma escritora de talento (fato que eu intuía, mas só agora comprovado integralmente);  segundo, porque sempre gostei do gênero “new journalism”, já consagrado por muitos, desde Truman lá,  Euclides aqui, sempre renovado, como neste seu caso, onde realmente o conceito é aplicado de maneira extraordinária, ou seja, o fato jornalístico narrado de forma literária.
Terceiro, porque comecei a me interessar por essa temática, a da “boa morte” desde 2002, quando senti e acompanhei, por mais de dois meses, o sofrimento e agonia de minha mãe, deixada aos cuidados intensivos de um hospital, diante do processo do cuidado “com um corpo”, a meu ver, apenas “um corpo” e o quanto isso trouxe sofrimento a toda a família. Dessa experiência dolorosa, nasceu um pequeno livro, “vestígios” que publiquei um ano depois de cumprido o rito do luto.
Como gostaria, naquele período, ter-me encontrado com alguém como o Dr. José, personagem real do seu livro! Como me senti representada naquelas falas que misturam medicina com espiritualidade e, sobretudo, gestos de muito afeto, delicadeza e humanidade, no respeito ao enfermo e à família! É um tema que me persegue, mas de forma mais aguda, quando tenho que acompanhar alguém próximo naquele lugar funesto, que chamam de UTI. Da última experiência, há dois anos, após uma cirurgia gravíssima e de urgência sofrida por meu marido, com um pós-operatório necessário, sem a mínima possibilidade de cuidados em casa. As anotações daqueles 8 primeiros dias, resultaram num conjunto de poemas que foram enfeixados como encarte no meu último livro, Tempo em Fúria.
Neste tempo que nos cheira a morte (nada natural e possivelmente evitável) e abalado  com ecos, lutos e sofrimentos alheios, fez-me muito bem a leitura do seu livro. Passarei a recomenda-lo a amigos, como forma de reflexão sobre o direito de morrer em paz, com alguém a segurar a sua mão.
Na impossibilidade de redigir uma resenha de seu livro (assim como muitas outras oportunidades de leituras recentes que deixei passar, à espera de um momento mais adequado e que nunca veio por conta da falta de concentração), achei melhor escancarar publicamente  o que senti ao ler seu livro, antes que o impacto passe e, mais uma vez, deixar de dar a conhecer estas impressões de mera leitora.

Grande abraço e admiração, dalila




sábado, 30 de maio de 2020

Livros usados – achados e surpresas



             Por incontáveis vezes, publiquei textos acerca do universo do livro usado, das surpresas ao abrir certos volumes e encontrar  “perdidos” em suas páginas objetos como fotos, cartões postais, bilhetes de ônibus, ingressos de teatro, selos, recados, flores secas, santinhos, calendários, cartas e até chaves, contam histórias de boa parte da história pessoal de quem os leu ou folheou, ou seja, não apenas os rastros de seus antigos proprietários, mas também algumas sincronicidades inesperadas.
            Pois bem, a história de hoje é a seguinte:  aqui chegaram, via correios , três livros encomendados por mim em diferentes sebos abrigados no portal Estante Virtual, onde, para minha desgraça, encontro praticamente tudo o que desejo ou preciso. Ali, possivelmente, compro mais livros para minhas estantes pessoais (a minha conta registra 535 volumes adquiridos) do que vendo pela minha livraria, a Alpharrabio que, aliás, está fechada desde o início de março, inclusive o comércio virtual que, por nossa opção, para não furar o isolamento social.  Assim, não vendo, só compro e alimento meu vício maior que é cheirar livros.


            O primeiro pacote, embrulhado em papel de jornal, traz como remetente um sebo da cidade de Mirandópolis, interior de São Paulo.  Aberto com todo o cuidado (aliás, já pensei em fotografar ou guardar as encantadoras embalagens dos livros que recebo de sebos de todo o Brasil – nenhuma é igual),  foi esse volume da foto, com uma capa absolutamente explícita sobre a ideologia de seu conteúdo. Na cruz, carregada por um homem negro acorrentando, lê-se “Não se pode servir a dois senhores”. A autora, uma “noviça rebelde” que então assinava  M. V. Rezende. “Sem agressividades desnecessárias, com muitas referências estimulantes. Mas desadulterando a memória”, é o que diz o prefácio, assinado por D. Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, MT, outubro de 1980, EHILA – Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina, versão popular, Editora Todos Irmãos, 104 pgs. Numa das ilustrações internas, lê-se a seguinte legenda: “Condenados aos açoites, os escravos eram levados da prisão à Igreja para pedir perdão de seus pecados antes de serem amarrados ao pelourinho e açoitados. Igreja e poder colonial estavam unidos”. 
            O curioso desta história, é que a contrastante manchete do jornal em que o volume veio embalado (capa do “Informativo mensal da Igreja Internacional da Graça Divina”, datada de março de 2001): “Cálculos renais expelidos após a oração”, com a foto do homem contemplado pela oração exibindo as tais pedrinhas. Sem poder deixar de rir, fiz-me a seguinte pergunta: em que raios de escaninho ficou guardado por 19 anos esse jornal evangélico? de onde foi retirado para vir embrulhar um livro publicado 21 anos antes por autora católica,  rebelde, ligada à chamada “teoria da libertação” e neste pandêmico ano, 40 anos depois de sua publicação veio papar em Santo André, SP? Coisa de louco!



