sábado, 14 de junho de 2014

Dia de Portugal em São Paulo - Vexatória comemoração

O sedutor "convite" era realmente tentador e foi estampado largamente nos guias culturais da semana (Folha e Estado), blogs, matérias  na imprensa e no email que recebi da Câmara Portuguesa. era realmente tentador:  "Para comemorar tão significativa data e estreitar ainda mais os laços culturais com a Pátria-irmã, o governo de Portugal, através de seu Consulado, oferece ao público paulistano um concerto muito especial, no dia 13 de junho na Sala São Paulo. Única apresentação de António Zambujo, Mariana Aydar e Roberta Sá, com apresentação de Maria de Medeiros." Em todos eles a mesma informação: " A retirada dos ingressos gratuitos acontece a partir das 20h30 na própria Sala São Paulo."

Desconfiei. Afinal, em pleno  dia de Santo António, quando a esmola é muita... Hesitei (diferentemente do que pratiquei na minha juventude, hoje gosto de sair de casa com o ingresso ou a passagem no bolso).  Era sexta-feira, 13, lua cheia (linda) e alguns bruxos e bruxas de "universidades esotéricas" entrevistados pela imprensa aqui do meu subúrbio, asseguravam que, conjugados todos esses fatores, a data "traria muitos aspectos positivos". Afinal, essa tradição desse tipo de prognóstico e  "leituras" ambíguas remontam às pitonisas da antiguidade grega  e, pensei eu, se convenciam monarcas e imperadores, não custava acreditar.
Afinal, a Sala São Paulo, nossa mais charmosa e moderna sala de concertos e o programa, nada esotérico, era bastante apetitoso.  Fui. Fomos (eu, marido e duas filhas)
Prevenidos, chegamos com uma hora e meia de antecedência e lá já havia uma 50 ou 60 pessoas na fila e foram chegando mais, e mais... e a fila a perder de vista. Por outra porta, entravam senhores engravatados, com suas respectivas famílias, carros oficiais de embaixada e consulado deixavam alguns deles na frente do prédio histórico e foram entrando, às centenas. munidos de seus respectivos convites impressos, enquanto que os "convidados "informais" permaneciam na interminável fila que não parava de crescer.


