domingo, 27 de julho de 2014

Memória e poesia - um depoimento

Pronunciamento de Dalila Teles Veras durante a mesa de debates "Atuação cultural, política e coletiva - redimensionando a memória" no Ciclo de Palestras Tramas de Ideias, dentro do projeto Alinhavando Pontos da Memória Andreense, do Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras, no Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa, em  16.07.2014


Se me permitem, inicio com algumas frases retiradas da peça "Ponto Segredo" e que de muito me servem neste momento: "o problema é o começo".
Para quem, como eu, se propôs a alinhavar os pontos entre memória, literatura e atuação e dos quantos nós foi/é preciso para re-ligar o que se encontra separado, ou seja, o pensar e o fazer valer o pensado, através de atuações coletivas e propostas de políticas públicas da memória e da cultura, de muita valia também, esta outra preciosa frase "linha boa é aquela que enrosca".
Sem medo de me enroscar, corro esse risco e peço-lhes permissão para falar aqui de poesia. Sim, porque sou poeta e faço da poesia minha principal expressão, ainda que o ativismo cultural, por lidar com questões coletivas, por vezes apague na memória de minha cidade este meu ofício. Mas ao falar de poesia é de memória que estarei a falar.

Antes, um pequeno preâmbulo: nasci em Portugal, na Ilha da Madeira de onde vim menina, aos 11 anos de idade. Resido em Santo André desde 1972. Sou, portanto, uma escritora brasileira que nasceu em Portugal.
Todo aquele que emigra é sempre um desterritorializado, estrangeiro sempre em toda a parte. Minha mãe, que atravessou o Atlântico em 1957, na terceira classe de um transatlântico com o emblemático nome de Santa Maria, sem saber que era a viagem definitiva e sem retorno, foi sempre, ainda que aclimatada ao novo mundo, uma "estrangeira". Não guardava nada. Viajou carregada pelo marido sempre à busca de novos horizontes, carregando os filhos  e o essencial, deixando seus pertences e sua primeira história para trás, para sempre.
Talvez por medo de vir a ter que deixar tudo novamente, não guardava nada, não acumulou mais nada até o fim de sua vida, aos 77 anos. Seu espólio resumia-se a uma caixa de sapatos com alguns documentos.
No meu caso, ocorreu exatamente o contrário, passei a juntar coisas, tudo aquilo que pudesse representar a minha própria memória, minha passagem, minhas vivências e também as de outros, como é o caso dos milhares de livros e documentos que constituem o acervo do Abecês - Núcleo Alpharrabio de Referência e Memória, que fui juntando ao longo de minha vivência na região do ABC e que hoje, abrigado nas dependências da Livraria Alpharrabio, está disponibilizado à pesquisa.
Voltando ao meu caso, é a memória dessa memória do desterro cultural que me impulsiona o registro.   O impulso de guardar talvez como compensação do perdido, a ânsia de re-ligar aquilo que a ruptura e o Choque cultural desligou.
Assim, tenho feito de minhas memórias pessoais, não só as passadas, mas as presentes, a minha relação com a urbanidade, um exercício estético. Memória recriada, tratada esteticamente como literatura (crônica e poesia). Textos e poemas publicado em jornais, revistas, blogs, redes sociais e livros estão impregnados dessas minhas vivências.
Eu e minhas circunstâncias - a memória e a cidade como matéria de poesia.
Como estou concluindo um livro de poemas ao qual dei o título "Solidões da Memórias", achei que haveria alguma pertinência complementar esta minha fala com alguns desses poemas inéditos, exemplificando com poesia aqui o que pretendia demonstrar, ou seja, a presença da memória na elaboração da poesia. Aviso, antes, que esta é a primeira vez que leio em voz alta e em público estes poemas. Com a devida licença, faço-os minhas cobaias poéticas.

Inicio com este poema que abre o livro e que nasceu da ideia do "rizoma" e deu origem ao projeto do livro:

rizoma
    
            "vestígios de pegadas nas areias, / restos d´ossos roídos e d´espinhas"
                            António Barahona


a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia

vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio

(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
- revivências)

a memória da infância
é a memória possível
(e só à poesia cabe recriar)

Foi em 2012, revisitando a Ilha da Madeira, quando anotei na primeira página da minha caderneta de viagem, a palavra "Rizoma" e o verbete dessa palavra no Dicionário Aurélio, seguido dos questionamentos: rizoma ilhéu? rizoma português? rizoma íquido?
raízes aéreas? marítimas?
No final da viagem, escrevi, a lápis, como sempre faço, um texto que, vim a descobrir depois, continha todo o "roteiro" para os poemas que viriam a compor o livro, todos voltados para esse "rizoma", ou seja, o meu período de formação como ser humano, minha infância na terra natal, culminando com a ruptura da travessia e o choque cultural da nova terra de adoção.
Neste poema, a evocação do aprendizado através da correspondência com os parentes distantes:


posta restante

       "Há muito tempo, sim, que não te escrevo./ Ficaram velhas todas as notícias."
                                      Carlos Drummond de Andrade

tempo de ruas sem nome
casas sem número
e pregão semanal

no modesto prédio dos correios
um a um, os envelopes
passavam às mãos dos destinatários
a chama da saudade atiçada pelas
bandeirinhas coloridas
e a frustrante incapacidade na
decifração dos códigos envelopados

a menina (verdes letras) aceitava
ela também aos sobressaltos
a incumbência da leitura das missivas
garranchos, invariavelmente iniciados
com esta saudação formal

rogo a deus que estas mal traçadas linhas
te encontrem e a todos os teus de boa e feliz saúde
que a minha é sofrível graças a deus