            O segundo pacote, igualmente embalado de forma artesanal e cuidadosa junto a uma capa rígida retirada de algum volume danificado com a finalidade de proteger a frágil brochura.  Consta como remetente,  “O Sebo Cultural”, em João Pessoa. “História da classe operária no Brasil – gestação e nascimento 1500 a 1888 – 1º caderno”,  é seu título. Brochura de 50 páginas que, igualmente ao livro anterior, traz uma capa bastante explícita muito diz da ideologia dos que o escreveram. Foi publicado pela Ação Católica Operária, em maio de 1985. Na apresentação desta quarta edição, fala-se que a “ideia de escrever essa História da Classe Operária no Brasil, surgiu no período de 1971 a 1974, quando o Movimento Operário estava aparentemente sufocado pela lei anti-greve e pelo regime repressivo controlando a direção dos Sindicatos  (...) Esta é uma história escrita por trabalhadores, por isso está numa linguagem simples” (aliás, enganosamente “simples”, posto que é bem escrita e extremamente didática -  observação minha), mas não cita nomes dos autores. Não cita, mas uma das autores revelou em recente entrevista, que a brochura de autoria coletiva, teve a sua colaboração, ou seja, a M.V. do outro livro citado, ou melhor, Maria Valéria Rezende, autora hoje largamente reconhecida como ficcionista.
            O terceiro volume, “Antiuniverso”, de Fernando Py, Editora Sette Lebras, 1994, foi adquirido como uma singela forma de preito por seu autor, falecido recentemente,  poeta, crítico e pesquisador literário, que me deu a honra de resenhar dois ou três dos meus livros.



            Pois bem, não era minha intenção escrever um texto tão longo, mas não poderia deixar passar a oportunidade de lhes contar mais uma historiazinha que ilustra estes três casos.
            A minha biblioteca, composta por milhares de livros acumulados ao longo de 60 anos, foi formada por circunstâncias semelhantes a esta, ou seja, uma leitura ou conversa, leva a outra e essa outra leva a outra. Antes, eu anotava em cadernetas os livros “a comprar”, quase sempre fora de catálogo, referidos em obras lidas. Com sorte, fui adquirindo nos sebos que costuma frequentar, pelo menos uma vez por semana. Com a chegada da era cibernética e o comércio virtual, mais precisamente a partir de 2005, anos da criação do portal “Estante Virtual”, por André Garcia, um então jovem estudante carioca que ficou milionário e acabou por vendê-la à Livraria Cultura em 2017. Sem nenhuma visão do comércio de livros usados e já notoriamente falida, a Cultura transformou a EV em outra coisa, permitindo a venda também de livros novos, e conduzindo sua relação com os alfarrabistas com a mesma lógica das “mega”. Como profissional do livro, mantive meu acervo lá, mas reduzi muito as compras particulares. Felizmente, durou pouco a gestão e, em 2019, a Magazine Luiza passou a ser proprietária do portal, quando o mesmo alcançou a impressionante marca diária de 10.000 livros, vendidos por mais 2.500 sebos localizados em todo Brasil. Vibrei com a notícia, pois a “Magalu” é dirigida por uma mulher empresária com ações “socialistas”, nada comprometidas com o neoliberalismo vigente. Voltei a comprar com entusiasmo.  Isso significa que a minha biblioteca cresceu exponencialmente nestes últimos 15 anos, por conta da facilidade e rapidez da compra num simples clic.
            Comigo as compras funcionam assim: estou lendo um livro ou ouvindo alguma pessoa citar determinado livro que me interessou, caso não o possua, vou ali ao computador, e lá está o que preciso (preciso?) e a minha curiosidade manda. Assim foi com estes três livros, cuja compra foi motivada por ouvir Maria Valéria Rezende, numa entrevista recente e pela notícia da morte do Py. A minha “Valeriana” vai, assim, ficando linda e completa, graças, sobretudo, aos sebos destes brasis, guardiões da memória.  dtv

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

LEGADO - George Steiner



LEGADO

“Gostaria de ser recordado como um bom mestre de leitura, alguém que passou a vida a ler com os outros”




Morreu nesta segunda-feira, 03.02.2020, aos 90 anos, o professor, crítico e pensador George Steiner, um verdadeiro Mestre.
Há menos de dois anos, numa bela entrevista que concedeu ao jornal português "Expresso" (ver link no primeiro comentário), disse que “o verdadeiro crime é viver demasiado”. Seu corpo estava cansado, mas a mente lúcida e ligeira de sempre não o abandonou.
Tão logo fui informada de sua morte, fiz o que sempre faço quando um dos escritores de minha predileção parte, ou seja, ponho-me a reler sua obra, neste caso, trechos (os sublinhados, como neste caso). Esta é minha forma de homenagear aqueles que muito me ensinaram, revendo seu legado. Muito aprendi com sua obra, em especial, a tornar-me uma leitora mais aguda, a valorizar o silêncio que o autêntico ato de pensar e criar exigem.
Antes de conhecer propriamente o pensador crítico, conheci boa parte do homem , através do primeiro livro que li dele, ou melhor, sobre ele: “George Steiner: À Luz de si mesmo” (Ed. Perspepectiva , 2003). Trata-se de uma série de entrevistas realizadas por Ramin Jahanbegloo, nas quais Steiner fala de sua formação, de sua família de origem judaica e de seus “exílios” mundo afora, da importância de dominar vários idiomas (para não se sentir tão estrangeiro em qualquer parte) e poder recomeçar a vida em outros países. “Nenhuma paixão desperdiçada (Record, 2001) foi o segundo livro de sua autoria que li e, logo depois o “Gramáticas da criação” (Ed. Globo, 2003).
Em 2009, num momento em que me encontrava em Portugal e me interrogava sobre minha própria identidade e também sobre o que seria ser europeu, caiu-me nas mãos e no olhar (não acredito em acasos, mas em sincronicidades), o seu ensaio “A ideia de Europa” (Gradiva, 2007).
Com estas imprecisas e breves notas, não quero outra coisa senão dizer o quanto esse intelectual e tantos e tantos foram importantes na minha trajetória de leitora e ser humano.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Doutora Honoris Causa II