Pois bem, aproximava-se a hora do concerto, 21h00, a fila dos excluídos, cidadãos enganados por um convite falso divulgado amplamente na imprensa, começava a mostrar inquietude. Alguns, como eu, saíram de seus lugares para indagar a razão da não abertura da bilheteria às 20h30, conforme anunciado, e os pobres homens vestidos de preto, assustados e munidos de fones de ouvido, seguranças sem nenhuma segurança, não sabiam o que responder. 
Subi a escada por onde entraram os senhores empertigados  e pedi para falar com alguém responsável por aquele desastroso concerto, quando vi que, atrás de mim, vinham outros, muitos. Não havia ninguém para responder, apenas uma pobre e linda recepcionista, já sem voz, que tentava justificar o injustificável:  "não esperavam tanta gente". "A sala está completamente cheia" (nota: pelos engravatados "convidados oficiais", após o coquetel que lhes foi servido - o cheiro ainda estava no ar). A possibilidade de liberação de entrada para os da fila sem gravata que há horas ali esperavam, a essa altura, mesmo sem um esclarecimento formal da organização, não mais seria possível.   Estava claríssimo que tratava-se de um evento "Fechado"  e que a falsa abertura para a "patuleia", convidada por convidar, não passou de uma falsa atitude tomada apenas para justificar as verbas despendidas num evento falsamente  "aberto" ao "público".
Os ânimos começaram a se exaltar e, quando dei pela coisa, já havia centenas de pessoas ali, ameaçando invadir a sala, se não chegasse alguém com alguma justificativa plausível. Quatro ou cinco seguranças, tentavam fechar a porta, quando uma senhora se postou ali e disse que eles não fechariam e não a tirariam dali até que alguém viesse com a justificativa. E nada, e nada. Barulho, muito barulho dos que, justamente, sentiram-se desrespeitados. E o impasse continuava. A multidão aplaudia e exigia a liberação da entrada (a essa altura o concerto a meio). Neste caso, e apenas neste, lamentei que o famoso isolamento acústico que abafa o ruído das locomotivas que passam ao lado, fosse tão perfeito e que os "de dentro" não pudessem ouvir o clamor dos "de fora". Realmente uma pena.
Foi essa lamentável trapalhada oficial, resultante de  flagrante e inaceitável amadorismo para um evento desse porte que resultou numa total falta de respeito aos que ali foram, seduzidos pelo tal convite "amplo" e "irrestrito". Esqueceram-se os organizadores de um pequeno detalhe: estávamos numa cidade de 13 milhões de habitantes e que um convite "aberto" para um evento "fechado", disparado larga e irresponsavelmente na imprensa, redes sociais e emails, pode resultar numa "guerra".
Portuguesa que sou, não me sinto representada no Brasil por esse Portugal ultrapassado, um Portugal de compadrios, um Portugal "pequeno" demais para sua grandeza histórica, um Portugal não compatível com o Portugal moderno, sua arte e cultura, ali muito bem representada por António Zambujo que, por certo, nem sequer soube do que ali ocorreu.  
Indignada, compreendi naquela hora muitos dos gestos (desmedidos) ocorridos nas incontáveis manifestações do último ano... Indignação não é controlável. Demorei para controlar a minha. Juro que pensei, em... Deixei pra lá, não tenho mais idade nem físico para isso e não esperei para ver o resultado. Só espero que os outros indignados tenham se acalmado para bem do patrimônio público que ali se encontra.  
No trajeto de volta, perguntas sem resposta, para além daquele lastimável episódio,  e que há muito tempo me faço, vieram  martelando o cérebro:
-será que para os titulares das instituições  representantes de Portugal em São Paulo  a comunidade portuguesa resume-se aos chamados "comendadores"  e algumas outras  figuras carimbadas sempre presentes às mesmíssimas festas galantes promovidas por  embaixada e consulados, destinatários únicos de eventuais mimos e verbas do Governo português? Nada contra os tais senhores (aliás, sempre senhores, há muito poucas senhoras "titulares" de convites, via de regra, comparecem apenas como "conjuges"), mas a questão é esta: quais os serviços relevantes prestados por essas instituições para a maior comunidade portuguesa fora de Portugal? 
Esta não é a primeira vez que me manifesto sobre estas questões.

Meu prontuário no Consulado de Portugal deve manter arquivadas algumas de minhas manifestações "oficiais" passadas. Fica mais esta para a coleção. Dalila Teles Veras, natural de Portugal, cidadã luso-brasileira, de fato e de direito. (a imagem é de Luzia Maninha, que ficou de me enviar um vídeo que posteriormente postarei também aqui).

5 comentários:

  1. A melhor descrição do que aconteceu ontem. Parabéns. Também estava lá e sou testemunha ocular de tudo relatado acima.

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  2. Lamento a situação que deu aso a tão forte texto.
    Lamento profundamente que os reflexos deste déspota (des)governo transponham fronteiras. Mais lamento que a arrogância, a prepotência, o despesismo,..., substantivos tão seus, pão que coloca na mesa da maioria dos portugues, também façam parte da bagagem diplomática.
    Nós, portugueses, não nos revemos em (des)Governos destes.
    Os portugueses merecem mais, assim como os nossos relacionamentos internacionais.
    40 anos de democracia merece muito mais.
    Portugal merece muito, muito, mais.


    Nota: Estranho a direcção do Centro Cultural Júlio Prestes não se ter apercebido que não tinha bilhetes para distribuir, levando-nos a deduzir que a tão balada oferta "ao público paulistano um concerto muito especial" (sic), não passou, afinal, de justificativa de verbas do erário público.

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  3. calados do começo ao fim, os (ir)responsáveis pelo acontecido ignoram solenemente todos aqueles que não fazem parte da mesma panela. suponho que ninguém - nem br nem pt - deu qualquer resposta e tampouco veio a público tentar "esclarecer" tal me...leca.

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  4. dalila teles veras20 de junho de 2014 15:01

    Tentei deixar o texto lá no site do Consulado, mas foi em vão. O site é mal construído e não dá brecha para "comunicação" com o público. Ainda não desisti. Pois, a contar pelos elogios tapinhas nas costas que o sr. Cônsul e outras autoridades presentes devem ter recebido dos convidados vip, devem a esta altura considerar um total sucesso o tal evento.

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