(em sua atávica melancolia
o insular rejeita a euforia
-  entregar-se ao sofrer é sua forma
de estar no mundo, fadário)

em lamúrias e promessas de regresso
prosseguia a ladainha (apaziguamento
                 da culpa pela ausência)

na impossibilidade 
da elucidação das epístolas
cabia à menina inventar
substituir a palavra oculta
por verossímeis notícias

fatalizada para sempre
                       ficaria

Coincidentemente também com epígrafe do nosso Drummond (todos os poemas do livro trazem epígrafes de poetas portugueses e brasileiros com quem estabeleço interesses em matéria de linguagem e poesia) este poema, a título de autorretrato:

confidência da madeirense
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
                 " Alguns anos vivi em Itabira. / Principalmente nasci em Itabira. / Por isso sou triste, /                                                          orgulhoso: de ferro."
                         Carlos Drummond de Andrade


alguns anos vivi na madeira
principalmente nasci na madeira
por isso sou melancólica, teimosa: urze
de nascença, em luta frente às intempéries
(do solo, do vento e das vagas marítimas)
alma em permanente desassossegar

da madeira nada de material veio comigo
e não há nada que eu possa ofertar
mas da madeira vem este ar atrevido
a língua maldicente e áspera
e o hábito de tudo reclamar
atavismos que a consciência, por vezes
                                 rejeita

a madeira não é apenas fotografias
é a memória real dos precipícios
                            e das vertigens
encordoamento 
        do que não parecia lembrado
                             mas é
a memória do que não foi
                       mas poderia
e sequer dói


E retomando mais uma fala da bela dramaturgia da peça Pontos Segredo, "cansa lembrar, dizer das coisas guardadas", vou encerrando por aqui, ainda que não esteja cansada, mas com receio de cansa-los.


A título de esclarecimento: a minha fala naquele momento não foi exatamente a deste texto. A fala se deu a partir de um roteiro previamente estabelecido por mim que viria a constituir a "espinha dorsal" do que seria dito, a mesma "espinha dorsal" do que agora está escrito, como memória daquele momento, compartilhado com o ativista cultural Neri Silvestre, com a mediadora "fiandeira" Roberta Marcolin Garcia e o público ali presente. A intenção de passar aquela palavra oral para esta palavra escrita não é outra senão a de compartilhar com mais gentes algumas das ideias e poemas que foram ali compartilhadas. 

8 comentários:

  1. Depoimento e poemas emocionantes, Dalila Teles Veras! Que privilégio tê-la como companheira de caminhada!

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    1. dalila teles veras30 de julho de 2014 09:47

      O privilégio é todo meu, cara Adélia. Obrigada

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  2. Dalila, querida, obrigada por carinhosamente registrar e compartilhar este seu depoimento. Cada vez mais nos inspiramos nesta parceria, gratidão imensa

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    1. dalila teles veras30 de julho de 2014 09:48

      Compartilhemos, todos nós, sempre. Obrigada Camila.

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  3. Roberta Marcolin Garcia28 de julho de 2014 19:03

    Relendo e lembrando o quanto foram boas as reflexões daquela noite! Depoimento que inspira a registrar mais e mais nossos encontros, nossas memórias. Gratidão, por ter pessoas como você ao nosso lado!

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    1. dalila teles veras30 de julho de 2014 09:49

      Lembrar, refletir e partilhar... eis a missão. Abraço grato Roberta

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  4. emocionei-me! como emocionei-me ao ler o livro. na passagem onde você fala da mãe lembrei da minha e da minha história, e de como se impõe resgatar a minha própria. o seu depoimento vai puxando fios que, sinto, preciso re-ligar na minha própria história. não é inveja desse seu precioso e rico projeto, que provoca lembranças e memórias que querem se resgatar. é, antes, uma provocação a que não sei fugir. falta o (re)conhecimento das raízes. lembro-me de muitas vezes ter afirmado acreditar na poesia como registro histórico, e agora, depois do seu depoimento, também memória. ah, e seu texto está melhor do que nunca!

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    1. dalila teles veras30 de julho de 2014 09:46

      Rosana, caríssima... a sua leitura é que sempre me "emociona", porque é, desde décadas, sempre esperada e recebida com expectativa porque nem sempre é elogio, por vezes, crítica também. Gratíssima, uma vez mais.

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