A notícia da atribuição do título "Doutora Honoris Causa" pela Universidade Federal do ABC - UFABC a Dalila Teles Veras, repercute em Portugal


Doutora Honoris Causa


Título de Doutora Honoris Causa, pela Universidade Federal do ABC – UFABC, para Dalila Isabela Agrela Teles Veras

            Há dias que minha alma encontra-se em estado de embriaguez. O coração acelerado ameaçou arrebentar, caso não compartilhasse com mais gentes, aqui e aos quatro ventos, a razão dessa suprema alegria. Entre os mais próximos, algumas garrafas já foram esvaziadas com brindes nos brindes.
            Após um longo trâmite acadêmico, foi aprovado pelo Conselho Universitário da UFABC – Universidade Federal do ABC, a atribuição do título de DOUTORA HONORIS CAUSA a esta velha poeta.
Confesso que jamais sonhei com uma honraria dessa magnitude e sequer desconfiava que esse processo estivesse em andamento. É realmente uma distinção máxima atribuída por uma Universidade e nem preciso dizer do quanto estou feliz. Espero que os amigos também se alegrem comigo e por mim.

            Ainda não está marcada a data da cerimônia de outorga do título, que deverá ser próxima, mas a UFABC já tornou público, em seu site, todo o histórico do processo da atribuição do título, iniciado em 2016, inclusive com os pareceres de inúmeras pessoas e instituições consultadas. Aos que por ventura estejam interessados, deixo o link abaixo.
O vídeo indiscreto foi gravado por um “paparazzi” amigo que encontrava-se na última fileira da sala onde se reuniam os membros do CEC – Comitê de Extensão e Cultura daquela instituição e dá conta da minha surpresa e emoção quando o Pró-Reitor de Extensão e Cultura, Prof. Dr. Leonardo José Steil, anunciou a decisão do Conselho Universitário.


            Não poderia deixar de fazer um agradecimento público e emocionado aos autores da sugestão de indicação da concessão do título, Profª Dr. Silvia Helena Fracciolla Passarelli, Prof. Dr. Daniel Pansarelli e Prof. Dr. Francisco de Assis Comarú.

Em tempo: em seus 13 anos de existência, a UFABC concedeu apenas 3 títulos de Doutor Honoris Causa e sou a primeira mulher a recebe-lo. Reparto-o, assim, com todas as mulheres, minhas conhecidas ou não, que foram ocultadas por serem mulheres, mas que mereceram outros tantos títulos e honrarias.

Abaixo o link para consulta a todo o processo, no site da UFABC.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Hugo Gallet - o artista residente


Ontem, 15.09, Hugo Gallet, o artista residente que, há anos, faz parte do cenário da Livraria Alpharrabio, aniversariou. Ali pintou e desenhou dezenas e dezenas de trabalhos que sempre impressionam, não só pela técnica admirável (luz, sombra, perspectiva) que domina, mas pela prodigiosa imaginação. Não há, nem nunca houve, modelo nenhum para suas telas ou desenhos em papel, tudo vem do imaginado e da vasta cultura do artista.
Nos últimos dias, andei a mexer em velhos originais e encontro este poemeto, nele inspirado, num diário manuscrito de 2013 que publico abaixo, em forma de singela homenagem ao amigo. Vai também a imagem de seu mais recente e magnífico trabalho. A foto, amadora e de péssima qualidade, é minha, e talvez não dê ideia da maravilha que é esse trabalho, mas serve como convite para apreciá-la ao vivo, pois ainda se encontra no ateliê, digo, na livraria

o pintor e a última
pincelada na biblioteca
imaginária
a espada - punctum
os livros - o campo
cego, para os que
não querem ver
o pintor está cansado
retirou vidas
do seu viver
deu vida a seres
(aparentemente)
inanimados

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Homenagem inesperada, laços consolidados

A intenção da viagem não era propriamente “viajar”, mas pousar/repousar em casas/braços que nos abrigariam, como abrigaram, resgate de memórias/laços de sangue e de afetos.
Após um largo espaço de tempo, retornei ao Piauí (uma de minhas muitas pátrias), desta feita, levando Valdecirio, nascido naquele chão, mais especificamente, em Luzilândia, cidade que já me outorgou o título de cidadã honorária.
Após um longo período enfermo, Valdecirio, ainda fragilizado fisicamente, mas em ótima recuperação, viajou para abraçar os oito irmãos, os muitos sobrinhos e dezenas de familiares e amigos, além de sentir o sol/solo natal. Não só sentiu, como voltou/voltamos revigorados.
Uma viagem sem grande planejamento, decidida poucos dias antes, mas que se cumpriu para além do pensado e desejado.
Acompanhados de nossa sempre fiel e querida escudeira Luzia Maninha, lá ficamos por apenas seis dias, mais dois a viajar, na ida e na volta. O que eu não imaginava é que essa breve viagem, carregada de tantos sentidos e significados pessoais e familiares, também se transformaria num belo e gratificante momento literário.
Tinha reservado apenas algumas horas (quase) livres para o encontro com alguns amigos escritores  na Livraria Toccata, visita sempre obrigatória (obrigada, grandes anfitriãs, Socorro e Rita Vaz!) e, claro, também uma visita ao Mercado velho, lugar mágico, que jamais deixei de visitar nas dezenas de vezes que estive em Teresina, como de fato aconteceu.
Compromissos familiares cumpridos, inclusive com uma esticada de três dias a Luzilândia, a mais de 200 km de Teresina, deu-se o inesperado no campo literário.
Alguns amigos, liderados pelo poeta e agitador cultural Dudu Galisa (já por mim nomeado meu "agente literário" em Teresina, rss), mobilizaram-se e convocaram seus pares a participarem do já tradicional “Café Literário”, comandado pelo Professor e escritor Wellington Soares, na Livraria Anchieta, em Teresina, para uma inesperada e muito honrosa homenagem a esta poeta, ao lado de leituras em homenagem à grande Hilda Hilst. Necessário sublinhar que o Café/Sarau acontece uma vez por mês, na segunda quarta-feira e, neste caso, foi antecipado para que eu lá pudesse estar (motivo de honra maior), pois viajaria de retorno a SP, justamente no dia seguinte, quarta-feira.
Assim, no dia 10.09, uma tórrida terça-feira, temperatura chegando perto dos 40 graus,  recebi o igualmente caloroso acolhimento de um público surpreendente, incluindo notáveis nomes das letras.  Foi um memorável e fraterno momento que irá para a galeria principal das recordações de minha trajetória literária e de afetos.
Senti-me muito prestigiada ao ser apresentada por Wellington Soares e Thiago E, nomes da maior expressão artística e literária. Abracei velhos amigos camaradas das letras, como Cineas Santos, um nome já incluído na galeria central da cultura e das letras piauienses, que desde o lançamento do meu primeiro livro me acolheu várias vezes em sua lendária Livraria Corisco, onde fui apresentada a vários outros nomes da literatura piauiense, editados ou não pela Editora do mesmo nome.
Como citei na minha fala, recordo que nas inúmeras visitas anuais a Teresina durante todos os anos 80, encontrava-me na faixa entre os trinta e seis e quarenta anos, mas eram prestigiadas por escritores numa faixa etária bem superior à minha, sendo que as exceções foram Cineas Santos, Kenard Kruel, o saudoso Ramsés Ramos e Rubervam du Nascimento. Hoje, de maneira surpreendente e muito, muito gratificante, passo a dialogar com jovens na mesma minha faixa etária de então, o que mostra que essa coisa de “geração literária” não existe. Foram esses, muitos deles até o momento, para mim, apenas livros, que se “materializaram” nesse mágico encontro, em abraços, camaradagem e trocas poéticas das melhores.
Como não citar Demetrios Galvão? o primeiro poeta e editor com quem travei conhecimento, em novembro de 2015 e que veio a formar este “novo ciclo fraterno piauiense”, juntando-se  aos remanescentes de há mais de 30 anos. O encontro com Demetrios aconteceu  durante o 2º Fliáguas (Festival Literário das Águas), decorrido em Luzilândia, PI, para o qual fomos convidados a integrar a mesma mesa de debates. A partir daí, através dos caminhos criados por uma (quase) natural teia, em tempos de comunicação em redes, através da qual fui agregando outros nomes.
Registro alguns desses nomes, ali presentes, em corpo, poesia e palavra:
Wellington Soares, Cineas Santos, André Gonçalves, Samaria Andrade, Thiago E, Marleide Lins, Dudu Galisa, Carvalho Junior, Raimundo Uchôa Araújo, Isis Baião (Isis Maria Pereira de Azevedo Baião), Hildalene Pinheiro, Carlos Galvão, Paula Selma, Ana Villa, bem como Erica Marinho, proprietária da livraria, a quem também muito agradeço pela simpática acolhida.
Indispensável também registrar a presença dos familiares Teles Veras?: Vilma, Teresinha, Vânia, Edmilson, Efigenia, Davi, Nayra, Rafael, Cleonice, Neulsa, Lena.
O encontro foi animado pela bela voz de GabiGabriela e o violão de Geraldo Brito, nomes assíduos da cena musical teresinense.
Espero não ter esquecido outros nomes que, eventualmente não gravei, mas que por sua gentil participação ficaram igualmente gravados na memória afetiva.
Pela postura explícita dos escritores e artistas que ali estavam e se manifestaram (eu incluída) o encontro acaba também por se tornar um ato político e necessário.
Posso dizer que esta homenagem resultou, para mim, num momento epifânico, no sentido mais amplo de liturgia e comunhão, ainda que, neste caso, laica (mas sem deixar o sentido do sagrado de lado, até porque a camaradagem fraterna e coletiva se aproxima dessa dimensão).
Voltei em estado de graça, energizada no meu melhor (literário e humano).
O meu agradecimento profundo a todos os citados, mais os que não foram, mas sabem que estão. (dtv)   

Com o organizador e "mestre de cerimônias" do Café Literário, Wellington Soares

Apresentação de "uma carta de amor", Thiago E

Diálogo poético

a poeta lê os seus poemas

Comentário crítico e leitura de poema por Cineas Santos

Welligton Soares e Raimundo Uchôa Araújo

Hildalene Pinheiro

André Gonçalves e Samaria Andrade


Com Marleide Lins

Thiago E, DTV, Marleide Lins e Demetrios Galvão

Marleide Lins, Cineas Santos, Thiago E, Valdecirio Teles Veras e Demetrios Galvão

GabiGabriela e Geraldo Brito

Carvalho Junior, Wellington Soares, DTV, Dudu Galisa, Hildalene e Thiago E


registro fotográfico Luzia Maninha (que, como sempre, não apareceu nas fotos)

ENCONTROS FAMILIARES (Festas!)




















sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Busca por novas formas de fazer política



Você sabe o que é uma “Bancada Ativista” e o que significa um mandato coletivo, com uma deputada eleita e outros oito CoDeputados com direito a propostas e elaboração de decretos? Pois foi isso que aprendi ontem em detalhes, durante uma reunião do Movimento em Santo André que tenta construir algo semelhante à bela experiência de São Paulo, Capital.
Foi assim:
Monica Cristina Seixas Bonfim, Deputada estadual por São Paulo, ou simplesmente Mônica Seixas ou, ainda, “Mônica da Bancada Ativista da Assembleia Legislativa de SP”, seu nome parlamentar e como é conhecida e reconhecida.
Jornalista, redatora, 33 anos. Fala mansa, mas segura, expressão e clareza no discurso, a CoDeputada compareceu, ontem, quinta-feira, 22.8.19, à III Assembleia do Movimento local, realizada nas dependências da Livraria Alpharrabio, que a convidou para falar de sua experiência nesse modelo coletivo de mandato, algo ainda muito novo e desconhecido entre a maioria.
Nas eleições de 2018, foi eleita deputada estadual por São Paulo, através dessa nova  modalidade de campanha, a primeira vez que uma candidatura coletiva foi eleita no estado de São Paulo.
A Bancada Ativista é formada por nove ativistas políticos de diversas áreas: Anne Rammi, ciclista e ativista de causas ligadas à maternidade; Chirley Pankará, indígena e pedagoga; Claudia Visoni, jornalista, ambientalista e agricultora urbana; Erika Hilton, transexual, negra e ativista de direitos humanos; Fernando Ferrari, militante da juventude periférica e da participação popular no orçamento público; Jesus dos Santos, militante da, da comunicação e do movimento negro; Paula Aparecida, professora da rede pública, feminista e ativista pelos direitos dos animais; e Raquel Marques, sanistarista, ativista pela equidade de gênero e do parto humanizado.  Obteve 149.844 votos, totalizados 0,72% dos votos válidos, a primeira vez que alguém se elege em SP, com esse modelo de mandato.


Mônica iniciou sua fala, pedindo à roda que fizesse perguntas. Anotou e foi encaixando respostas para todas elas, num longo, mas fascinante depoimento, do qual extraí os trechos abaixo:
Apresentou-se: - “preta, mãe, favelada, histórico de violência dos pais, do casamento...  militância política, por necessidade vital e circunstancial, desde os 13 anos de idade. Desde cedo, sabia que minha presença, minha fala, meu corpo...  era incômodo. Já são 20 anos de militância. 2016, em minha primeira candidatura, 2016, fui candidata a Prefeita de minha cidade, Itú (interior de São Paulo), uma cidade reacionária, com um partido monárquico forte. “
- “Eu acredito numa série de coisas e uma delas é de que podemos mudar a forma de encarar a política de forma polarizada, ou seja, apenas como coisa de doutores ou coisa corruptos. A candidatura coletiva não é contra partidos, mas contra fisiologismos”.
“A Bancada Ativista nasce em 2016, como curadoria, ou seja, ajuda de todos em tudo, comunicação, parte jurídica, arrecadação de fundos, etc. No início, eram 15 CoCandidatos, sem experiência nem recursos, preocupados em saber quais seriam os desafios de um mandato coletivo. Com o avançar das coisas, ficaram 9 candidatos, todos referência em suas respectivas áreas, sendo eu a escolhida para concorrer à cadeira, após um longo e exaustivo processo de discussões. Após a eleição, os nove assumiram conjuntamente o mandato. Não trabalhamos com consenso, mas consentimento, ou seja, até o momento em que alguém diga o seguinte:  -Até aqui eu fico confortável ou “pra mim não dá”. Aí para tudo, volta-se à discussão, chama-se mais gente, promovemos debate público até que haja o consentimento de todos. É uma forma de humanizar relações e afetos. Respeitar as diversas e diferentes bagagens”.
- “Assim, eu não sou deputada, não falo em meu nome, o mandato é coletivo. E isso já ficou claro para todo mundo. Somos 9 deputados, mas sem as “vantagens” que um deputado teria. Tudo é discutido e dividido em conjunto. Ora sou figura pública, ora sou assessora de mim mesma. Nosso mandato é maior que nós”.
 - “A civilização precisa de um novo passo. Vivemos uma crise sem precedentes. Cultural, econômica, civilizatória. É o fim da Nova República no Brasil. No mundo, o centro está esvaziado e prevalece a polarização, esquerda e direita”.
- “A Bancada ativista é um movimento de experiência e de renovação. Não é coligação, mas movimento de fissura histórica. Uma nova forma de política, de observar e colocar o centro do cotidiano no centro do poder. A periferia é o centro e suas pautas periféricas, mulheres, feminismo, jovens, movimento negros, LGBTs, etc. O que está pensando a periferia? Colocar a periferia no cento do debate. Sim, é preciso observar. Eles fazem isso com a gente o tempo todo.”


E a conversa, num clima de camaradagem fraterna e muitos questionamentos, entrou noite adentro, com a luxuosa contribuição do músico Fernando Neves que nos fez canta Clube da Esquina.
A clareza e o didatismo sobre a construção da Bancada foi brilhante. Fiquei mais confiante no futuro. Se alguma coisa acontecer para melhor no panorama político brasileiro, será pela cabeça, mãos e pernas de políticos como a Mônica que redime a política no seu mais amplo e verdadeiro sentido.
Quando, Neri Silvestre e Sandro Nicodemo, entusiastas e incansáveis lutadores por novas formas de fazer política e pensar políticas públicas, me procuram em nome do Movimento para solicitar que a livraria acolhesse esse encontro, estava curiosa para ouvi-los, mas não fazia ideia do quanto me faria bem essa noite.
Saí da livraria revigorada. O desânimo que vem me acometendo desde janeiro, amenizado pela presença de tanta gente bacana, jovens, na sua maioria, das mais diversas formações (músicos, artistas, professores, sociólogos, enfim...) ativistas que há anos lutam por causas as mais diversas e pulsantes, dispostos a contribuir com uma sociedade mais igualitária e menos violenta. Mesmo que isso não resulte numa candidatura exatamente na mesma modalidade da Banca Ativista de São Paulo, tenho certeza que a experiência acumulada no processo, muito servirá de aprendizado e bagagem para o futuro.
O processo democrático e coletivo é árduo, difícil, requer dedicação praticamente integral, mas como disse Mônica, “Política é paixão” e serão esses apaixonados pela prática da verdadeira política, aquela voltada para os interesses da polis que poderão fazer avançar o desejo de uma sociedade menos desigual e violenta. (dtv)

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Um posfácio de dtv a título de "documento acadêmico"

Zapeando pelo Goole, encontrei um texto meu, publicado em meu livro À Janela dos Dias, a título de posfácio, como "exemplo de posfácio", na obra "Documentos Acadêmicos". Eu? na Academia? Citada como "exemplo"? Noutro dia, uma crônica minha (vi também pelo Google) foi tema de vestibular de língua portuguesa...
Achei curioso (vaidade? Talvez...)

Livro: "Documentos Acadêmicos: um padrão de Qualidade", Editora Universitária - Universidade Federal de Pernambuco.
Autores: Maria Aparecida Esteves Caldas, Maria Marinês Gomes Vidal, Maria Valeria B. de Abreu Vasconcelos e Luiz Carlos Carvalho de Castro.

Link para a Matéria (pdf) no Google 

sábado, 10 de agosto de 2019

Da Série Objetos com História - II - Agasalhar com a alma




Hoje foi dia de usar a echarpe que pertenceu a minha mãe, Maria Lourdes Olival Agrela, falecida em 2002. Quando tive que exercer a dolorosa ação de doar os seus objetos pessoais (poucos por sinal, roupas, sapatos, enfim), não resisti e guardei duas ou três peças que, além dos vasos de orquídea que até hoje florescem sem os seus cuidados e os descuidados meus, materializam ainda sua presença de uma determinada forma que só a mim faz sentido.

Não sou apegada a bens materiais, mas acabo guardando muitas coisas, não por seu valor monetário, mas pela simbologia da memória que faz parte de minha trajetória de vida. Uma delas é esta echarpe, da qual gosto muito (foi presente meu para ela que, ao contrário de mim, era calorenta e pouco se agasalhava, razão pela qual, a peça é de um tecido leve, mais para ornamentar do que agasalhar)

Como pouco vou ao cemitério, estabeleci algumas formas de homenagear meus mortos queridos e diminuir a saudade que deixaram. O uso desta echarpe, em dias de necessidade de afeto maternal, é uma delas. Além de homenagear, também me acalenta e embala. Quando contei isso a minha amiga argentina Margarita Lo Russo, ela me disse que existia uma bela palavra em seu idioma materno que bem definiria este gesto: “apapachar”, ou seja, “abraçar ou agasalhar com a alma”. Achei isso tão bonito que passei a usar a peça mais vezes, pois, assim, além de relembrar a mãe, agasalhando-me de ternura, homenageio igualmente este belíssimo vocábulo apapachar

domingo, 4 de agosto de 2019

Da série "Objetos com história" - Meu casaco húngaro


Hoje vesti meu casaco húngaro, adquirido numa visita a Budapest, em 2005, e que me acompanha desde então. Sempre que preciso de energias e por inexplicável razão simbólica (talvez por ser tecido em tear manual, talvez por sua estampa florida e seus botões de ferro...), visto-o e é como se proferisse uma palavra mágica, do tipo “shazam”, para passar o restante do dia com a sensação de cavalgar o dia, feito os “ginetes apocalípticos” daquela terra de fronteiras constantemente alteradas. Os objetos possuem poder.



Abaixo um poema que fiz à época, dedicado àquele povo e que integra um livro inédito e há anos, sempre “in progress”, cujo título, provisório é poemas errantes ou viagens na minha e outras terras:

Magyarország e sua língua

a velha magyarország

século após século
desde sua fundação
no século IX, foi
ocupada / dominada
por romanos,
celtas, eslavos
otomanos, turcos
hunos e russos

do fausto do império
à utopia do comunismo
a hungria cigana
hoje experimenta
a democracia, enfrenta
globalização e consumismo
(nova ameaça)

Dessa história toda
ficou-me a imagem mítica
dos “ginetes apocalípticos”
que cavalgaram dia e noite
comeram a si mesmos
pela conquista da terra
e da própria identidade
cravaram “magyar”
no próprio peito e
nas terras conquistadas
construíram uma língua
que é só deles
sem parentescos
- singular patrimônio




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A poeta e sua memória na UFABC


A minha história pessoal está indelevelmente ligada à história da região onde vivo e trabalho há 46 anos, o ABC, região metropolitana de São Paulo.           

Compulsiva, tenho por hábito recolher, registrar e guardar aquilo que por mim passa. Tanto é verdade, que estou virando peça de Museu. Essa condição, mais o mergulho na memória desta minha quase insana trajetória de ativismo cultural, ainda que o  reconhecimento seja desejável e honroso, não tem sido fácil.
            
O questionamento e a certeza de saber que isto, via de regra, acontece, após ultrapassarmos il mezzo del cammin di nostras vitas que, no meu caso, há muito já ultrapassei, aponta para a certeza da inevitável finitude. O vídeo do link abaixo, é um teaser retirado das mais de 12 horas de depoimentos que gravei para a equipe da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, e fala desses “compartimentos” diversos dos meus campos de atuação e interesse.

            
Juntamente com uma parcela do acervo do Núcleo Alpharrabio de Referência e Memória, esse material de história oral (a minha) fará parte do recém-criado Departamento Histórico e Cultural da Universidade Federal do Grande ABC - UFABC. Sou imensamente grata à Profª Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky, que desde 2013 muito se empenhou para que seu projeto inicial de pesquisar, conservar e preservar esse acervo hoje venha se tornando uma realidade.

            
Entretanto, sem a jovem e entusiasmada equipe da Pró-Extensão e Cultura da UFABC, PROEC, composta de servidores, estudantes, estagiários e voluntários, tão competentemente coordenada pela historiadora e servidora daquela Instituição, Caroline Silvério, responsável pelo setor de Ações e Projetos, provavelmente não teríamos chegado até aqui da linda maneira que chegamos, com este projeto transformado em Ação Estratégica daquela Pró-Reitoria, ou seja, sem depender mais da concorrência a editais. Estou feliz, agradecida e, naturalmente preocupada, pois dificilmente um projeto como esse é para ser concluído em décadas e tenho dúvidas se posso contar em “décadas” os anos que me restam. De qualquer forma, os primeiros passos foram dados e isso já é muito.


Deixo aqui o meu “Bem haja” a todos/todas que acreditaram e seguem persistindo na utopia da valorização do patrimônio e da memória. 

http://cursos.ufabc.edu.br/digitalplural/arquivo-historico-cultural-do-abc/arquivos/videos/?fbclid=IwAR359nXp695RmdYDFC65KyvSW4fGBavHtxE9LNHNIlLGX_0NMJ_4h8ugZ98


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

sobre poesia, ainda - testemunho a 50 vozes






Em minhas mãos, este belo volume, saído do forno, cheirando a tinta fresca.
O que pensam 50 poetas brasileiros sobre poesia. Vozes dissonantes, mas coral afinado com a diversidade do pensar e do fazer. Um quase manifesto, testemunhos.
Muita honra e alegria em participar desta obra, ao lado de tanta gente que leio e admiro.

Em 2015, o poeta Tarso de Melo, irrequieto pensador e articulador dos mais incríveis projetos literários, elaborou uma curta enquete, que denominou "sobre poesia, ainda" e   enviou as mesmas cinco breves/agudas perguntas a poetas seus amigos de idades, origens e tendências diversas, de vários estados brasileiros. À medida que as respostas foram chegando, ele as foi publicando no blog “Contra tanto silêncio”. Ao conjunto inicial publicado no blog (28 poetas), juntou-se outro de inéditos, totalizando um timaço que resultou neste “Sobre poesia, ainda – cinco perguntas, cinquenta poetas”, cuidadosa e elegantemente editado pela Lume Editor, organizado e apresentado pelo próprio Tarso, orelhas de Renan Nuernberger e um primoroso posfácio a duas vozes, de Diana Junkes e Fábio Weintraub.
“No fundo, diante de tanto horror, a própria reunião dessas vozes (des)encontradas é um sinal positivo que parece dizer: somos diversos e ainda estamos vivos.” RN, na orelha do livro.

Poetas que integram o livro:

Adelaide Ivánova, Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Ana Estaregui, Ana Rüsche, André Luiz Pinto, Andréa Catrópa, Annita Costa Malufe, Antonio Moura, Bruna Beber, Bruna Mitrano, Carla Diacov, Carlos Augusto Lima, Carlos Ávila, Carlos Felipe Moisés, Casé Lontra Marques, Dalila Teles Veras, Danielle Magalhães, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Edimilson De Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Fernando Fiorese, Guilherme Gontijo Flores, Heitor Ferraz Mello, Helio Neri, Júlia De Carvalho Hansen, Júlia Studart, Leila Guenther, Leonardo Gandolfi, Lilian Aquino, Lubi Prates, Lucas Bronzatto, Manoel Ricardo de Lima, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nina Rizzi, Pádua Fernandes, Paulo Ferraz, Prisca Agustoni, Reynaldo Damazio, Ricardo Aleixo, Ronald Polito, Ruy Proença, Sérgio Alcides, Sergio Cohn, Simone Brantes, Thiago E, Thiago Ponce de Moraes e Yasmin Nigri.

Observação autorreferente e possivelmente sem nenhuma utilidade prática:

Fui a 9ª a responder às perguntas (respostas publicados no blog em 07.04.2015 – link no primeiro comentário) Mérito nenhum nisso. A pressa foi motivada pelo desejo de me desincumbir de uma tarefa na qual não me sentia nada confortável. Afinal, dentre as “feras” que responderam antes de mim, estava o saudoso Carlos Felipe Moisés, imenso poeta, reconhecido crítico e pensador admirável a quem, merecidamente, a obra é dedicada. Responsabilidade monstra! Fui a primeira mulher a enviar as respostas e  permaneci a única mulher dentre os primeiros 23 poetas publicados no blog o que me causava bastante inquietação, ainda que o organizador me acalmasse dizendo que viriam, como vieram. Finalmente, um bom equilíbrio: 21 mulheres e 29 homens, uma novidade em obras deste gênero, graças ao empenho do organizador que, desde o início demonstrou preocupação com essa questão (as vozes femininas em igualdade de condições).

Observação II 
a)- A quem interessado esteja, temos alguns exemplares disponíveis para venda na livraria Alpharrabio (pedidos para virtual@alpharrabio.com.br). 
b)- Como aperitivo, acesse o blog Contra tanto silêncio:

 (dtv)



terça-feira, 27 de novembro de 2018

Espera, de Luzia Maninha - poesia plástica

















Acostumada, por questões de escolha e personalidade,  a manter-se nos bastidores, distante dos holofotes que, via de regra, ela mesma projeta no sentido de iluminar a arte daqueles a quem admira, Luzia Maninha Teles Veras é artista de reconhecido talento, ainda que relute em assumir-se como tal.
Além da impecável produção gráfica de livros, em especial os de caráter artesanal, prática a que se dedica há duas décadas, suas fotos frequentemente chamam atenção pelo inusitado do olhar. 
Após muita insistência de amigos que há anos a instigam a publicar, finalmente torna público este trabalho, apropriadamente denominado espera, sétimo volume da “Coleção PerVersas – literatura de autoria feminina”, Alpharrabio Edições, da qual é responsável pela concepção gráfica e criação manual,  desde o primeiro número.
“Bloco de imagens” é como a própria autora classifica este pequeno ensaio, conjunto de instantâneos de celular. Muito mais que mera reunião aleatória de imagens, capturadas sempre com muita criatividade e delicadeza, o que se tem aqui é poderosa narrativa poética que bem poderíamos chamar de poesia plástica ou, melhor ainda, imagens haicais. Afinal, Maninha vale-se de ferramentas próprias da artesania do poema, para compor imagens que se aproximam do poema breve. Concisão e exercício contemplativo aproximam este trabalho da arte japonesa do haicai, a partir do próprio título que remete à questão tempo, outra característica do haicai.  É também próprio da língua da poesia, a transfiguração do real em imagem abstrata ou de múltipla interpretação que, como neste caso, captura o que estava fora e revela o que estava oculto.
Ao aproximar a câmera do detalhe, escolher o enquadramento, excluindo o plano geral que a tornaria concreta, a autora faz com que a imagem passe para o campo abstrato do imaginário.  A forma como, cuidadosamente,  foram encadeadas as imagens/poemas representa escolhas de linguagem, a qual sugere e propicia interpretações plurais.
Aquí, o já visto pelo olhar distraído de tantos, passa a ser visto pela vez primeira, transmutação pela arte, sem barreira alguma que a defina em gênero ou escola.
À subjetividade de doze imagens meticulosamente selecionadas, a fotógrafa juntou três instantâneos figurativos  (o primeiro e os dois últimos) que, sem o facilitismo de apontar ou direcionar olhares ou interpretações, antes, marcas sugeridas do humano, reforçam e dão consistência à narrativa. 
Não por acaso, o posfácio de autoria de Deise Assumpção, apresenta-se em forma de poema. Não por acaso, a imagem na tira da capa revela a claridade da palavra “espera” e mantém quase diluída, sobre fundo abstrato, a grafia do nome da autora, mestra na arte da tentativa de desaparição. Nada, portanto, aqui é por acaso. O conjunto foi pensado, artística e harmoniosamente, como peça única.
De nada (ou de muito) adiantou o esforço em manter-se atrás das cortinas da arte. Luzia Maninha, com este pequeno/enorme artefato gráfico/artístico, adentra num caminho sem volta e fica a nos dever, desde já e sem direito a espera, outros e outros “blocos”, edifícios inteiros que a sua sensibilidade haverá de revelar e construir.
                                                              dalila teles veras

em tempo: se difícil foi convencer a publicar, mais difícil é convencer a autora a promover uma apresentação pública da obra.